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sexta-feira, 14 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO VII..................

Deus, segundo Spinoza, à medida que é causa eficiente de todas as coisas, é a condição prévia, no sentido de uma anterioridade lógica e não cronológica, de tudo o que decorre de sua potência. As coisas, de fato, envolvem Deus por sua existência, visto que a existência de Deus não é explicada por elas.

A comunidade de ser é acompanhada de uma distinção quanto à essência e à existência: a existência de Deus é necessária no sentido em que, causa de si, ela decorre de sua essência, ao passo que as coisas singulares têm Deus por causa necessária de sua essência e de sua existência, mas a sua essência não contém Deus como uma propriedade.

A imanência do ser infinito tem seus efeitos e a distinção que se estabelece entre a substância e seus modos, tanto no plano da essência como no plano da existência, significam uma e a mesma coisa: o modo é um efeito determinado do ser infinito e está dotado tanto de uma essência como de uma existência que lhe pertencem como próprio.

Assim, poder-se-ia distinguir uma dupla atividade de Deus: de um lado, a determinação interna, in se, da essência como potência singular e, de outro lado, a determinação externa, atransitiva ou in alio, pelas outras essências e existências singulares. 

Com a exclusão do espírito religioso, será forçoso reconhecer que o mundo, como força, não pode ser concebido como ilimitado, e será preciso concluir que a noção de força infinita é agora até mesmo incompatível com o conceito de força.  O mundo como força é uma quantidade finita. Finita e fixa. Pois, se as forças tendessem a diminuir, como já transcorreu um tempo infinito, o mundo teria sucumbido.

A estrutura onto-teo-lógica da metafísica criou em sua dinâmica Histórica de Absolutização o mundo técnico-científico do sistema de controle, onde Deus está morto. Na situação atual não se pode falar em Deus. A metafísica se apoderou de todas as palavras, de toda a gramática e de todas as expressões, transformando-as em outras tantas funções de sua estrutura onto-teo-lógica. Estamos tão saturados de linguagem metafísica que só nos resta o silêncio. É por isso que o Pensamento essencial é “um pensamento sem Deus”. 

Em verdade, parte da Europa entrava nesse processo de ateísmo, de secularização. Os tão apregoados ateísmos, secularização nunca deixaram de ser enganosos.  

O ateísmo do século XIX alemão era, antes de tudo, o resultado da crise do sistema hegeliano, que comentaremos mais tarde, quando os “jovens hegelianos” tratam de desfazer a unidade que o mestre instituíra entre cristianismo e filosofia – onde a filosofia apenas diria, com boa gramática, o que o cristianismo já falava, só que expressando-se mal.

E se o seu modelo mais acabado era a dissolução da teologia na antropologia, tal como Feuerbach a empreendera em A essência do cristianismo, de 1841. Ali, Feuerbach procurava mostrar que a religião – na verdade uma antropologia que esqueceu sua origem demasiado humana – nasce de um duplo movimento, de transposição e de depreciação.  

Conforme análise do movimento de transposição, Feuerbach pretende indicar que o Deus cristão não é senão a própria essência humana agora hipostasiada. A operação constitutiva da religião é retirar do homem suas forças, qualidades e determinações essenciais, para divinizá-las sob a forma de seres independentes.

O objeto religioso não é senão a própria essência do homem, tomada como Gegenstand, e a consciência de Deus é uma consciência de si do homem, mas que se desconhece como tal. E é esse desconhecimento que funda a essência própria da religião. O homem projeta fora de si a sua essência, antes de reencontrá-la nele mesmo: é a consciência dessa alienação, até então despercebida, que deve transformar a religião na sua verdade – a antropologia.
O que significa, para Feuerbach, essa “essência” do homem? A essência humana é o homem enquanto “ser genérico”, não enquanto indivíduo. Se o indivíduo é limitado, o gênero não o é: se a razão, amor e vontade são limitados enquanto atributos do indivíduo, não o são enquanto atributos do gênero humano, da essência. Se o Deus dos teólogos é construído como predicados humanos pensados como ilimitados, essa ilimitação, ausente do indivíduo, está presente na espécie, e por isso mesmo a oposição entre o divino e o humano é ilusória: ela só designa a oposição entre a essência humana e o indivíduo humano e, se é assim, o objeto e o conteúdo da religião cristã são, do começo ao fim, humanos. Assim, a religião, “pelo menos a religião cristã, é a relação do homem consigo mesmo ou, mais exatamente, com seu ser, mas uma relação com seu ser que se apresenta como um ser outro que ele.  

