Total de visualizações de página

sexta-feira, 7 de julho de 2017

#AFORISMO 12/O MAIS LONGE QUE SE DEVE LEVAR O DESEJO E A VONTADE# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


"À beira-mar a "odisséia proseada" nos céus do Olimpo..."


Busco na solidão - ou no "estar-só", "ser-só"? - com que me deparo nesta manhã de após chuva noite inteira, no silêncio que se me a-nunciou desde que abri os olhos, meus sentimentos distantes, emoções à soleira da eternidade, pensamentos e idéias perdidos em não sei que sendas, intuições e percepções em estado de expectativa, alma e espírito dispersos na imensidão dos infinitos horizontes do mundo, mas tão perto que posso senti-los vivos e presentes, posso senti-los pujantes, posso sentir-lhes os êxtases e volúpias, vagam nas linhas curvas de letras e frases curtas que não tenho qualquer pejo ou medo de mostrar, id-“ent”-ificar, a-nunciar e re-velar, e mesmo que houvesse relutâncias não saberia como evitar a presença – como existir pejo ou medo em incertas palavras, inquietas letras, dispersas linguísticas e semânticas, se antes não existissem em mim, se antes não fossem re-presentações do que em mim habita profundamente, não fossem símbolos de desejos e vontades, não fossem signos de esperanças e fé, não fossem metáforas dos sonhos e querências, não fossem estilo e linguagem do outro atrás do meu eu? Isto é perfeitamente impossível, isto é totalmente irrealizável, isto é ipsislitteris in-audível.


Ser de avessos, sin-estesia
Sim de desejos puros, inocentes, ingênuos
Sim de idéias simples, humildes, verdadeiras
Estesia do sim, numinando espaços,
A lua olha de soslaio a distância da estrela próxima
O espaço sideral vislumbra de esguelha os relâmpagos
Que anunciam, primevas pers-pectivas da imagem,
A chuva niilista do apocalipse de divin-idades absolutas,
As estrelas olham a proximidade da lua a versejar
Seus brilhos, desejando a luz uni-versal da verdade
A escuridão do uni-verso em plena desova das trevas,
Aspirando a dialética da iluminação trans-versa às ideologias,
Versando a escravidão de homens bêbados de boêmias
À luz das ruas áridas e íngremes de solstícios do alvorecer,
À semi-luz das cavernas solitárias e silenciosas de estalactites,
Cambaleando, tropeçando, caindo, arrastando nas sarjetas,
À busca da canção executada na harpa da suprema querência
Do sentimento da vida, enleado e entrelaçado à espiritualidade
Do ser tempo no silvestre dos verbos do estar-aí,
Boêmios lúcidos à sombra das calçadas pectivando
As pers de suas solidões, silêncios, abandonos, tristezas.


Na imensa escuridão de minha alcova, na obscuridade do temporal que descia do céu – não me lembra de no mês de março chover tanto como agora, “águas de março fechando o verão”, assim o definiu o “poetinha” Vinícius de Morais; não existem somente as águas de março, existem as do início de setembro para as flores da primavera abrirem e extasiarem a alma, instigar a busca da beleza eterna ou o eterno dos sentimentos e sensações da beleza, do puro, do belo, alfim do divino; a primavera e o amor é que me inflamam, o sublime e a amizade é que me enternecem, a verdade e a ternura é que me sensibilizam. Que a um abismo irei ter, em vão percebo, e me rio aos toques e retoques. Em vão atraco, e em vão ponho brida a esta selvagem paixão, a este rebelde e irreverente devaneio (ou desvario?) -, meu coração se entristecia na solidão, no estar-só, no ser-só, sentimentos de ausência, carência, falta perpassavam o íntimo, no esquecimento da felicidade que já ia embora, no olvidamento da alegria que já partia e acenava o incólume adeus.


Meu ser vivia na escuridão da noite, meu ser vivia na obscuridade do temporal, meu ser vivia no desejo, minha alma era uma lembrança que existia em mim, eu não era qualquer recordação, eu era nada e nada con-templava a manhã que se re-velava aos poucos, lenta e serenamente. Quando abri a cortina e semicerrei a janela, o vento frio tocou no meu pálido rosto, respirei amor, respirei carinho, respirei ternura, respirei o sublime carinho e a eterna amizade, suspirei de prazer e alegria, suspirei de tantas volúpias que me habitaram o íntimo, as pré-fundas de meu ser, o abismático não-ser de mim, criei poesia a des-vendar o céu, as estrelas, o espaço sideral, a des-velar as meiguices insolentes do inferno, a percorrer as florestas silvestres, a sobrevoar os abismos, procurando intensamente a loucura de trazer a sublimidade para junto de mim. Senti a maresia do mar - sentimento que não entendi de imediato: por que o mar? Seria que à beira-mar compusesse a "odisséia proseada" nos céus do Olimpo? Senti-me feliz, e a tristeza é que ficou no esquecimento dentro da obscuridade, derretendo-se em chuvas, caindo pelas estradas, sendo levada pela enxurrada, e esquecendo-se de mim, que não lhe dei qualquer guarida, não compreendi os seus valores naquele instante.


Do supremo repouso a hora nefasta soou, os sinos de todos os domos de igrejas simples e humildes redobraram. A treva impenetrável, densa, cresce em torno; e enche a noite da descrença, da desesperança, do ceticismo a amplidão do deserto adusta e vasta.


Que inquietação profunda, que desejo de outras realidades, outros sonhos dentro de outros sonhos, de outros versos e uni-versos, de outras coisas, de outros modos de estados de alma, de outros estilos e sensibilidade!


(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE JULHO DE 2017)


Nenhum comentário:

Postar um comentário