Total de visualizações de página

quinta-feira, 6 de julho de 2017

#AFORISMO 9/AS CRIATURAS DA NOITE SÃO APAIXONADAS# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


As criaturas da noite são apaixonadas.
Fazem anarquia, fazem comunismo, fazem liberdade, fazem libertinagem, fazem nonsenses e ridículos, fazem baladas e footings. Uma farra que descobre sentimentos, que en-vela dores e sofrimentos, que omite mágoas e ressentimentos, que eleva os fracassos e frustrações às antípodas da terra e do mundo. Que amam a madrugada, o latido dos cães, o zurro dos jegues puxando carroças. Que cantam com fervor, cânticos os mais di-versos na esperança de a aurora nascer, tabernáculo de novo dia, performando novos passos de dança, à luz do corpo, constituído de carne e ossos, de sensações e calafrios, de instintos e medos. Que somem sem deixar quaisquer vestígios, sem quaisquer mínimos traços inda que invisíveis.
Empalidece e cai a noite que num murmúrio, sussurro, cochicho, martiriza uma parte adormecida do UNI-VERSO, e como cantam as aves cantam os sinos, novamente batendo, acordando o abismo que arregala de olhos vendados. Se todos sonharam? Sonharam, sim, e neste sonho supuseram as mais lindas histórias da escravidão e desrespeito aos direitos humanos, e como numa fábula resplandece a paz que mais uma vez julga inter-mediária da conquista e do resplendor, da glória e êxtase.
Ali, à face da montanha, vejo sumir-se, nos pingos dágua, expressando de outro modo asco e náusea que me habitarão, enquanto for vivo, mesmo debaixo de sete palmos, mesmo por toda a eternidade até a consumação dos tempos, e serão sentidos por qualquer indivíduo, embora a sua sensibilidade seja apenas para sobreviver no mundo, a mentalidade bem menor que o salário do egregíssimo Prof. Raimundo, o milagre da obra humana, a magia das esperanças de algo ser construído à luz da verdade e do amor.
Na minha voz tranquila, impérios ruíram, orgulhos e vaidades escusas desmoronaram, ostentações de moral e ética indevassáveis quedaram sem direito a único suspiro, até as letras, em princípio, uni-versais e eternas, conheceram o nada e o vazio do nascimento da razão, uma luta de morte pré-cede todas as mudanças, no sil-êncio da ordem uni-versal rigor da razão cobre o tempo novo, a fé nova que nasceu, as velhas que se transformam, mudam de fisionomia, mudam as faces. Esse cenário, se as câmaras cinematográficas filmassem em todo o esplendor e magia, transcenderiam a contingência de oitava maravilha do mundo, o mundo inteiro conheceria a divinidade do espírito e sensibilidade da imagem.
Continuo escrevendo para um mundo distante, para mentes longínquas, de sermos nós, mas amplo de nossos pensamentos, mitos, ritos e história. E que minhas escritas caem num lugar vazio, num abismo sem fundo, onde este vácuo esteja imune da podridão, do odor fétido, muitas vezes ocupando a mente e a alma... Pensando, orando, ou a cantar, encontro em mim uma libertação, prazer que e-nuncia outros sentimentos e emoções, às vezes uma liberdade que esconde e liberta com sua única arma de defesa: “O LAZER”.
Todo dia, faça chuva ou faça sol, há o jogo de luz e sombra, jejum repleto de gula, o réptil subreptício com sua gosma de íntimo. Quem não sabe dos buracos negros nas profundezas do poeta? Quem não conhece os vazios e nadas nas pré-fundas do escritor? Se os homens e a humanidade, mesmo que nos olhares de esguelha, não sentissem pena e comiseração de nós, o que seria de nossas vidas? Em verdade, humilhe-nos e ofende-nos, somos todos dignos de dó. No observatório do coração alucinado, perdido nas costelas das constelações, nas costas das estrelas e da lua, de sonhos e atônitas realidades, o escritor, o poeta são galileus no breu das inquisições, nas trevas da Idade Média.


Todo cair da tarde a toada de medo, de insegurança, poema ou prosa, o morrer que começa feito cócegas nos dedos.


(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE JULHO DE 2017)


Nenhum comentário:

Postar um comentário