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terça-feira, 4 de julho de 2017

#AFORISMO 5/NAS TERRAS DO BEM-VIRÁ A CANÇÃO DO TROPEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Homens que abrigaram sua liberdade no mais abismático de si mesmos, nas pre-fundezas do que lhes transcende, são também obrigados a ter vida exterior, a se mostrarem, a se id-ent-ificarem, a se deixarem ver, a se tornarem transparentes, a se assumirem como imperfeitos, a viverem e conviverem com as ausências e faltas inerentes à alma, até mesmo sujeitos às hipocrisias, farsas, mentiras, falsidades da natureza – livre, o tropeiro toca o lote e canta a lânguida cantiga com que espanta a saudade, a aflição, com que rega e alimenta os sofrimentos e dores, com que ameniza e diminui as angústias e desesperos, com que nutre as suas esperanças e desejos de felicidade, amor e paz, com que levanta a voz aos céus, perguntando a Deus onde Ele está que não responde às suas súplicas e rogos, que permite todas as injustiças e violências; livre corre o vaqueiro pelos morros e várzea e tabuleiro do intrincado cipó; pelo fato de seu nascimento, de seu domicílio, educação, pátria, acaso, coincidências, indiscrição dos outros, elencando o mais importante que concebo nessa manhã de início de julho – mês de meu profundo amor e carinho pela vida e seus desígnios, mês de meus mergulhos mais abismáticos nos horizontes de minhas carências e faltas, mês de realizações de meus mais profundos sonhos e utopias, mês que me faz sentir o ser indivíduo que sou e que intenciono ir além dele -, em breve a primavera se a-nunciará, as flores exalarão os seus perfeitos odores e embelezarão todas as coisas, as retinas se serenarão e todas as visões serão divinas, a mente renovará as suas idéias e pensamentos, eles se vêem empenhados em numerosas relações humanas, desde as mais intimas às superficiais, desde as mais banais às mais percucientes; é-lhes conferida toda espécie de opiniões, pelo simples fato de que são as opiniões reinantes, são as opiniões imperantes, são elas que podem garantir e assegurar a esperança de outros tempos e verdades que o brilho das estrelas e lua, os raios de sol revelam a cada noite e dia, a cada sono com os seus sonhos respectivos e particulares, a cada vigília com os seus problemas e desejos específicos; toda expressão fisionômica que não for negativa passa como aprovação; todo gesto que nada destrói é interpretado como adesão, é analisado como comunhão, é sentido como ligação.
Sabem muito bem, esses solitários do espírito livre, que parecem constantemente, de uma maneira ou de outra, aquilo que realmente não são; quando nada pretendem senão serem verdadeiros e sinceros, id-ent-ificarem-se compromissados e responsáveis com a verdade, com as novas perspectivas e panoramas do eterno e duradouro, em torno deles é tecida uma rede de mal-entendidos, desde os pré-conceitos às dis-criminações, desde as idéias arbitrárias e gratuitas aos instintos puros e absolutos, a despeito de seu violento desejo, sentem pesar sobre seus atos um vapor de opiniões falsas, de acomodações, de meias concessões, de con-sentimentos simulados e dissimulados, permissões panto-mímicas e embusteiras, des-secrados de silêncios complacentes, de interpretações errôneas, despeitos e invejas, medos de seus interesses e ideologias não serem concretizados, morrerem em absoluto desacreditados pela opinião pública, pela notória fofoca de lendas e folk-lores. É isso que acumula sobre sua fronte uma nuvem de melancolia, neblina de nostalgia, garoa de tristeza, pois, semelhantes naturezas odeiam mais que a morte a necessidade de fingir, tripudiar, engabelar, mentir.
