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terça-feira, 4 de julho de 2017

#AFORISMO 4/MORRER CUSTA - ONDE O PENSAMENTO CONSCIENTE É MAIS QUE PURA EXPECTATIVA, PURA INTERROGAÇÃO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


A fênix pôde renascer das cinzas, pôde escolher entre a morte e a vida. Escolhera a vida. Glória tão simples, renascer das cinzas, parece-me estranha. Outros dirão o que me falta é humildade, se se preferir, a simplicidade. Porém, essa palavra, em suma, é ambígua. Semelhantes àqueles bufões de Dostoiévski que se orgulham, se vangloriam de tudo, sobem aos proscênios e terminam expondo a vergonha, a culpa toda, faltam-me apenas a nobreza e virtude do homem que é a infidelidade a seus limites, o lúcido amor de sua condição, o transparente sonho de sua natureza.
Se devemos resignar a viver o frio e as paisagens, o vento e cenário, a vida, enfim, e as felicidades que eles implicam, o mito de Prometeu está entre os que nos farão lembrar que toda mutilação do homem não pode ser senão efêmera e que ninguém mostra nada do homem se não o apresenta por inteiro, o cenário e vento, as paisagens e o frio, as arquiteturas e a solidão. O herói acorrentado, mesmo sob o raio e o trovão divinos, mantém inabalável sua fé no homem. Assim, ele é mais duro que sua rocha, mais paciente que seu abutre.
Por isto morrer custa. Abrem-se as gotículas, com a calma da boa consciência. Abre-se a esperança dos que iniciam, a vida renova-se, crianças nascem, abrem os olhos, completam-se, visão aguça, enquanto outras crianças vão nascendo e levam os nossos desejos que vão envelhecendo e assistem à vida renovar-se. Abrem-se os sonhos de quem deseja amar, deseja entregar-se à vida sem reservas, contemplar o que é isto ser feliz.


Morrer custa.


O questionamento é o que estaria, em verdade, acontecendo. Não acredito que algo neste nível surgisse de imediato, tomasse o lugar imaginado e pensado ser conveniente, passasse a inter-ferir em todas as outras dimensões, modificando as emoções, transformando os sentimentos, aguçando a sensibilidade, sensibilizando o corpo. Sinto o inverno que toca a pele, o corpo por inteiro, sinto-o perpassar a carne, ainda não o sinto nos ossos. Será que, além dos ossos nunca emagrecerem, jamais sentem frio? Quem dera venha a senti-lo nalgum tempo distante, nalguma janela aberta da pousada Relíquia do Tempo, é a esperança que trago nas cinzas de quando nada sentia.
O que me lembro não tem face nem nome, é a estética de um limiar indistinto, para anunciação da presença, alarme de uma aparição. Num longe imaginado, passam os ventos em seqüência, o frio desliza sobre a terra abandonada, uma voz de espaço ressoa a atenção minha lançada.


Morrer custa.


Compreendo que esse esplendor, resplendor, êxtase demasiado longos, infinitos nada oferecem à alma, sendo apenas um gozo sem limites, sem fronteiras, sem reservas. Desejo então retornar às coisas do espírito, fascinam-me, completam-me, e o desejo é de expressá-las em sua pureza. Os homens desta terra têm coração e espírito, nisso residindo a força, a decisão de serem livres, só alguns, não são poucos, contudo, vivem esta esperança que lhes habita o íntimo, os outros não a quiseram alcançar, seguem trilhas diferentes. Podem tornar-se amigos (e amigos excelentes!), mas jamais serão confidentes de ninguém. Talvez seja uma peculiaridade, singularidade, originalidade, que alguns julguem pernósticas e perigosas, cidade onde se faz enorme consumo da alma e do espírito e onde a água das confidências jorra furtivamente, ilimitadamente, por entre as fontes, serras, estátuas, jardins.
O que me vem à boca e tem nome refugia-se na timidez do silêncio, porque a voz que me fala transcende o passado, presente, futuro, vibra desde as minhas raízes até ao termo, e terno, aí onde o pensamento consciente é mais que pura expectativa, pura interrogação.


Morrer custa.


(**RIO DE JANEIRO**, 03 DE JULHO DE 2017)


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