Total de visualizações de página

sexta-feira, 7 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO II...


A vida mesma é, para mim, instinto de crescimento, de duração, de acumulação de forças, de poder, onde falta a vontade de poder, há declínio. Meu argumento é que a todos os supremos valores da humanidade falta essa vontade – que valores de declínio, valores niilistas preponderam sob os nomes mais sagrados .


Conforme Jung, o significado ou o objetivo do instinto não é inequívoco, porque o instinto pode ocultar um sentido da direção diferente do biológico, que só se manifesta à medida que se processa o desenvolvimento. Na esfera psíquica, a vontade influi na função, em virtude de ela própria ser uma forma de energia que pode dominar ou pelo menos influenciar outra forma. Nesta esfera, que Jung define como psíquica, a vontade é motivada pelos instintos – não, porém, de modo absoluto, pois do contrário nem seria vontade, que, por definição, deve ter certa liberdade de escolha.


A vontade implica uma certa quantidade de energia que fica livremente à disposição da consciência .


É lógico supor que Nietzsche considere arriscado colocar questões sobre a vontade de verdade (incluindo sua pressuposição referente ao valor da verdade) devido às verdades sobre a vontade de verdade que é provável que a investigação sobre essas matérias exponha. Torna-se arriscado expor a verdade sobre a vontade de verdade não porque a vontade de verdade tenha des-mascarado falsificações sobre as quais a vida humana tem sido construída (o que de fato é o caso), mas porque a vontade de verdade é constituída de tal forma que não parecerá ser útil pelo entendimento de nosso ideal corrente (um ideal ao qual os filósofos estão pelo menos tão firmemente ligados quanto os outros homens. Formular questões sobre a vontade de verdade é, portanto, arriscado, se queremos manter respeito pela vontade de verdade e pela filosofia.
Segundo Nietzsche, a religião não tange uma necessidade básica no homem, mas é fruto da própria causalidade humana. Surge em nós decorrente das diferentes tentativas em busca de explicações para as diversas questões que tocam a existência. Aqui, não nos remetemos tão-só à questão existencial do homem enquanto tal, mas incluímos todo o mundo fenomênico.
Essa idéia de religiosidade que o próprio Marx definia como sendo um “soluço da criatura oprimida, coração de mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espírito. O ópio do povo” , em Nietzsche, ganha um estatuto não muito distinto. A religião surge no homem à medida que transmite sentimentos inexplicáveis como fruto de uma potencialidade extra-humana, pois “os estados da alma que lhe pareciam estranhos, arrebatadores, apaixonantes, considerava-os obsessões, encantamentos provocados pelo poder de alguém” , resultante da percepção de uma potência estranha que se manifestava nas diversas realizações da vida humana, tida como força causadora.
Desta forma, atribuímos os estados de alma existentes em nós a esta suposta força que se encontra num além-mundo, num supra-sensível, chegando ser ela responsável por estas manifestações arrebatadoras; criamos uma divindade sobrenatural que regula toda a atividade aqui na terra, personificando-a.
Este sentimento de potência quando envolve o homem, deixando-o dependente e subjugando-o, leva-o a desacreditar e conformar que tais sentimentos não são causados por ele, mas por “uma personalidade mais forte, uma divindade que o substitui” , reguladora de toda a sua atividade no mundo.
É enraizado nestes pressupostos que começa a despertar no humano a gênesis religiosa; “nos extremos sentimentos de potências que surpreendem o homem por seu caráter estranho...” .
Mas, afinal, o que é religião?


[...] é um caso de alteração da personalidade, espécie de sentimento de terror e de medo diante de si mesmo... Mas, ao mesmo tempo, extraordinária sensação de felicidade e superioridade...


A religião percebe a presença de Deus nos diversos acontecimentos; inicialmente como potência criadora, também como causa intermediária entre o homem e os resultados daquilo que ele almeja atingir, daquilo que busca realizar, para, enfim, tornar-se o para quê fora vocacionado desde toda a eternidade. É um Deus que interfere na natureza. Agora, estamos mergulhados num mundo onde o homem independe da causa, o homem não cria nada, Deus é o autor de tudo; simplesmente sofremos a ação de uma potência causadora.
A partir deste espírito, o homem foi se definindo em relação a Deus como criatura, rebaixando todas as suas potencialidades, tornando-se insignificante frente a esta nova idéia regulativa. Definiu tudo aquilo que é forte e surpreendente como sendo atributos de Deus; em contrapartida, o homem é tudo aquilo de fraco e desprezível.


A religião tornou o homem criatura insignificante; rebaixando-o às mais baixas categorias existentes, substituindo-o por um sobrenatural que é bom e verdadeiro e que só poderemos chegar até ele pelo que chamamos de graça .


Pensemos nos conquistadores da Renascença abandonando a cristandade em busca de um novo mundo; mas também, simbolicamente, no belíssimo frontispício do Novum organum, de Francis Bacon: nos limites do mundo então conhecido, além das colunas de Hércules, algumas caravelas se lançam a um mar encapelado, ao encontro de terras ainda ignoradas. Esta imagem, que serviu em todo sentido, Nietzsche conseguiu renová-la, ao impor-nos a absoluta prioridade de sua navegação além das colunas de Hércules da moral, num mar que não é mais o do amor-próprio, mas da vontade de poder em pérpetuo devir.


(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE JULHO DE 2017)


Nenhum comentário:

Postar um comentário