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terça-feira, 4 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


CAPÍTULO IV


Se a correlação entre a morte de Deus e a desvalorização dos valores é convincente para o tomista, é porque ela apenas reafirma seus pressupostos. Essa correlação não seria convincente, por exemplo, para o leitor de Kant, e no limite só exprimiria a evidência de que quem a formula não meditou o suficiente sobre a Crítica da razão pura. Se ali se proibia todo e qualquer conhecimento teórico sobre a existência de Deus, isso não fazia de Kant um fanfarrão do niilismo, nem tornava a Crítica da razão prática um exemplo gritante de inconsistência na filosofia. Dúvida que não deixou de ser insinuada por Victor Goldschmidt. “Por que – pergunta ele -, se Deus estivesse morto, tudo seria permitido? Para acreditá-lo (e desejá-lo), é preciso nunca ter compreendido a Crítica da razão prática...”
Quanto à vontade de valor, ela é satisfeita ao vermos nossa imagem re-fletida no mundo, quando o mundo é visto como "deveria ser", seja ou não assim. O naturalismo de Nietzsche permite que a vontade de valor seja satisfeita de um modo que não só evita conflito com a vontade de verdade, mas na realidade a serve.
À medida que um ser pode ser visto como um agente, como um ser racional, o ser deve, na maior parte das vezes, se comportar de acordo com nossos padrões de comportamento racional. Tratando-se de iniciativa, as coisas são, por definição, como deveriam ser (pelo menos em geral) - se não fossem assim, não seria uma iniciativa. Se assim o for, então verdades sobre agentes só podem ser conseguidas a partir de uma perspectiva constituída por valores, por nossa compreensão de como deveríamos agir ou pensar - e só, sem dúvida, quando a vontade de valor é satisfeita.
Num diálogo entre ambos, com efeito, Nietzsche relembraria que Deus, eliminado do conhecimento teórico pela primeira Crítica, permanece um “postulado” da razão prática, algo que o agente sempre deve supor para realizar a lei moral. Não nos esqueçamos de que Dostoievski lera Crítica da razão pura, Critica da razão prática, escrevera ao irmão, logo que saiu da penitenciária, tinha com esta leitura seus propósitos e objetivos. Excluído do domínio do conhecimento teórico, Deus subsiste enquanto “ideal” – e o ideal transcendental, não sendo objeto de conhecimento teórico, nem por isso deixa de ter uma “significação”. Eliminemos os postulados da razão prática, diria Nietzsche, e vejamos então o que acontece com a moral; eliminemos até mesmo a “significação” Deus, e verifiquemos o que resta do imperativo categórico...
Diante dessa apresentação, podemos compreender a correlação entre a morte de Deus e a desvalorização dos valores? Ainda não. Concedamos tudo a Nietsche: o Deus clássico não figura mais em nosso horizonte nem como existência demonstrada, nem como significação ou postulado.
Nem assim o niilismo parece ser a conseqüência necessária da morte de Deus. No sentido dessa compreensão suficiente consultar Sartre. Sartre situa o “ponto de partida” do existencialismo na evidência de que “se Deus não existe, então tudo é permitido”, é para concluir, aparentemente com Nietzsche, que com a morte de Deus “não encontramos, diante de nós, valores ou imposições que nos legitimem o comportamento” .
A libertação pela contemplação estética, pela moral da piedade, da compaixão, da solidariedade, pela abnegação da vontade por ela mesma, supõe que seja abolido o egoísmo do desejo individual e que seja reconhecida a unidade profunda da vontade de viver.
As formas do princípio de individuação, muitas vezes evocado no Nascimento da tragédia, são as do mundo fenomenal: espaço, tempo, causalidade. Schopenhauer admite que a individualidade tem raízes profundas no mundo da vontade, sem falar da multiplicidade das idéias. Sua metafísica sempre negou ser uma mística. Nietzsche adota uma interpretação da metafísica que é redutora, como já era a de Wagner, e dá prioridade à oposição entre o individuo e a vontade “universal”, isto é, entre a visão apolínea e o êxtase dionisíaco:
Poderíamos caracterizar o próprio Apolo como a magnífica imagem divina do princípio de individuação, cuja atitude e olhar exprimem aos nossos olhos todo o prazer e a sabedoria da aparência única à beleza.
De outro lado,
Transponde em quadro o Hino à alegria, de Beethoven, e não deixeis vossa faculdade de imaginar para trás, quando milhões de seres se prostram tremendo no chão: é assim que se pode aceder ao dionisíaco [...] O homem não é mais artista, mas tornou obra de arte; o que se revela aqui, no frêmito do êxtase, é a força artística da natureza inteira à busca do supremo apaziguamento voluptuoso encontrado no Um originário. Com a argila mais fina o mármore mais precioso, é modelado, é talhado o homem e, com os golpes de cinzel do demiurgo dionisíaco, retine o apelo do mito eleusiano: “milhões de seres, vós vos prostrais por terra? Mundo, pressente teu criador.
Como é possível o poeta lírico como artista? A resposta não pode estar numa dialética interna à poesia, mas na identidade, reconhecida na Antiguidade, porém esquecida desde então, do poeta e do músico – em verdade, uma de nossas intenções ao longo da leitura da vida e obra de Dostoievski é que a dialética interna habita na prosa de Dostoievski, dialética que se multiplica, dialéticas-moventes, como a concebemos, em busca da totalidade da vida, a Vida mesma, nossa intenção de demonstrar isso nas páginas que se seguem.
Nietzsche cita o testEmunho de Schiller para quem um estado de “alma musical” precede a idéia poética. Poderíamos citar Paul Valéry dizendo do Cimetière marin: “Ele nasceu, como a maioria de meus poemas, da presença inesperada no meu espírito de um certo ritmo”, e ainda: “Do que me lembro é de ter tentado manter condições musicais constantes, isto é, que me esforcei para obedecer a cada instante à vontade ou à intenção de satisfazer o sentido auditivo” .


(**RIO DE JANEIRO**, 04 DE JULHO DE 2017)


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