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quarta-feira, 26 de julho de 2017

À LUZ DE IAWEH E CRISTO - ENSAIO DE EXPERIÊNCIA MÍSTICA N´AS PALAVRAS DE SARTRE. - MANOEL FERREIRA NETO: ENSAIO


LITERATURA, FILOSOFIA E ENGAJAMENTO - PARTE III...


O projeto sartreano foi uma variante do projeto platônico: mas diversamente de Platão, Sartre acredita que a fusão da política e da filosofia exige este terceiro termo que Platão escorraçava da cidade: o poeta, o literato. Alguns se surpreenderam com as páginas que Sartre consagrou a Mallarmé. E por quê? A literatura para os homens do fim do século XIX e do começo do século XX foi um substituto para a piedade, maneira civilizada e derivada de se reconstituir uma fé ingênua, um mundo de crença bruta. Foi também um meio de ver-se diferentemente do que se é e mesmo de fazer outra coisa que aquilo que se faz.


Os revolucionários de 1789 acreditavam realmente que eram antigos romanos; a coisa não fez senão crescer e ficar mais bela, e agora que nossos contemporâneos, excluídos da história que não querem fazer porque ela liquidaria os privilégios, não têm verdadeiramente mais nada a dizer, suas consciências “ingênuas” e “espontâneas” são jogos de carta literários. Cada um se define pelo par, pela trinca ou pela seguida que lhe escondem sua própria realidade.


Na nossa sociedade, a literatura é um alucinógeno. Esta unidade da literatura e da filosofia que Sartre manteve com brilho, para nós deve ser destruída. De um lado a filosofia, abandonando seu flerte com os romancistas e os poetas, encontrará sua intenção teórica pura, e de outro o “engagement” político dependerá mais da arte do verbo, porque a sociedade na qual vivemos está condenada a se recusar cada vez mais selvagemente a ouvir a razão, conduzindo-nos assim lentamente, mas firmemente, para a necessidade da violência pura, porque nada a não ser o terror fará agora a burguesia recuar.


Violência política sem dúvida, mas também violência intelectual, pois o ideal da teoria filosófica pura, não nos enganemos quanto a isso, não é um amor humanista e delicado, mas a vontade de saber, a vontade de compreender, a vontade de opor ao nada dos poetas o rigor inflexível do verdadeiro, que é, ele também, como Platão bem tinha enxergado, uma forma de violência.


Sartre entende a literatura – a narrativa – a partir da situação: “sem narradores internos nem testemunhas oniscientes”, mas com “consciências semilúcidas e semi-obscuras”, sem “ponto de vista privilegiado”, “criaturas cuja realidade seria o tecido confuso e contraditório” das apreciações relativas. Seria isso exacerbar a historicidade? Não, já que nada pode impedir que os atos vividos na irredutibilidade da subjetividade apareçam com a densidade do absoluto, com o fervor que se ampara na própria incerteza e no próprio risco, numa relatividade inexorável.


Para compreender efetivamente a história, é preciso saber que a certeza e a explicação pertencem ao historiador, não à história. O momento histórico é aquele em que cada um, livre e desamparado, se salva ou se perde, pois tem que reagir ao inesperado, ao surpreendente, ao incompreensível, ao irreversível. Nenhum ato está em continuidade com o Bem ou com o Mal, enquanto referências prévias e universais; em cada ato, O Bem e o Mal estão absolutamente em jogo a partir de entendimentos e vontades finitas e relativas. É esse lado inexplicável da história que dá à experiência da liberdade histórica o “gosto amargo”, que consiste em “empreender na incerteza e perseverar sem esperança” .


O autêntico realismo deve dispensar as mediações entre o leitor e a consciência da personagem; deve fazê-lo coincidir com o evento e com o tempo dessa consciência. Ao mesmo tempo, como um evento ultrapassa aquela consciência e todas as consciências, porque se revela de formas diversas a cada uma delas, seria preciso fazer o leitor entrar em todas as consciências, coincidindo com a temporalidade de cada uma e ao mesmo tempo superando a todas. Tarefa tecnicamente difícil se se renunciou ao ponto de vista da testemunha onisciente. Mas é a única maneira de restituir à literatura a sua historicidade e dar-lhe como destinatário o universal concreto, a partir de um compromisso com todos os homens historicamente engajados na mesma adversidade. Veja-se que problemas técnicos de narrativa não são neutros.


As mudanças de procedimentos a que a narrativa contemporânea foi conduzida representam um esforço para tornar mais efetivo o apelo à liberdade do outro, para fazer que a experiência de leitura não contradiga a experiência histórica.


