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terça-feira, 4 de abril de 2017

**DE TABANA-GIRA E QUIÇÁS** - PINTURA: Graça Fontis/AUTO-SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Até louco, quem sabe?!... Quiçá tres-loucado de sandices e mazelas!


Não seria necessário tanto para mostrar que este início é uma continuação do título, se melhor ficar registrado, memorizado, diria com as letras de tabana-gira e quiças. Refiro-me ao ponto de interrogação, exclamação, reticências, chamando a atenção para “de tabana-gira e quiçás até louco, quem sabe!”.
Não me seria dado pensar ou sentir que estou louco e, por isso, busco modos e estilos de mostrar que não, aliás, as minhas condições da faculdade mental andam às mil maravilhas, um esplendor, inclusive sendo capaz de criações e recriações as mais engenhosas possíveis, às vezes nada dizendo, sendo apenas uma demonstração de flexibilidade com as palavras, encontrando-as no momento certo, “grudunhando-as” - seria houvesse alguém que já tivesse experimentado isto de grudunhar as palavras? Não o sei. Afianço ser uma delícia deliciosa, numa linguagem chula, se assim posso dizer, se depor contra a minha imagem, desejando alcançar um nível um pouco mais alto, não me importando fosse do tamanho de um degrau de escadaria normal.
Às vezes, ponho-me a lembrar do início desta longa jornada letras adentro, quando desejava com os sorrisos nos lábios e um aperto enorme no coração, quem sabe a dizer-me os méritos seriam muito poucos, as criações sem limites e fronteiras, muitas alegrias e prazeres, muitas lutas e sofrimentos, aliás, significando isto a condição humana. Tinha de escrever a respeito deste tema, enfatizando esta ou aquela idéia, mergulhando o mais possível na sensibilidade, desejando o verbo amar. Tinha de fazê-lo a todo custo.
Não sei se escrevesse sob medida, isto não posso fazê-lo, mas que me impunha as idéias, questionamentos, sonhos, querendo realizar algo que não me dis-punha a pensar não ser este o caminho. Alguém íntimo dissera: “Se deixar disso, irá produzir muito e de boa qualidade”, embora não me lembre das palavras mesmas, ipsis litteris o que dissera não me lembra de modo algum.


Tantos caminhos...
Caminhos tres-loucados quem sabe, taba-girando a neblina que cobre as montanhas... Quiçá taba-girado de pitis e mauvaises-foi, de quiçás e manque-d´êtres!...


Se me importasse em primeira instância com o título, criar algo que se gerasse à luz de um tema e temática espiritual e contingente, demonstrando, ou desejando, em verdade, o que é isto o clima estar frio, chovera ontem e um pouco durante o dia, a noite está começando, a luz está acesa, encontrando-me aqui, solitário, ah, como amo esta solidão, a garatujar palavras no computador, sem qualquer intenção de idéias, pensamentos, sentimentos e emoções, embrulho tudo e lanço a todos os ventos, arremesso a todos os abismos, rindo até de algo que me disseram a respeito da chuva. Perguntaria: “Por que não se deve fiar em Deus em tempo de chuva”.
Se estivesse entendendo a sua indagação estava a se referir ao verbo confiar, dizendo o por quê de não se dever confiar em Deus em tempo de chuva. Pode-se usar “fiar” e “confiar” na acepção de dar crédito a. Não saberia dizer o porquê. Imaginei que a resposta fosse uma galhofa das mais interessantes e esplendorosas possíveis. Respondera: “Você não sabe quando Ele a vai mandar”.
Houvera dito que hoje não sei mais o que escrevo, as idéias, pensamentos, intuições, inspirações, tudo me vem embrulhado em papel de seda, e só me empenho em desembrulhar e conhecer o que vem dentro, e para isto a jornada não deve ter um fim...
Imagino a primeira vez em que tomei da pena para escrever algo que passava por minha cabeça, dificuldades imensas, estratégias e trambiques foram utilizados para atingir o que desejava fosse. As dificuldades hoje não deixaram de existir, creio até que aumentaram e muito, tornaram-se mais complexas e herméticas, sendo necessários esforço e compreensão das limitações da idade e experiência. Imagino o que por último escrever, as últimas letras de minha vida, sonho-as bem sarcásticas, deixo aos homens o riso escrachado. Se alguém decidir conhecer o que produzira. as trilhas seriam imensas, sem fim, quem sabe até havendo a dúvida se houvera um início, apenas o desenvolvimento, a busca de perfeição e eternidade, coisas que, de viés e antemãos, sei bem que são passíveis de muitíssimas discussões de alto nível, e não sou quem está credenciado a realizar a tarefa de as afirmar com categoria e dis-posição.
Penso em retornar ao início, apanhando a idéia, mas isto seria uma atitude bastante indecorosa, pois dissera antes que nada mais me importa, importa-me saber que estou registrando palavras, dando-lhes vida, busca, encontro, imperfeições... Dando-lhes sentido. Ademais, não faz muito tive alguns sentimentos muito estranhos, deixaram-me bem esquisito por alguns dias: desejos incólumes de, ao invés de autobiografia, uma auto-sátira. Nada mais era que deixar as palavras dizerem, ser eu encarregado de as imprimir, registrar, digitar, isto dependendo das circunstâncias e situações.
Não o faço. Continuo. Não leio uma linha sequer. Disse a mim próprio que deixaria o espírito e alma livres. Só alguns dias depois é que leria e teria um julgamento, ou nem isso pudesse ter. Não o sei.
Se não se aprende a conviver com as limitações, isto não significando que tudo esteja consumado, não se é possível conviver com as situações e circunstâncias a todo instante se apresentam vivas, exigindo uma posição, um ponto de vista. Assim, quem não aprende, pode ter em mente que as chaves da casa verde estão abertas de cabo a rabo, de fio a pavio, para enfatizar de uma só vez.
Se esta espontaneidade que fora adquirindo ao longo da convivência com as letras, dizendo desde já que não as conheço, sou delas enamorado, só reconhecendo o que cá está, embora o desejo de atingir o que lá está, e olhando para trás possa dizer-me com todas as letras que valeu a pena viver, isto valeu.
Em verdade, não sinto que seja necessário esperar ainda longos anos para dizer que a vida vale a pena com as letras. Digo-o desde toda a caminhada, desde as trilhas seguidas e os outros caminhos que eram necessários se anunciarem e representarem as experiências e vivências.
Creio haver chegado o instante de retomar desde o início, ler, pensar um pouco o que desejei a todo custo dizer, o que não dissera, aliás, de extrema necessidade, mas prefiro não o fazer agora. Quiçá num futuro próximo?... Sinto necessitar de algumas experiências e vivências para conseguir atingir o nível que as palavras exigem para a compreensão do que significa isto a noite haver chegado, a luz está acesa, encontro-me sozinho, ai que delícia de solidão, registrando algumas palavras, servindo apenas de algumas agilidades que adquiri ao longo de tantos anos.


(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE ABRIL DE 2017)


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