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quarta-feira, 19 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO IX........................


Antes de levantar uma crítica ao Cristianismo propriamente dito, Nietzsche retoma sua origem; aliás, é característica primordial do autor fazer uma genealogia da palavra ou termo que vai ser tratado – lembrar que a formação acadêmica de Nietzsche é a de filólogo. É analisando o terreno onde tal termo é construído, que podemos ter convicção maior daquilo a que vamos fazer referência.


Quanto à origem da religião, assim nos diz:


A necessidade metafísica não é causa das religiões, como o pretende Schopenhauer, mas trata-se apenas de uma manifestação posterior das religiões. Sob o império das idéias religiosas ganhou-se o hábito de conceber um “outro mundo” (pré-mundo, supermundo ou submundo) e, no dia em que a quimera se desmorona, experimenta-se um vazio angustiante, uma privação; é então que, desse sentimento, nasce de novo um “outro mundo”, mas este simplesmente metafísico, não religioso. Relativo ao primeiro, o que levava na origem a admiti-lo, não era uma necessidade, um instinto, mas um erro na interpretação de certos processos naturais, uma perturbação da inteligência .


O Cristianismo herdou muitos traços do judaísmo, ambiente no qual foi formado. Ganhou, todavia, seu estatuto de religião, após a morte de Jesus Nazareno. Teve em suas bases São Paulo que, segundo Nietzsche, não passa de um salteador, de um vingador. Antes era perseguidor daqueles que seguiam Cristo, agora, após uma suposta conversão, procura propagar um Cristianismo que nada se assemelha àquilo que foi de fato o verdadeiro ideal de Jesus Cristo; sendo assim, o Cristianismo é uma deturpação do ideal cristão.


Como interpretar o sentido da relação do judaísmo com o cristianismo. Ora, mesmo descartada a absurda acusação de anti-semitismo, textos bastante numerosos de Nietzsche sobre o judaísmo não deixam de causar surpresa. A dificuldade de sua interpretação parece vir do entrecruzamento de duas teses: de um lado, a importância histórica capital do judaísmo está ligada ao fato de que com ele se realizou a primeira grande inversão dos valores. De outro lado, ao contrário do que afirmam todos os filósofos, tanto cristãos como ateus, não há nenhum progresso do judaísmo ao cristianismo, mas uma agravação da doença que caracteriza o animal homem. Segue-se daí que a interpretação do cristianismo é a tarefa primordial da crítica filosófica – mas também que a apreciação do judaísmo depende totalmente de sua relação com o cristianismo.


No Antigo Testamento judeu, o livro da justiça divina, há homens, coisas e discursos de um grande estilo que o corpus literário grego e indiano não tem nada de comparável para apresentar. Ficamos tomados de medo respeitoso diante dos restos extraordinários do que era o homem de outrora, e tristes pensamentos nos surgem a respeito a Ásia Antiga e de sua pequena península avançada, a Europa, que desejaria, face à Ásia, ter como sentido “o progresso do homem”. Sem dúvida aquele que não é mais do que um animal doméstico, frágil e dócil, só conhece necessidades de animal doméstico (como as pessoas cultas de nossos dias, inclusive os cristãos do cristianismo “culto”), aquele não deve ficar surpreso, nem afligir-se diante desses vestígios – o gosto adquirido no Antigo Testamento é uma pedra de toque para a avaliação do “grande” e do “pequeno”, talvez ache ele que o Novo Testamento, o livro da graça mais ainda segundo seu coração (nele sente-se mais o autêntico odor adocicado e enjoativo das medíocres almas beatas) .


Se o antijudaísmo cristão e o antijudaísmo “filosófico” são fontes do anti-semitismo do século XIX e XX, então deve ficar claro que Nietzsche não adira a nenhum deles. Ao contrário, sempre insistiu nas qualidades de tenacidade do povo judeu e sua superioridade, relativa, sobre os outros povos.
Nietzsche enxerga em São Paulo aquele tipo de homem que, após ganhar a confiança dos cristãos (estes delegaram suas vidas ao grande mestre, São Paulo, acreditando ser esta nova doutrina uma condição de existência e de inovação), desenvolve um ideal distante do proposto, voltado para uma dimensão particular, nos moldes do que consideravam sagrados. Assim, os acontecimentos-cernes de todo a doutrina do milagre, como a Ressurreição, são conseqüências da glorificação da comunidade, que delegou ao mestre suas possibilidades, deixando-o mergulhar livre num vasto universo de invenções.
Observando os passos de Cristo, Nietzsche conclui que o Cristianismo:


Não está ligado a nenhum dos dogmas impudentes que se adornaram com seu nome. Não tem a necessidade nem da doutrina de um Deus pessoal, nem do pecado, nem da imortalidade, nem da redenção, nem da fé; pode absolutamente dispensar a metafísica, e ainda mais o ascetismo e também uma ciência natural cristã... O cristianismo é uma práxis e não uma doutrina. Diz-nos como devemos proceder e não o que devemos crer .