Chegamos ao núcleo ético do que se denominou a tarefa da literatura. Aqui se entende talvez melhor a razão da insistência de Sartre em que a leitura é ato constitutivo da narrativa e não apenas uma simples apropriação. Noutras palavras, é trabalho, mais do que contemplação ou fruição. Justamente, essas duas categorias foram, são enfatizadas no século XIX para que ficasse nítida a relação de exterioridade entre o leitor burguês e a obra que lhe contestava em imagem, para que ele pudesse sempre concluir: “é apenas literatura”. Isto é, consumo gratuito da hora de lazer. Algo que poderia ter, a partir do seu ser, mas que em nada interferiria no modo como ele produz do seu ser. Tudo que o burguês incorpora, tudo que ele vem a ter, se dá pelo modo da apropriação, e a literatura não seria exceção.


No entanto, depois que o pensamento mostrou, com Marx, o valor constitutivo do trabalho, é impossível não considerar que a articulação entre ser, ter e fazer é essencial para a compreensão da realidade humana. O fazer parece estar fora dessa articulação porque na sociedade atual o trabalho é alienado, e o homem não se reconhece na sua atividade produtiva. Dessa forma, fica definida a função da literatura. Ao devolver a imagem da sociedade a si própria, ela negará o trabalho alienado e ao mesmo tempo afirmará a ação criadora do ser humano. Com isso, ela estará realizando o trabalho de negação, próprio da literatura, mas que não se esgotará em si mesmo, pois se apresentará ao mesmo tempo como meio de superação daquilo que é negado.


Apresentar o homem como produtor não é resignar-se à imagem capitalista do ser humano, desde que a produção e o trabalho sejam mostrados como integrados à capacidade criadora do homem e não como algo com que ele se relacionaria alienadamente. A alienação é superada quando se mostram ao indivíduo “os princípios, os objetivos e a constituição interior da sua atividade produtiva”, isto é, quando se esclarece para ele o significado “dos seus trabalhos e dos seus dias” .


Somos aquilo que fazemos? O que fazemos a nós mesmos? E ocorre isso na sociedade atual, em que o trabalho é alienado? Que fazer, que finalidade escolher, hoje? E como fazer, por quais meios? Quais são as relações entre o fim e os meios numa sociedade baseada na violência?


Todas essas questões se resumem no questionamento da alienação e indicam que o trabalho da literatura deve ser a superação da alienação. Historicamente, isto é, em termos de uma “finalidade” a “escolher, hoje”, a relação entre ética e literatura se realiza por via da opção por uma literatura da práxis, qual seja, uma literatura que leve o sujeito a ver-se como produtor da história (qualquer fazer é antes de tudo fazer história) e assim a reencontrar-se na relação entre o fazer e o ser, já que o “fazer é revelador do ser”. A literatura da práxis responde à solicitação histórica da nossa época. Não descreve o mundo; revela-o nos empreendimentos humanos.


O escritor tem uma responsabilidade moral, assumida politicamente perante a história. A autonomia da literatura não supera a sua historicidade: “Não se trata de escolher a sua época, mas de se escolher nela”. O que significa que, vivendo nessa época, em que a dimensão metafísica da totalidade humana se apresenta na forma da alienação, o escritor tem que trilhar “esses caminhos austeros”, os quais, a bem dizer, “não afirmo que tenhamos escolhido”. Então, fora disso, somente a má-fé e a inautenticidade, o ser-escritor como autofetichização?


Adorno, após descrever o engajamento como “decisão, como condição de existir, frente à neutralidade espectadora”, acrescenta:


A categoria de decisão, originariamente de Kierkegaard, acresce-se em Sartre da herança cristã do: quem não está comigo está contra mim, porém sem o conteúdo concreto teológico .


Ora, “a decisão, como condição de existir” é algo que se pode generalizar para todos os aspectos da vida, de forma que para tudo valeria o engagement tal como Sartre o concebe. Por sua vez, o escritor tem que dar à sua “decisão” a expressão literária, e ele deve fazê-lo de forma significativa, isto é, sem desvincular completamente a palavra daquilo que ela já é no discurso comunicativo não literário.


Adorno observa que, se é bem verdade que a palavra, transposta literariamente, conserva algo de sua origem funcional, também é certo que a significação não permanece inalterada. A simples recontextualização a altera. Há que se considerar também que as significações externas, se e quando conservadas na obra, são o não-artístico da arte e podem vir a constituir a mensagem no sentido de propaganda. Nesse sentido, é importante distinguir a arte engajada da arte tendenciosa.


O que Adorno se pergunta, afinal, é se a “decisão” do escritor é suficiente para sustentar o movimento dialético interno que, na arte, relaciona arte e política. Quando esse movimento não se realiza adequadamente, a arte pode ser verdadeiramente engajada, mas politicamente “inverdadeira”, como acontece em certas peças de Brecht, nas quais a intenção de apresentar realisticamente a essência do capitalismo fracassaria artisticamente pelo fato de que essa apresentação de essência não faz uso das aparências .


Sobre o engajamento oficial, Sartre não poderia ser mais explícito:


Caso se pergunte hoje se o escritor deve, para atingir as massas, oferecer os seus serviços ao partido comunista, respondo que não; a política do comunismo estalinista é incompatível com o exercício honesto do ofício literário.


(**RIO DE JANEIRO**, 27 DE JULHO DE 2017)


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