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terça-feira, 4 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


CAPÍTULO III

Esta ou aquela crença pode ser abolida. Poderíamos refutar o instante religioso? Nietzsche teve muitas vezes citada esta fórmula: “no fundo, só o deus moral é refutado”. Não devemos entender que Nietzsche propunha uma reconstituição, seja lá qual for, de um neopaganismo como foi tentado às vezes no fim do século XIX; é exatamente de uma filosofia que se trata, de uma filosofia trágica da qual a Antiguidade talvez só tenha conhecido um breve esforço, de uma filosofia que não poderia negar o divino (theion), sem desconhecer a própria vida, de uma filosofia sem teologia, mas não sem “theiologia”.

Partindo de um conceito geral, a idéia de Deus pode ser compreendida a partir de dois conceitos; primeiro o de causa, onde Deus é o princípio que torna possível o mundo ou o ser em geral; o segundo, atribui a Deus a fonte e a garantia de tudo o que há de excelente, eterno e imortal no mundo, a pedra angular do amor, compaixão, solidariedade, sobretudo no mundo humano . Temos, contudo, uma concepção geral de Deus, que só se tornará sólida a partir da perspectiva em que for engendrada.
Para compreensão precisa desta introdução – pedra angular em cujas linhas tencionamos de-monstrar o “espírito subterrâneo” na obra e na vida de Dostoievski, tendo como pedra angular de nosso ensaio esse capítulo, um dos pontos culminantes desse trabalho, e sobretudo o próprio Dostoievski, outro ponto que nos encaminhou no conhecimento de várias idéias e pensamentos, análises e interpretações de Joseph Frank -, faz-se necessário, de antemão, compreendermos o que entendemos por ateísmo, absolutização, niilismo; conhecermos o “niilismo europeu”; daí, transcendermos, de-monstrarmos a experiência mística, que está no princípio de toda experiência religiosa genuína e autêntica e é sua culminância e plenitude; porém, voltado para uma concepção teísta onde Nietzsche engenhará  uma reflexão crítica.
Só a partir desta reflexão crítica torna-se legível e inteligível a perspectiva teísta e mística em que o universo dostoievskiano culminou, a partir da fé, liberdade, responsabilidade, da busca de comunhão do sofrimento, dor, vivência e experiência, e o desejo, a vontade, sabendo, tendo consciência, re-conhecendo, da redenção e ressurreição em nível da busca da espiritualidade, eternidade, imortalidade.
Há quem reclame por um encontro de ambos, já que estiveram na Basiléia na mesma ocasião, que não houvera, e estes quem reclamam dão muito a entender que seria uma rejeição mútua, quando se diz respeito às posições de cada um acerca de Deus, do cristianismo, não se suportariam mutuamente. Contudo, não há de se esquecer de citações de Dostoievski em O anticristo, haver Nietzsche confessado que fora quem o ensinou a psicologia, a quem devia muito as lições.
Ao tomar ciência da literatura do romancista russo F. Dostoiévski, Nietzsche ficou em absoluto extasiado. Passou-o imediatamente ao seu elenco de gênios e referências-chave. Na ficção de Dostoiévski, era o ceticismo, niilismo, o homem em conflito com deus, que prendiam a atenção de Nietzsche, fascinado pelos cenários e personagens das obras primas Crime e Castigo (1867) e Os Irmãos Karamazovi (1879). Dostoiévski trazia as marcas de uma existência angustiada, atormentado pelas questões do bem e do mal, do pecado e da redenção, de modo que Nietzsche fundamentalmente interpretará a construção literária na prosa do escritor russo. Nas notas deixadas em rascunhos durante a internação de 1886-1887, Nietzsche chama Dostoiévski de “Único psicólogo com quem tenho algo a aprender” e o menciona como responsável pela sua descoberta de Stendhal. O niilismo é também um considerável elo. 
Apesar de não concordarem em alguns pontos que analisaremos ao longo do trabalho.  Dois monstros frente a frente, filosofia e literatura, de ambas as partes, outras experiências e vivências. Realmente, nesse aspecto há de se reclamar o não encontro dos dois: Dostoievski e Nietzsche.
Desde o início da primeira leitura de O anticristo, o questionamento presente e forte que se nos apresenta é o por quê de, exatamente, a morte de Deus deva implicar a desvalorização dos valores?
Este questionamento perpassa toda a obra, é um dos temas mais importantes da filosofia, do pensamento nietzscheano, pressupõe alguns conhecimentos a priori acerca do pensamento dele, de seus passos. Nietzsche parece estabelecer entre os dois eventos uma relação de premissa e conclusão:
Que ingenuidade! Como se subsistisse a moral quando falta um Deus que a sancione! Um além é absolutamente necessário, quando se quer conservar sinceramente a fé na moral .
Ser necessário ter a certeza teórica da existência de Deus para que os valores morais sejam validados, esta é, sem dúvida, uma evidência imediata para o tomismo: ali só há “bem” referido ao Bem Supremo ou, como diria Nietzsche, não há valor sem uma instância legisladora que opera do exterior. Assim São Tomás estipulará que Deus, como projeção de todas as perfeições, é o Bem de todos os bens, e tudo o mais será dito “bom” por participação, isto é, por ter semelhança com a bondade divina.
Compreendamos mais de perto a "idéia de Nietzsche. A idéia não é bem que as razões deveriam vir antes, e não depois, das opiniões defendidas. A importância do fato de a filosofia começar com palpites  e desejos íntimos é que ela começa na vontade de valor, um impulso que representa o mundo de modo que se conforma  ao que se valora. Admitindo ser isto correto, então Nietzsche deve estar criticando os filósofos neste aforismo por outra coisa além da influência da vontade de valor sobre a filosofia deles:

