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terça-feira, 11 de julho de 2017

#AFORISMO 31/A MICAGEM DA DIGNIDADE ENSINA AO MICO QUANTO É MACACO O HOMEM DIGNO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Se eu entendo, se eu a-[preendo], com-[preendo]. Se há na verdade com que idealizo? É a manhã que desvela tudo, exaustões e amores, inépcias e paixões. Ignaros cochilam, encarcerados também. A terra afundada, a universalidade imagina destemor e volúpia, a eternidade fantasia cor-agem e covardia. Único objeto, numa rocha de treva circulada de tudo, é este sítio que anuvia, vazio de seus mistérios. Amores, ódios não nos são ditos. Aliás, itens... Emudeceram vontades e histerias.


O arvoredo sombrio de além confunde-se na generalidade das trevas. E, no meio deste negrume universal, distingo apenas luzes disseminadas, que são convidadas. À distância, na superfície de tudo, há reflexos de fogo descorados, verdes, vermelhos, amarelos.


Não fosse o convite, assim tão rápido e compulsivo de atenção, desejando fazer as cenas, como seria este arvoredo sombrio de além? Estivesse sim diante de uma árvore e fosse tomado por estes pensamentos? Deva de ser mui lindo e charmoso!...


“Ainda que as diferenças conheçam o oráculo obscuro da luz,
Se o enigma das mãos unidas não reunir o espírito,
O toque será vazio,
A carícia reconhecerá escuridões;


Ainda que os sonhos particulares timbrem apelos à eternidade,
Se as dúvidas cortam os corpos vulcâneos,
Esperanças avizinham mortíferas flechas,
Gritos despojam mortes transcendentes.


Se hei-de usar o amor e a verdade
Para com a vida, desço à fonte e tiro a água;
Se não, fico des-obrigado de minha presença e, então,
Toco com as mãos os estatutos do obsceno”.


Sinto um frio intenso no olhar. Olhar as coisas intensamente de modo frio seja o mais difícil de ser feito, entra-se nelas por inteiro e talvez a mente não deseja mais retornar. Não é só de desfrutar a presença o desejo. Não é só de degustar as palavras a vontade. Com evidência, mesmo sendo eu o único a reconhecer isto, a Paz tem um Sabor. Não é só um anseio a sensibilidade pura. Habito-me e sou habitado. O desejo de quem sou daí me expulsa. Sou levado às antípodas do infinito, onde só a subjetividade é capaz de perceber-me. Creio dever pedir-me desculpas, e por que não o devido perdão?, por ser homem extremista, compulsivo, e, sendo assim, preciso carregar bem no sentimento para que seja capaz de sentir com todo o seu esplendor e resplendor.


Trago-me ao mais longínquo aquém do ventre, de onde só a intuição é capaz de revelar-me, de onde, no entanto, deixo escapar o sendo, e, tornado sentido, continuo a tecer imagens, como antigamente.


A mais linda recordação só se revela como um escombro da paz. A mais bela lembrança só se manifesta como um vestígio da felicidade. A mais excêntrica melancolia só se envela como um resquício da alegria. Os olhos brilham intensamente. Antes, o mais difícil era olhar as coisas intensamente, o frio que se sente nele, agora, o mais simples é o brilho do olhar. E quem dera eu pudesse saber desta transformação que se foi elaborando no espírito, soube as veredas por onde caminhou, as alamedas por onde andou!... Não o posso, a lacuna é suficiente para se perceber que não se é possível mesmo esclarecer todas as meiguices insolentes do inferno. Não lhes posso destacar dos repiques dos sinos. Vivem um amor, sentindo a sua presença. A mais exótica e estética lembrança só se apresenta como um resquício de calma. Crio-me para en-velar a ausência. Crio para velar a presença que promete vir a ser de algum modo. Quiçá vers-ifique as contingências, ipseidades, facticidades, solipsismos para fugir léguas de quem estrofa melosidades do amor e da vida de solitário, carente, abandonado no mundo de amores não-correspondidos. Semelhança há, mas se referem à superfície. Sorrio na profundidade – “A MICAGEM DA DIGNIDADE ENSINA AO MICO QUANTO É MACACO O HOMEM DIGNO", - um perfeito sorriso infantil: só me resta manter uma relação de realidade com quem sou.


O menor pingo de orvalho da noite, lágrima que seja, em me umedecendo a fisionomia, já se me torna amável realidade. A mais estilística memória só se aflora como um real abstrato. A respeito da alma, fico apenas como uma interrogação. Uma paixão flameja como uma chama por todo o ser. Não me importa a mim, sendo uma correspondência íntima. Nos sentidos e significados, da alma a presença não sinto. Por estar envolvido, por não aceitar, o que está sendo revelado despercebido passa.


A antiga devoção renasce, cheia de fervor sentimental.


(*RIO DE JANEIRO**, 11 DE JULHO DE 2017)


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