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sábado, 29 de julho de 2017

ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO XVIII...


Em O ser e o nada, as metáforas surgem com grande freqüência e se encontram inextricavelmente enredadas com a mensagem filosófica que não se pode exprimir de nenhuma outra forma. Em entrevista, vinte anos mais tarde, Sartre critica o uso que fizera de metáforas nesta obra, dando como exemplo a frase tão citada: “O homem é uma paixão inútil”, que recebeu comentários hostis, não, de fato, por suas qualidades literárias, mas devido à mensagem ateísta, segundo a qual “a paixão do homem é o inverso da de Cristo, pois o homem se perde como homem a fim de que Deus possa nascer. Mas a idéia de Deus é contraditória e perdemo-nos em vão. O homem é uma paixão inútil”. Eis como Sartre se defende, em 1965:


Se me distraio por um momento e utilizo um estilo de frase literária numa obra filosófica, tenho sempre a leve sensação de estar enganando meu leitor; é uma quebra de confiança. Certa vez, escrevi a frase – lembrada por seu aspecto literário – L´homme est une passion inútile (o homem é uma paixão inútil). Eis um caso de quebra de confiança. Devia ter dito aquilo em termos rigorosamente filosóficos. Em minha Crítica da razão dialética creio que não posso, de modo algum, ser acusado de quebra de confiança .


Se se pede um exemplo das obras de Sartre, a maioria sem qualquer esforço cita A Idade da Razão, e se se quer saber de exemplos de ateísmo, por vezes, o de Sartre vem em primeiro lugar, acompanhado de Nietzsche e Marx, dito com toda a simplicidade, sem precisar espremer os miolos. Contudo, não leram, nada conhecem do pensamento de cada um deles . No que tange a Dostoiévski, no que concerne ao direito criminalista, a obra mais citada, com efeito, é Crime e Castigo, no métier dos intelectuais é Os irmãos Karamázovi, e só no métier da intelectualidade mais refinada Memórias do subterrâneo.


Contudo, muito poucos leram realmente estas obras, no sentido de in-vestigar o desejo de “redenção” e “ressurreição” na obra dostoievskiana. No metier dos filósofos, ensaístas, expositores do pensamento, doutores, especialistas, continua sendo Memórias do subterrâneo, o poema dialético dostoievskiano, e nesta obra encontra-se todas as vertentes do pensamento dostoievskiano, todos os paradoxos e todos os êxtases, conforme as situações, a cada personagem o destino que ela mesma escolhera ao longo das situações e circuntâncias, o destino delas nas mãos delas mesmas, sem quaisquer interferências, mas intermediários, que o define como a busca da redenção e da ressurreição. Ainda na Psicologia, obviamente, por um lado O jogador, por outro lado, Crime e Castigo. A obra dostoievskiana, em todos estes aspectos e perspectivas, abre-nos, mostra-nos as luzes e as sombras de nossa própria história, a que nós mesmos construímos ao longo de nossas vidas, em busca da redenção e ressurreição, à luz bíblica, a nossa imortalidade e eternidade, a “vida” que inscrevemos com as nossas atitudes e ações, diante de todas as contradições, dialéticas estabelecidas, mas sempre a esperança e a fé na redenção e na ressurreição. São páginas lindas, divinas, magníficas, que nos despertam e nos chamam para esta busca, entreguemo-nos, verdadeiramente.


Estamos sempre agindo como se só houvesse um Sartre, o homem, não é? E preciso uma força incrível para se levar assim, de frente, a dupla vida clandestina: noites proustianas e dias militantes – o famoso “era apenas uma mão a escrever”, de Mauriac a respeito de Proust moribundo, e essa consciência diurna que o faz virar as costas, a sua parte propriamente literária .
Pode-se falar de esquizofrenia, é óbvio. Pode-se maravilhar, espantar, chocar. Pode-se dizer que os escritores vivem em um outro tempo, uma outra cronologia que não a do comum dos mortais, e que isso não é aceitável. Pode-se ver esse desdobramento de Sartre, essa multiplicação dos Sartre, como uma forma de marranismo literário, tão enigmático e fascinante quanto o original.


Escreve Simone de Beauvoir, tudo muito bem, salvo que anonimato e prevalência das idéias de Sartre – idéias vivas – constituem uma contradição em termos. Idéias como as dele precisam ser afirmadas de maneira dramática , se necessário mediante as mais extremadas manifestações de “subjetividade compulsiva”, loucura filosófica. Sendo assim, a “notoriedade” e o “escândalo” são concomitantes necessários de seu projeto universal voltado para o ser, e o anonimato no máximo se manterá como uma ânsia momentânea de paz sob a tensão do escândalo e da notoriedade.