Declarar que Deus morreu é mergulhar em um vasto horizonte onde nada parece ter sentido, onde nada parece valer a “pena”; adentrar num nada infinito onde não há apoio, amparo, consolo, é niilismo absoluto, é estar jogado no mundo; penetrar num abismo, cujo fim só é estabelecido e concretizado a partir do instante em que escolher o caminho de volta à superfície.  Apresenta caráter positivo. Pregar a morte de Deus e fazer a mais ácida e violenta crítica ao cristianismo significa tê-los feito a partir de experiência radical do Deus vivo, do Deus real.

O grande inimigo da Antiguidade foi o Cristianismo. O Cristianismo é hostil à vida – volta-lhe as costas – e assim destruiu a antiga cultura, exatamente porque era através da antiga cultura que a vida florescia. O cristão é um decadente e atua por forma desintegradora, tóxica e estiolante, como uma sanguessuga.

O Cristianismo foi o vampiro do imperium Romanum – numa noite estilhaçou a estupenda realização dos Romanos .

O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando-lhes a perceber como pecaminosos, como enganosos, como tentações os valores supremos do espírito .

Num dos seus primitivos ensaios, assim nos diz Nietzsche:

De fato, de tempos a tempos e aqui e ali, um exuberante grau de compaixão abriu, durante um curto prazo, caudais de vida de Cultura, um arco-íris de compassivo amor e de paz surgiu com o radiante alvorecer do Cristianismo e nasceu então o seu mais belo fruto – o Evangelho segundo S. João .

Tomando em consideração esta análise, será que o “ateísmo” de Nietzsche teria algum parentesco com o de Feuerbach, e a proposição “Deus está morto” seria formulada com o mesmo sotaque? Não faltam textos que fazem esta abordagem, não faltam textos que possam sugerir essa interpretação.

E assim quando Nietzsche afirma querer

[...] restituir ao homem, como propriedade sua, como produção sua, toda beleza e sublimidade que projetou sobre as coisas reais e imaginárias, para fazer deste modo sua mais bela apologia. O homem como poeta, como pensador, como Deus, como amor, como poder: oh!, com sua magnanimidade real ele enriqueceu as coisas para empobrecer-se a si mesmo, para sentir-se miserável. Esta foi até agora a sua maior abnegação: a de admirar e adorar, e saber ocultar-se que era ele mesmo o que criava aquilo que admirava .

Neste ensaio, declara que “no caso de muitos Estados, como, por exemplo, na constituição que Licurgo deu a Esparta, podemos descortinar claramente o cunho dessa idéia fundamental do Estado, isto é, a criação do gênio militar”. E depois continua a estabelecer o princípio geral de que “todo o ser humano, em plena atividade, unicamente tem dignidade à medida que, consciente ou inconsciente, é um instrumento do gênio”.

Nietzsche parece retomar, por sua própria conta, os dois movimentos de transposição e depreciação que costuravam a crítica feuerbachiana à teologia. O que falta para afirmar que a antropologia é a verdade da alienação religiosa? Essa interpretação é sobremodo apressada. Por um lado, o “insensato” se vê na obrigação de anunciar a morte de Deus aos próprios ateus, quer dizer, aos feuerbachianos. Por outro lado, em O anticristo, Nietzsche apresenta uma avaliação da filosofia alemã que levanta suspeitas quanto ao seu propalado ateísmo. O sacerdote protestante é o avô da filosofia alemã – diz Nietzsche -, e o protestantismo é o pecado original dessa filosofia.

(**RIO DE JANEIRO**, 12 DE JULHO DE 2017)

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