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sexta-feira, 21 de julho de 2017

ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO XI..............................


No versículo do Evangelho de São João “Vem para o que é seu,/mas os seus não o recebem” , a inteligência humana pode fechar-se à inteligência criadora. Contudo, esse versículo é também a afirmação da liberdade do homem. O homem nunca é forçado a acreditar ou amar... A luz e o amor do Logos podem bater à sua porta, compete-lhe abrir e receber.


Segundo uma interpretação mais filosófica, dir-se-ia que o Logos está “no que é seu” no espírito (nous) do homem e que o espírito do homem pode limitar-se, fechar-se, diante do que o supera. Nesse caso, irá pensar em Deus e no mundo nos “limites da simples razão”. Contudo, a grandeza da razão consiste em reconhecer seus próprios limites. A grandeza da inteligência é conduzir aos limites do que é suscetível de ser pensado, exatamente o discurso termina e consegue a plena realização no silêncio e na contemplação!...


[...] O meu abismo fala. Tornei à luz a minha última profundidade .


O silêncio não é apenas palavra que se perde, que segue a poeira de curvas longínquas – palavras ditas neste bom senso romântico expressam e fazem chorar os homens perdidos em cada sombra das árvores de morangos silvestres, quando deveriam fazer sorrir os indivíduos em cada instante de suas vidas. Sei que na contemplação de cada momento no per-curso das horas tinidas pelos relógios, pelos sinos de uma vasta área de plantações, elevo o espírito em busca de um sentimento que expresse a vida.


Para existir, o homem tem que se imergir e entregar-se aos entes. A palavra imanência significa esta contingência. A necessidade do homem de estar sempre presente ao mundo dos entes, para chegar a ser ele mesmo. Exprime que o homem não pode ser o ente que é, senão encarnado no mundo. Em contínua comunhão com os outros entes.


Ao entregar-nos à contemplação, estamos buscando saciar a nossa sede de conhecimento. No deserto do conhecimento, o homem se alimenta de perguntas. Maná, em hebraico: “man hû” quer dizer: “O que é isto?” E é à força de perguntar que ele se aproxima do seu nome: “Adão”. Este nome, na soma das letras, segundo os exegetas judeus, indica a cifra “o quê?”.


A esfinge, que nos espera na entrada do deserto, sabe que “o homem” não é a resposta, mas à medida que o homem o vai atravessando terá que se agüentar como questão.
A trilha de acesso ao silêncio, este que nos habita intimamente, e nos apresenta a todo instante, seja em imagens, símbolos, arquétipos, metáforas, signos, a chave da sabedoria: aquilo que sabemos é finito; o que não sabemos, infinito. Quando se chega à borda desse não-conhecimento, à beira do abismo, há uma espécie de embriaguez e de vertigem, um abismo, um vinho doce que nem todos os sábios estão dispostos a beber.


No 5º Versículo de Prólogo de São João, “A luz brilha nas trevas (En te skotia phainem),/mas as trevas não conseguem alcançá-la”, a luz por si mesma é invisível; para entrar no campo de nossa percepção, tem necessidade de tomar certa densidade (nesse caso, torna-se uma nuvem), tem necessidade de certa matéria que é – por sua própria natureza – mais ou menos pesada e sombria. É possível compreender este versículo? É na matéria (skotia) que a luz (phos) torna-se um fenômeno (phainen), que ela se torna perceptível no espaço-tempo.


Julgou-se, muitas vezes, que, neste versículo, tratava-se do povo judeu e da Terra de Israel. Com efeito, não será que, nas palavras da Torá e no ensinamento dos sábios e profetas, o Logos estava no que era seu? A informação criadora que fala através dos elementos do cosmos, assim como através da boca dos inspirados, não tinha sido coletada nos livros santos?


Israel existe como uma evocação, no meio do tempo, do que não é tempo. É um povo que, normalmente, não “ignora” o Logos, no sentido do versículo precedente – “Ele é a vida de todo o ser./A vida é a luz dos homens” - mas que, pelo seu reconhecimento ao longo de seu destino tumultuado, convida as nações a essa abertura para a transcendência que pode salvá-los do absurdo e da morte.


Para São João, parecia que o povo judeu não tinha reconhecido o Logos em sua forma corporal. “Perscrutam as Escritas, mas não querem vir a mim para receberem a vida [...]”.


Muitos dos temas desenvolvidos por Fílon de Alexandria serão retomados, frequentemente, na patrística e na Idade Média. A história da exegese do primeiro versículo do Evangelho de João seria longa, e ainda está por fazer. O sentido do Logos permanece inesgotável:


O caminho mais necessário para nosso pensamento é longo; conduz simplesmente a isto: sob o nome de Logos, permanece o que devemos pensar. Por enquanto, são poucos os sinais que indicam tal caminho.


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE JULHO DE 2017)


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