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quinta-feira, 6 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO I

O problema de Deus, como podemos analisar, desde a Filosofia Antiga, com os pré-socráticos, é perene, permeia desde épocas remotas e não cessa de movimentar nossa consciência hoje, não cessará de fazê-lo por toda eternidade. Dizia Kant que o conceito de Deus é o mais complicado de compreender; todavia, ele é inevitável para a razão especulativa humana.
Pretendemos, assim, apresentar a “morte de Deus” proclamada solenemente por Nietzsche há pouco mais de um século. “Deus está morto” .
Esta afirmação desencadeia um esboroamento de toda estrutura montada e sustentada pelo homem desde a Antigüidade. Com ela, temos um desfacelamento da metafísica tradicional erguida desde Platão, com a concepção dualista do mundo, visão esta que serviu de sustentáculo para toda a estrutura do cristianismo que, para Nietzsche, representa o platonismo para o povo.
A primeira parte de nosso estudo está dedicada, em linhas gerais, à crítica nietzscheana ao sistema moral vigorante na sociedade, bem como os delineamentos gerais das conseqüências advindas de toda essa estrutura.
Em princípio, apresentaremos a religião através do olhar clínico de Nietzsche - “Olhemo-nos nos olhos” - que, tomado, sobretudo, pelas leituras de Feuerbach, que define a religião como uma projeção humana, acaba por defini-la como estado doentio do homem, principal responsável pela sua existência.
O cristianismo necessita da doença, mais ou menos como a cultura grega necessita de uma abundância de saúde – tornar doente é a genuína intenção oculta de todo o sistema de procedimentos de salvação da Igreja .
A crítica de Nietzsche à concepção cristã revela-nos que, no cristianismo, nem a moral nem a religião estão em contato com a realidade e que, fundamentalmente, só possui em causas e feitos imaginários tais como: alma, espírito, livre-arbítrio, pecado, salvação, castigo, graça e remissão dos pecados. Ou seja, nos dizeres do filósofo, “um comércio entre seres imaginários ´Deus`, ´espíritos´, ´almas´(Nietzsche, 2000, p. 48). Para Nietzsche, o cristianismo é uma religião fictícia na qual sua moral se utiliza de uma linguagem figurada da idiossincrasia religiosa, tendo como pano de fundo uma teologia imaginária (o reino de Deus, o juízo final e a vida eterna) e ao mesmo tempo negadora da realidade. Sendo que todo esse mundo de ficções tem a sua origem no ódio contra o natural, ou seja, contra a realidade.
Para Nietzsche, o significado da morte de Jesus na cruz re-presentava de fato o término de todo o esforço completamente original para um movimento rumo à felicidade; aqui sobre a Terra e não apenas prometida, baseada na superação do pecado, na negação do abismo criado entre Deus e o homem, na vida, no ensinamento e no sentido do direito de todo evangélico. A concepção de que Deus deu o seu filho em sacrifício para remissão dos pecados da humanidade seria a resposta encontrada para justificar que nada havia terminado e que o evangelho não se acabaria assim tão facilmente. Desde então, foi introduzida pouco a pouco, como uma vertente real na tipologia do Salvador a doutrina do “juízo final”, “da última vinda”, “a doutrina da morte como sacrifício” e a absurda idéia da “ressurreição” pela qual toda a idéia de salvação se vê completamente escamoteada em favor de um estado depois da morte.
Por que nossa civilização é um prolongamento natural do cristianismo, mister sempre levar em conta o princípio hermenêutico que norteia as análises de Nietzsche, e que ele enuncia em alguns fragmentos póstumos: é preciso identificar o ideal cristão mesmo ali onde se eliminou completamente a “forma dogmática’ do cristianismo – como na música, no romantismo, na natureza de Rosseau ou no socialismo.
É antes de tudo essa separação entre os ideais cristãos e a forma dogmática da religião que permitirá a Nietzsche reconhecer o cristianismo até mesmo entre seus supostos opositores, como naquele livre pensador que repudia a Igreja, mas não o seu veneno. O “cristianismo” que entra em cena a partir de agora é constituído por um conjunto de ideais civilizadores, evangelizadores (como é o caso da literatura dostoiévskiana), um repertório de valores que se mantêm vivos, aquém ou além do dogma religioso.
Partindo da religião, propõe atacar o cristianismo que não tem semelhança alguma com as atitudes de Cristo. Na verdade, é um modo formulado pelos apóstolos, sobretudo Paulo, para vingar a morte d´Ele e expressar a sua hostilidade com a Vida. Sendo assim, nas raízes do cristianismo, pretende criticar a moral estabelecida, acusando o mesmo de subjugar o homem a uma potência desconhecida e superior, princípio causador de tudo, levando o mesmo a posicionar-se diante deste suposto senhor, como escravo, criatura pobre e medíocre. E, nesta crítica, pretende acabar com a dicotomia existente desde Platão, descartando, agora, a possibilidade ou existência de um além-mundo e, conseqüentemente, de uma vida eterna.
Ver como honesto um Paulo que tinha seu lar no principal centro do iluminismo estóico, quando ele faz de uma alucinação a prova de que o Redentor ainda vive, ou mesmo dar crédito ao relato de que teve essa alucinação, seria uma autêntica niaiserie (tolice) por parte de um psicólogo: Paulo quis os fins, portanto quis também os meios...


Foi Paulo quem introduziu o culto com sacrifícios e a salvação pela fé, quem falseou a vida e o caráter de Jesus e quem preparou o terreno para o pleno desenvolvimento do clero e da Igreja, fazendo uma espantosa amálgama de filosofia grega e judaísmo. Tudo isto era contrário ao verdadeiro espírito de Jesus.


A crítica religiosa de Nietzsche está intimamente ligada à concepção de vida e religião. Considerava a vida um valor máximo, por outro lado, tinha a religião como destruidora da vida, como uma aberração à mesma. A figura de Cristo em toda a obra dostoiévskiana é o símbolo, arquétipo, imagem, signo, significante e significado, da construção da vida, a busca da espiritualidade, a Vida, e Dostoiévski tinha Cristo como o Amor, Compaixão, Solidariedade Supremos, a redenção e ressurreição é quando o homem vive na carne e nos ossos, na alma e no espírito a mensagem de Cristo. Nietzsche desenvolve com crueldade a crítica religiosa. Em dizendo que a religião é tratada com crueldade, segundo Nietzsche, significa que a religião jamais conteve uma verdade. A religião não deve vestir-se de ciência, e a ciência não deve usar de linguagem religiosa onde não mais puder argumentar.


(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE JULHO DE 2017)


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