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domingo, 2 de julho de 2017

#AFORISMO III/FRASE DE EFEITO E AFORISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Devo confessar que encaro a "Frase de Efeito" como um distúrbio psíquico, que não há de ser posto de escanteio por meio de análises e interpretações, cujos interesses são de esclarecer as intenções de quem a produziu, o que ela nas entre-linhas pretende significar. O que podem fazer as análises e interpretações com pessoas que desejam chamar a atenção, com o que dizem envaidecer-se, justificar ou explicar a visão-das-coisas de que são lídimas re-presentantes? Pois que análises e interpretações tem como pedra fundamental aspectos e características gnósticas que trazem na algibeira, no alforje outras visões e pontos de vista que na continuidade do tempo tornam-se sementes e húmus de outras utopias, sonhos e esperanças.
A "Frase de Efeito" tem pernas curtas, serve por um período de tempo, enquanto os seus objetivos estiverem na pauta das justificações e explicações, dos envaidecimentos, orgulhos e pernosticidades.
Numa entrevista com a jornalista, apresentadora e entrevistadora Leda Nagle, o imortal e eterno escritor João Ubaldo Ribeiro, respondera este à pergunta "João Ubaldo, como você vê isto de ser um escritor bem polêmico?": "O escritor que não é polêmico é imbecil". O adjectivo "imbecil", significando quem revela tolice ou fraqueza de espírito, é que confere o conceito e definição de "frase de efeito", o vernáculo já é hilário, risível, imaginar um escritor imbecil realmente é motivo de riso, gargalhada às sara-palhas do ridículo. João Ubaldo certamente que com esta fala explicou bem o seu caráter e personalidade de homem e escritor, assumiu ser polêmico, é a sua responsabilidade como re-presentante das idéias, dos pensamentos, mas há verdades incontestáveis na sua fala. Se o escritor é re-presentante das idéias, ideais, pensamentos, utopias, é de sua responsabilidade e compromisso destilar os seus ácidos críticos da quotidianidade, com seus costumes, hábitos, culturas, ideologias, nonsenses. Acaso houvesse respondido "O escritor que não for polêmico não é representante das Letras", deixaria de ser "Frase de Efeito", justificativa, explicação de ele tecer sempre críticas contundentes, inclusive à Academia Brasileira de Letras, não estaria justificando a atitude, a ação, sim mostrando que a responsabilidade e compromisso do escritor é ser crítico de seu tempo. Nesta linguagem, seria então Aforismo.
Há-de se considerar que, sendo uma entrevista televisiva, em nível de todas as classes sociais, está mais que condizente com o momento, João Ubaldo teria de chamar a atenção, de terminar seu pensamento com o vernáculo "imbecil", causando o riso, o seu interesse foi encaçapar a sua bola, encachaprar a sua assinatura, mas a intenção ficou no inter-dito, dizer que o escritor tem a obrigação, compromisso e responsabilidade de criticar o seu tempo.
Dever-se-ia dizer alguém que a travessia da "Frase de Efeito" ao Aforismo é uma questão de linguagem erudita? Evidentemente que não. No que concerne à "Frase de Efeito", a pedra fundamental é o interesse; no que concerne ao "Aforismo", a pedra fundamental é a intenção. Nem sempre mudar os termos da Frase de Efeito para tornar-se Aforismo é realizado, as estruturas são ad-versas. A "Frase de Efeito" não tem compromisso com a verdade, não pretende alcançá-la, o "Aforismo" é compromisso, responsabilidade com a verdade de uma opinião, noutras palavras, reger a Vida. A "Frase de Efeito" rege o momento; o "Aforismo" pretende, intenciona reger a Vida.


(**RIO DE JANEIRO**, 02 DE JULHO DE 2017)


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