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segunda-feira, 24 de julho de 2017

ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO XIV....


Se a idéia de Deus é, para Sartre, irrealizável, não é desprovida de significação. Deus não é uma realidade, mas uma idéia: é a imagem modelo da estrutura do homem. Essa representação-limite é a expressão do desejo da consciência, a encarnação do ideal da perfeição moral, a idéia hipotética da humanidade. Deus é o eidos segregado pelo “eros” do homem. Sartre conjugaria as conclusões de Blondel considerando que Deus é “absolutamente impossível e absolutamente necessário ao homem”.


Sartre vê na negação de Deus o prelúdio necessário para a eclosão da liberdade. O ateísmo sartreano implica um projeto negativo da onto-teologia? Sim e não, considerando alguns aspectos. Sim: o grande desafio de nossa época é o de conversão do homem de sua Não-Essência para sua Essência.


Trata-se de uma conversão que recoloca o homem em seu lugar de origem na linguagem do Ser. Se a nadificação operada pelo projeto contradiz a própria hipótese de um criador, não será porque a reflexão metafísica identificou secretamente o nada da consciência com o “ex-nihilo” dos “criacionistas”?


O conceito de homem que desenvolve suas potencialidades em nada implica a formulação de um ideal impossível, encarado a partir do ponto de vista ilusório do Terceiro absoluto, Deus, mas requer que se capte a realidade desconcertante das estruturas de dominação do processo dinâmico de seu desdobramento objetivo e de sua dissolução potencial, do ponto de vista de um sujeito coletivo que se autodesenvolve.


Porém, se Deus é caracterizado como ausência radical, o esforço para realizar a humanidade como nossa é sempre renovado e sempre resulta em fracasso. Assim, o “Nos” humanista – o Nos-objeto – é proposto a cada consciência individual como um ideal impossível de ser atingido, embora todo o mundo mantenha a ilusão de ser capaz de ter êxito nisso pela ampliação progressiva do círculo de comunidades a que pertence. Esse “Nos” humanista permanece um conceito vazio, mera indicação de uma extensão possível do uso vulgar do “Nos”. Toda vez que utilizamos o “Nos” nesse sentido (para designar a humanidade sofredora, a humanidade pecadora, para determinar um significado histórico objetivo, considerando o homem como um objeto que está desenvolvendo suas potencialidades), limitamo-nos a indicar determinada experiência concreta pela qual se alcança a presença do Terceiro absoluto; isto é, de Deus. Assim, o conceito-limitador de humanidade (como a totalidade do Nos-objeto) e o conceito-limitador de Deus implicam um ao outro e são correlatos .


Nietzsche medita intensamente sobre Deus e o mundo, vaga pelo seu imensurável oceano interior e adivinha para onde poderia se dirigir essa viagem; seria preciso tornar-se um indivíduo que conforma a si próprio e, ampliando seus círculos, consegue elevar-se o mais possível.


Proclamando a morte de Deus, o autor da Gaia ciência vira-se contra o domínio das idéias platônicas onde se refugiaram o Deus cristão, assim como as idéias do período moderno, tais como a felicidade, a democracia, o progresso e a Razão. Condenar o niilismo é instaurar um processo a este dualismo dos dois mundos que inspira a filosofia ocidental.


Votar um culto a Deus e aos ideais é cultivar a morte. O grito do arrebatado: “Deus está morto”, não é o grito do ateu, pelo contrário, é a constatação lúcida da morte de um Deus já morto desde há muito tempo.


Nietzsche estabelece uma nítida distinção entre o Cristianismo – referimo-nos à obra Anticristo -, como uma realidade histórica, e o próprio Jesus Cristo. “Que negou Cristo? – Tudo aquilo que hoje é chamado cristão” . Assim o credo cristão é simplesmente “uma fútil falsidade e decepção” e não foi ensinado por Cristo; depois, a organização eclesiástica do Cristianismo é radicalmente anticristã.


Ser realmente cristão significaria ser absolutamente indiferente a dogmas, cultos, padres, igrejas e teologias .


Cristo pregou simplesmente a VIDA, oferecendo “uma outra vida real, uma vida de verdade, para a vida vulgar”. As doutrinas de um Deus pessoal, do pecado e da redenção, a fé e a imortalidade são dogmas despropositados e estranhos ao Cristianismo na sua essência.


O fundador do cristianismo considerava que nada poderia fazer sofrer mais os homens do que os seus pecados; foi esse o seu erro, o erro daquele que se sentia eximido de pecados, daquele a quem faltava experiência quanto a isso! Foi assim que a sua alma se encheu com essa maravilhosa e quimérica compaixão por um mal que o seu próprio povo, que era o inventor do pecado, poucas vezes considerava um grande mal! Mas os cristãos souberam, mais tarde, provar a inocência do seu mestre e santificar o seu erro, fazendo dele uma “verdade” .


Nietzsche inverte o processo do niilismo: substitui Deus pela realidade, a morte pela vida; no lugar dos ideais normativos, põe a Vontade de poder. Esta inversão é verdadeiramente uma superação? Ao invés de destruir as raízes do niilismo, Nietzsche não se contenta em dar, deste fenômeno, nova versão, a mais significativa do período moderno.


“Para além do bem e do mal” instala-se, na vontade de poder, uma unidade entre o intratável, o perigoso e o mau, e o bravo, o forte e poderoso. Nisto se resume a virtude. A moral dos senhores se opõe à moral do rebanho. A mentalidade do rebanho, a raça das vítimas, dos impotentes, dos fracos, substituiu a força pela astúcia, o poder pelo ressentimento. Foi ela que inventou o direito, o bem, a humanidade, a caridade, a igualdade, o amor ao próximo para “possuir” os fortes. E os fortes tiveram vergonha de sua força e de sua saúde, e ficaram com remorso. E assim, também as “vítimas” manifestavam, de modo hipócrita, a vontade de dominar os fortes, os criadores. Sob esses ideais, há ainda uma vontade de poder, mas censurada, recalcada. Em nome da vontade de poder, Nietzsche proclama: para além do humano, precisamos atingir o sobre-humano, o vitorioso, o soberano de nossos sentidos e o mestre de nossos valores.


Em qualquer lugar onde nos deparamos com uma moral, encontramos uma avaliação e uma classificação hierárquica dos instintos e dos atos humanos. Tais classificações e avaliações expressam as necessidades de uma comunidade, de um rebanho: aquilo que beneficia o rebanho, que lhe é útil em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro – é o que serve também de medida suprema do valor de qualquer individuo. A moral ensina ao homem a ser função do rebanho, e a se atribuir valor somente como função. Uma vez que as condições de conservação eram muito diferentes de uma comunidade para outra, resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. Moralidade é o instinto gregário no indivíduo .


Autoformação em linha ascendente: é isso. Na conclusão de seu curso de pensamento, Nietzsche quer reconciliar de novo a idéia da autoformação com a do cristianismo, que, para esse fim, interpreta de maneira conveniente.


(**RIO DE JANEIRO**, 23 DE JULHO DE 2017)


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