Prefiro crer que não posso re-presentar uma vida orientada para as verdades profundas, para a sinceridade e dignidade, sem que o coração dilate e que nasça um ardente desejo de ser também um indivíduo de pura e maravilhosa serenidade quanto a mim e à própria felicidade, invadido por uma chama ardente e devoradora na busca do conhecimento e muito distante da neutralidade fria e menosprezadora dos espíritos ditos científicos, muito acima de uma con-templação desagradável e enfadonha, pronto a me imolar em primeiro lugar à verdade que reconheci e plenamente consciente, no fundo de mim, dos sentimentos que decorrerão inevitavelmente de minha sinceridade.
Por que só agora me é possível tirar a máscara, libertar-me da farsa e falsidade de que em meus escritos de outrora, e mesmo de tempos bem recentes, da obra reunida, não está a profundidade que almejava, o verbo de meu ser com que tanto sonhei? Iludido estava, isso é que, em primeira instância, consigo res-ponder com franqueza, posso dizer sem estar tripudiando com as letras e as idéias, ainda há quando lhes peço cordial e espiritualmente que me deixem expressar o verbo das idéias e pensamentos, sou, enfim, co-autor e não autor delas. Embora não foram as letras que se escrevem por si mesmas, que concebem sentidos e significados a mim não me é possível percebê-los com transparência, me são inconscientes, posso apenas intuí-los, as responsáveis dessa ilusão que vivo há tantos anos, sim o medo que senti presente e forte de seguir os meus próprios caminhos, escutar o meu próprio canto, ouvir o silêncio que me habita em profundidade o íntimo, a ópera do silêncio que desejo sim executar, seguindo e não seguindo, as notas musicais que id-ent-ificam as tragédias da vontade e do desejo, os sofrimentos dos sonhos e utopias, a desgraça das atitudes e ações do mal e interesses que me prejudicaram a visão do bem e do eterno. Dizer, então, que me despertei antes que mergulhasse num abismo profundo, não me sendo mais dado re-tornar à superfície e viver realidades outras e diferentes das que antes havia vivido, haver-me-ia perdido para sempre, tudo por me haver iludido, haver-me entrelaçado nas teias de sentimentos arbitrários, dentre eles o de ser um deus, a mim foram-me dadas a engenhosidade e agilidade com as letras, para aprender a humildade e simplicidade, para viver o que há de mais puro e ingênuo, inocente, para me re-fazer de todas as experiências, vivências, dores e sofrimentos, erros e enganos dessa vida praticados. Aí está quando se faz mister esmero e acuidade para conservar a dignidade e honra, para resguardar os princípios e estilos de vida, postura e conduta.
Seria, então, que amadureci, cresci, posso sentir-me e intuir-me mais profundamente, e é chegado o instante de isso mostrar, de isso manifestar, de seguir as minhas próprias trilhas em busca dos verbos de meu ser que se tornarão palavras, que se me tornarão a vida, alfim sentir-me feliz e realizado com o destino que tracei para mim?
Tenho necessidade de afeto, carinho, ternura, sou solitário, tenho assumido isto a cada passo que dou seja metafisicamente, sentindo-me, por mais que isso suscite surpresa e espanto, feliz, alegre, contente, seja realmente pelas ruas e avenidas, quando cumpro as minhas responsabilidades e compromissos, quando apenas passeio a esmo, a cada degrau da escada que ponho os meus pés a solidão se torna mais presente e forte, de companheiros de estrada e vida, com quem posso me mostrar franco e simples e cujas presenças ponham fim ao aperto doloroso que me causa o silêncio e a dissimulação. Tirem-me esses companheiros e irei aumentar o perigo que me ameaça. Tirem-me os íntimos e amigos irei aumentar a possibilidade de não mais me expressar, de procurar ser verdadeiro e digno.
Tudo é deserto... somente à praça em meio às atribulações e labutas do quotidiano se agita dúbia forma que palpita, estorce-se em rouco estertor. Sim, de longe, das raias do futuro, dos confins dos horizontes e uni-versos, das arribas do infinito, parte um grito.


(**RIO DE JANEIRO**, 04 DE JULHO DE 2017)


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