 "Todos reagem como se tivessem descoberto e conquistado suas opiniões finais através do desenvolvimento espontâneo  de uma dialética fria, pura, divinamente desinteressada [...] enquanto no fundo se tratou de uma suposição , de um palpite, de uma espécie de inspiração - na maioria das vezes de um desejo íntimo que foi filtrado e tornado abstrato - que eles defendem  com razões buscadas após o fato. Ainda que o neguem, são todos defensores e, em sua maior parte, astutos porta-vozes de seus preconceitos por eles batizados de "verdades". (ABM 5) 

Nietzsche critica os filósofos não pelo fato de seus pontos de vista não terem sua gênese em argumentações ou razões, mas pela desonestidade com que se recusam a admitir que seja assim. Filósofos a que ele admiraria tem a "coragem da consciência" de admitir para si mesmos que seus pontos de vista expressam seus valores e sua vontade de valor, a vontade de re-presentar o mundo por seus valores.

Todo bem, enquanto apetecível, orienta-se teleologicamente ao Bem supremo; e como o supremo, em qualquer gênero, é causa de tudo o que está compreendido nele, o Bem supremo é o fundamento dos bens. São Tomás concordaria com Nietzsche: a morte de Deus traduz-se imediatamente na desvalorização dos valores, já que a certeza na existência do Bem supremo é a condição da certeza relativa aos valores morais.
Importantíssimo se torna a citação de Os irmãos Karamázovi seguinte,

Se não há imortalidade da alma, então não há virtude, o que quer dizer que tudo é permitido .

muitíssimo traduzido, divulgado, “sem Deus, tudo é permitido”, para compreendermos, nessa busca da comunhão do pensamento filosófico nietzscheano, literário dostoiévskiano, quando com essa comunhão, adesão, podemos contemplar o niilismo europeu, a obra de ambos, e repensarmos acerca de nossos valores, de nossas realidades, sonhos e utopias.


(**RIO DE JANEIRO**, 03 DE JULHO DE 2017)

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