Sartre escreve para os leitores, mas, sobretudo, para si mesmo como futuro leitor de sua obra. Quer fornecer material para o futuro olhar em retrospectiva, que arredonde epicamente a consciência de si mesmo. Sente-se no embate de um acontecimento, mas, mais tarde, lendo os livros, talvez se transforme numa história significante. Ele quer significação, ele quer o “sentido”.


Na treva do momento vivido, deve entrar a luz da futura significação, do futuro sentido, sentir um reflexo do brilho da futura compreensão e contemplação do sonho do verbo amar .


Sartre quer sentir-se como alguém que carrega nos ombros , como representante de Atlas , os problemas do mundo – ou melhor: do estar-no-mundo – e, além disso, quer realizar a obra de arte de brincar e dançar sob essa pesada carga.


Assim o próprio Sartre, o indivíduo dividual, se torna cenário de uma história do mundo interna, e quem a examinar terá de se tornar, com ele, um aventureiro e navegador do mundo, daquele mundo interior que se chama “ser humano” .


O estilo de Sartre é determinado pelas grandes complexidades de seu projeto universal de totalização. Estilo de viés no tangente à dialética, eivado de metáforas , o que se torna enigma e mistério penetrar, arrancar-lhe de dentro de suas traições, descobrindo o diálogo em silêncio do espelho e a imagem, o homem que se fez, o homem que se é, e como desfazer de toda a traição.


O uso excessivo de metáforas em O ser e o nada não é simplesmente um modo literário de expor com maior poder evocativo uma proposição abstrata. Se tivesse sido concebido como tal, teria sido um fracasso; pois o caráter abstrato continua a existir apesar da imagem pitoresca. Também não é conseqüência de inevitável complexidade dialética, em termos da qual Sartre defende enfaticamente os períodos longos e complicados de sua Crítica da razão dialética.


As inúmeras metáforas de O ser e o nada não são exemplos isolados de apresentação literária: constituem um todo coerente e, como tal, ligam-se indissoluvelmente às ambigüidades do próprio quadro conceitual. Para compreender e avaliar a natureza e a importância dessas metáforas devemos, primeiro, centrar a atenção sobre as ambigüidades subjacentes, à luz das quais as imagens específicas da “eidética da má-fé” de Sartre revelam sua necessidade para a constituição de um discurso filosófico coerente, vigoroso e extremamente específico. O sonho de restaurar o lugar de origem instaurando as perspectivas e mobilizando as forças para um principiar mais originário com tudo que ele comporta de estranho, obscuro e incerto.


Em seu artigo Veneza, da minha janela. Da ilhota olhamos a ilhota fronteira com o desejo: ali há... o quê?, uma solidão, uma pureza, um “silêncio que, iríamos jurar, não se encontra deste lado” . A verdadeira Veneza está sempre noutro sítio.
Pode-se recordar o estranho trecho de As palavras, no qual, falando já do “estilo”, dizia:


Si pintaba objetos verdaderos com palabras verdaderas trazadas por uma pluma verdadera, o se metia por em médio el diablo o yo también me volvería verdadero. (...) A veces me decía que me salvaría del olvido gracias a mi “estilo”, esa enigmática virtud que mi abuelo negaba a Stendhal y que reconocía a Renan; pero estas palabras desprovistas de sentido no llegaban a tranqüilizarme .


A grande facilidade de escrever vem do fato de que a direção global do desenvolvimento é antecipada com toda a determinação desde o primeiro momento e, desse modo, o novo tratado das paixões “escreve-se por si só”, por assim dizer, tal como é descrito por Sartre em seu Esboço para uma teoria das emoções:


As palavras que estou escrevendo (...) são exigentes. É a maneira precisa como as capto no correr de minha atividade criativa que faz delas o que são: são potencialidades que precisam ser realizadas (...) Eu simplesmente sinto a tração que elas exercem; sinto sua exigência objetivamente. Vejo-as realizando-se a si mesmas e, ao mesmo tempo, exigindo mais realização. (...) a exigência das palavras que vou traçando está imediatamente presente, densa e palpável. Elas impulsionam e dirigem minha mão. Não, porém, como se pequenos demônios, vivos e ativos, a estivessem realmente dirigindo e guiando: é uma exigência passiva .


As palavras e as coisas, questão central por sua vez insuficiente: o verdadeiro problema não é ele que une as palavras e as coisas, senão o de saber se, mediante as palavras, se possa explicar as coisas. Sartre, em As palavras, critica a concepção nominalista da linguagem, segundo a qual “dizer mesa equivale a possuir a mesa”; mas atribui à literatura o poder de suscitar o sentido através das palavras. Desentranhamento do mundo, ela é quiçá uma apreensão de significações para um leitor: o escritor é “um caçador de sentido”, o estilo é a “mão que escreve”. Como pode a palavra dar o sentido do real ou dar um sentido ao real, sem ser sem embargo da coisa? Esta interrogação sobre o poder do sentido implica a da origem da literatura.


(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE JULHO DE 2017)


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