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domingo, 2 de julho de 2017

#AFORISMO II - SERPENTES DEVORAM MORTAIS EXPULSOS DESTA TERRA MACULADA DE DEUSES# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Ao amor regressa um fora-da-lei.


Hipocrisia, ironia, cinismo, tudo suspenso na curvatura dos gestos, no soslaio do olhar. Há um sítio de transparente branco e, nele, guarnece o gozo das confissões, o vestuário discreto do olhar. Não compreende bem o que quer revelar. Confessa que se sente exausto. Perde o fio dos pensamentos. Já não é senhor de clareza do espírito. Nas vaidades pessoais, e mesmo impessoais. Reconhecendo-lhe à face das crises esquálidas o som último das palavras. Vergaram-se as lágrimas.
Andava pelas imediações de Serra das Águias, quando lá estava uma senhora, por volta de seus sessenta e quatro anos, uma fisionomia estranha e esquisita, enfileirando moedas de um real, havia umas quinze moedas enfileiradas, outras tantas de um quarto de real, outras tantas de um décimo. Interrompeu a sua caminhada por um instante, desejando aproximar-se, vendo como ela pegava as moedas como o sustento de sua vida. Gritou-lhe logo, logo: “Vai embora. Vai embora”. Afastou-se serenamente para não assustar a pobre e velha mendiga, não era desejo, como entendera a atitude dela de lhe mandar embora, com medo de ele tirar-lhe algumas moedas.


Murmúrios facelados, cruzados.


Dramas atormentaram-lhe. Que lhe direi? Assustadora a liberdade que se desencadeia na posse falsa e medíocre do objeto de simulações, da propriedade mesquinha e hipócrita do objeto de sublimações. Somente os ossos carnudos andando por entre os homens. Cornos pontiagudos das relações familiares desestruturadas, desequilibradas.
A nostalgia gasta o acumulado pecúlio. Obtusa convulsão chapinha no cais abandonado a toda miséria o evocar longínquo do eterno, o evolar próximo dos projetos do infinito.
A música, na qual o tema é absorvido pela forma de expressão e não pode ser separado dela é um exemplo complexo – e uma flor ou uma criança é um exemplo simples – do que está tentando dizer, mas o sofrimento é o exemplo fundamental, tanto na arte quanto na vida.


Serpentes devoram mortais expulsos desta terra maculada de deuses.


Por limites, as águas apartam da morte olhos perspicazes não perturbados pela angústia. Muitas vezes. Muita vez quando a luz se apaga sobre a sua insônia, pergunta-se – fazia-o mais assiduamente – com os ossos entre(dedos): de onde vem esta indiferença? De onde lhe vem este mal-estar que não lhe permite estar em lugar algum? Deixa-se quieto a perguntar. Quieto e confortável em presença de alguém? Costumava acordar no meio do sono, respondendo a perguntas não se lembrar haver feito – sabe que, ás vezes, diz algo e não sabe o que diz, minutos após, - ao menos articulado.
Por trás da alegria e do riso pode esconder-se um temperamento áspero, grosseiro e insensível. Mas por trás do sofrimento, há sempre mais sofrimentos. Diferente do prazer, a dor não usa máscara. A verdade na arte não é a correspondência entre a forma e a imagem, não é o grito que ecoa no vale entre as montanhas, nem o poço de águas prateadas que refletem a imagem da lua para a lua, ou a imagem de narciso para narciso. A verdade? As esperanças originais da filosofia não foram realizadas porque a metafísica, a mais elevada das disciplinas filosóficas, não dá mostras de ser capaz de alcançar a meta de conquistar a verdade. Mesmo um ponto de vista negando que ec-sista algo como a verdade tem de ser apresentado como verdade. O verdadeiro sentimento, o que re-colhe e a-colhe em seu íntimo, importava-se lá entender ou compreender, o importante era vivê-lo, o exterior reflete o interior, tornando-se a expressão do interior, a alma re-vestida de forma humana, o corpo e seus instintos unidos ao espírito. Por esta razão, não há verdade que se compare ao sofrimento. Só mesmo uma mulher quem sente demasiado ambíguo, contraditório, excêntrico o seu corpo, a sua sensualidade não cabendo nele, por os desejos serem perplexos e eclipsados, podia saber o que é sentir o corpo e seus instintos unidos ao espírito. Há momentos sim em que lhe parece ser a única verdade não haver verdade que se compare ao sofrimento - mas é verdade que o "espírito" é o "pensamento consciente"? Assim, se o for, o espírito do sofrimento é o pensamento consciente da experiência da dor.
Outras coisas podem ser ilusões dos olhos ou do apetite, feitas para cegar um e saciar o outro, a visão do outro, mas é o sofrimento que tem construído os mundos, há sempre dor no nascimento de uma criança ou de uma estrela.

(**RIO DE JANEIRO**, 01 DE JULHO DE 2017)


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