Desta maneira, Nietzsche relata a distância que o Cristianismo está do movimento cristão em seus primórdios.
Na visão de Teillard, o próprio homem ainda se não completou. O homem encontra-se em processo de vir-a-ser: a hominização, a antropogênese, ainda não foi concluída. Ela impele à cristogênese, e esta, por último, a sua futura plenitude, seu “pleroma” (em grego: plenitude) no “Ponto ômega”, onde a aventura individual e coletiva do homem se completa e se conclui, e onde a completude do mundo converge a completude de Deus.
Esta “pleromização”, este chegar à plenitude, este evoluir do cosmos e do mundo para a frente e para cima, culmina no Cristo cósmico universal, que para Teillard é a unidade personificada da realidade de Deus e da realidade do mundo. Para ele, tudo isto, evidentemente, não é uma visão resultante da razão pura, mas sim do conhecimento da fé. Em seu escrito Comment je crois ele formula seu credo:


Creio que o universo é uma evolução. Creio que a evolução se dirige para o espírito. Creio que o espírito se completa no pessoal. Creio que o pessoal máximo é o Cristo universal


Em sua obra “Vontade de Potência”, ele chega a afirmar que toda a verdade e doutrina pregada pelo Cristianismo não passam de mentira. Assim, o que a Igreja considera cristão não corresponde absolutamente nada com a idéia-cerne; é, na realidade, anticristão, pois houve uma verdadeira inversão de idéias: “objeto e pessoas em vez de símbolos; a história em lugar dos fatos eternos; fórmulas, ritos e dogmas em lugar de uma prática de vida” , ou seja, a total indiferença aos dogmas, ao culto, aos padres, à Igreja, à Teologia, nisto concerne o que é cristão. Todavia, o Cristianismo, apesar das críticas, não é algo monstruoso; aliás, sua prática é uma reta que leva à felicidade .


Apesar da sua brusca crítica à religião, sobretudo ao Cristianismo, Nietzsche atribui positiva e benéfica função à religião. Entre elas, afirma que, talvez, não haja nada tão admirável no Cristianismo e no Budismo como a sua arte de ensinar, mesmo aos mais baixos, a elevarem-se a uma ordem de coisas, aparentemente, superior e, desta forma, conservaram-se satisfeitos com o mundo atual, em que elas julgam bastante difícil viver, sendo esta própria dificuldade uma necessidade.


Embora Nietzsche faça uma valoração da religião, como sendo benéfica em certos aspectos para o rebanho, rejeita por outro lado o Cristianismo, quando este se trata de homens superiores. Seu ataque se baseia na crença de que o Cristianismo é hostil à vida, entendendo a mesma como a vontade de potência, termo que trataremos posteriormente, e o desejo ardente de autoridade por parte do homem forte. O Cristianismo, porém, provocou um conflito letal contra o tipo superior de homem, declarando-o desprezível e se posicionou junto a tudo que é fraco, inferior e inacabado, corrompendo até os mais fortes intelectos, passando a ensinar que os mais altos valores da intelectualidade são pecadores, embusteiros e cheios de tentações. É a própria religião do rebanho, onde os oprimidos de todas as espécies, de todos os medíocres e insatisfeitos exprimem a vontade de potência.


A vontade de potência descreve a estrutura “formal” de toda e qualquer posição do querer, na qual a vida se desenvolve. Assim, com o conceito de “vontade de potência”, não se quer dizer que a vontade se dirija à potência como ao seu “fim”, segundo o velho esquema da vontade-faculdade. No Zaratustra, Nietzsche deixa claro que a expressão “desejar a potência” é tão absurda quanto a expressão “querer a existência”. Uma “vontade de existência, diz Nietzsche, simplesmente não existe, pois o que não é não pode querer – e como aquilo que está na existência poderia desejar a existência?
Ao afirmar que o “mundo” é vontade de potência, Nietzsche procura compreender um conceito de natureza – na qual nos incluímos – como processo do vir-a-ser na forma dessa vontade, vir-a-ser que é superação de si e necessária autodestruição. A tarefa de compreender a vontade de potência como o princípio de todo vir-a-ser e de todo agir pressupõe que se possa reconduzir a totalidade dos fenômenos naturais a essa vontade, e por isso o mundo “visto de dentro”, determinado e designado por seu “caráter inteligível”, será vontade de potência, e nada além disso.


(**RIO DE JANEIRO**, 16 DE JULHO DE 2017)


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