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sábado, 1 de abril de 2017

**À LAIA DE SÁTIRA ERRANTE** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!

Eis a estória que o Escritor Quarqué contou a Zé Prequeté/Que tira bichos no pé/E chama sua muié/Pra cumê no coité:

Nada mais do que a volumosa poeira da estrada, vermelha, grossa e quente – ao final, tem-se a sensação viva e presente de que se está calçado de poeira; os sapatos são produtos de imaginação fértil; tem todas as características de calçado de grife, lindo e resistente, brilhante, o único problema é a chuva, muda todo, torna-se calçado de lama, avançar único passo é que são elas -, nada mais que o capinzal dos morros. Poeira e capinzal aqui, capinzal e poeira acolá, talvez cheguem aos confins da Cochinchina – e quando chegarem, quê esplendido panorama não há de ser, perfeita cena cinematográfica, os protagonistas enlaçados num beijo eterno -, talvez cheguem nas arribas onde Judas dependurou as chuteiras – e quando chegarem, que maravilha de visão para os espíritos românticos -, do modo como as coisas andam o crescimento do capim e o aumento da poeira, por todos os lados, recantos e cantos, encontraremos isto, a visão do verdadeiro mundo, este em que Deus colocou todas as suas criaturas para uma aventura de vida e de morte. De tão esplendido espetáculo de poeira e capim no mundo os olhos estarão todos esbugalhados para melhor re-colhê-los, para melhor a-colhê-los, e quem foi agraciado com o dom de compor versos possa real-izar obras-primas, a imortalidade não exigirá qualquer esforço; esta que acabo de compor, apenas imaginando a poeira e o capinzal no mundo, não é prima, é apenas um deleite dos sentimentos e emoções que se a-nunciam bem longínquos de meu intelecto e razão, se revelam palmo diante de minha sensibilidade, intuição, percepção, imaginação, tenho até vontade de berrar bem alto para os homens todos ouvirem: “aos vencedores, as batatas”.


Minha terra tem poeira
Para os pés nela se atolarem.
Ruas, avenidas, becos, alamedas por inteiro estão
Entupigaitados de capim viçoso
Para saciar as fomes seculares
E milenares de toda a comunidade
Sem exceção de raça, credos.


À noite, estrelas piscando de infinito a infinito ou não, para espairecer as idéias, não prolongar pela madrugada a fora o pensamento do capim e poeira estarem tomando conta do mundo, em breve só isto existindo nele, além dos homens obviamente, andava por todas as ruas empoeiradas, terrenos baldios em que neles crescia capim, de cabeça baixa ou não, respiração ofegante, coração opresso, de peito estufado ou não, sentindo-me maravilhosamente bem, enquanto pensava noutras coisas bem interessantes, no morro dos ventos uivantes, na casa do sol poente, na sepultura de P. P. Brasil, no mausoléu de Gregório Ventura, na flor e na fera, na montanha mágica, nas veredas do grande sertão; sentia-me alegre, feliz e saltitante com estes pensamentos, extasiado com a serenidade do espírito, com eles em mente capim e poeira sumiam, desapareciam, em verdade nunca existiram. Caminhava pela periferia, pois o novo prefeito mandou asfaltar todas as ruas do centro, a poeira do asfalto é quase invisível, não se nasce capim no asfalto, podem-se encontrar caídos de algumas sacolas batatinhas, jilós, tomates, que algumas pessoas sem o que fazer costumam sair apanhando, um deleite novo dos preguiçosos e folgados, uma di-versão para os problemas e sofrimentos do cotidiano.
Se a presença de poeira e capim me incomoda tanto, deixa-me cismado com o futuro, deveria ter amado a atitude, o senso de desenvolvimento e progresso do novo prefeito em asfaltar as ruas do centro, não mais haverá sapatos empoeirados, bainhas de calças imundas, colarinhos na cor específica do burro fugido, dinheiro difícil de ganhar não será mais gasto com tinta ou graxa para limpeza dos sapatos, lavagem das calças, além de ser bem agradável andar no asfalto, a sola dos pés se sente agradecida. Mas não. Ando preocupado com o futuro da poeira e do capim. Pode ter feito isto só para manter a aparência de sua administração, não cair na língua do povo como defensor jumentado de poeira e capim, poderá até incentivar o turismo, aumentar as receitas dos cofres públicos. “Visitem a cidade do capim e da poeira” – ao invés disso, “Visitai a cidade das ruas, becos, alamedas, avenidas asfaltadas”. Não há como exportar poeira para outros municípios, mas há como fazê-lo com o capim para municípios de grande produção de gado, e como o capim é muito uma fortuna será obtida, podendo até aumentar a produção para atender a demanda, para satisfazer todos os desejos de poder e bens materiais. Algumas pessoas de visão aguçada ficaram insatisfeitas com isto de asfaltar as ruas, isto porque o prefeito estava acabando com a originalidade de nossa região, enfim sertão é lugar de poeira e capim, era preciso conservar as origens, origens são identidade.


Minha terra tem capim
Para encher os coxos
Engordar o gado de corte, leiteiro,
Aumentar a riqueza do município é o seu fim.


Em certa ocasião, quando ainda o capim estava nascendo nos pastos, capim meloso que digníssimo fazendeiro plantou sementes numa grande extensão de terra para aumentar o peso de seus bois nelores, sustentar os açougues de carne gorda, ganharem mais dinheiro com picanha para churrascos – nos coxos, pode faltar ração de primeira qualidade, não pode é faltar o capim; na mesa de nosso povo, pode faltar tudo, mas não pode faltar a carne bovina ou suína -, pensei escrever sobre o capim só para contrariar os interesses, ufanizá-lo, mas desisti da empreitada, tive medo de passar para a história como autor do capim, como um escritor conservador, avesso ao progresso e ao desenvolvimento. A poeira abaixou, e quando o fez pude enxergar um palmo diante do meu nariz adunco, embora uma narina nada sinta, fora obstruída devido a uma queda de gangorra, não corria o risco de cair dentro da vala no meio da rua – não sei dizer o que está acontecendo, verdade é que os esgotos estão sempre com problemas, as ruas vivem cheias de buracos -, dar com a fuça no poste de cimento armado, ousei garatujar uma sátira errante à laia de uma memória que se comprazia com armazenar as poeiras das ruas para espairecer as idéias metafísicas do inaudito, que se felicitava e extasiava em con-templar os capinzais molhados da neblina da noite, após dias e dias de chuva, para conservar a fertilidade da imaginação sempre à cata de novos infinitos além das arribas, mas fora algo tão ridículo e despropositado que larguei de lado os objetivos que tinha, a sátira não habitava as pré-fundas de minhas críticas à modernidade das poeiras metafísicas e do capim antropológico, estava mesmo era perdendo o senso das coisas do mundo e da vida, continuasse insistindo, com efeito, ensandeceria, poeira e capim foram apenas quimeras e fantasias de uma mente desvairada, para satisfazer a minha imaginação sem fertilidade serviam-me capim nas três refeições quotidianas, cama de poeira feita no meu catre.
Mesmo assim, continuava a perambular pela periferia da cidade, lugares outros inda não visitados por mim, desejava certificar-me de que a poeira aumentava, o capim crescia, queria que a cidade adquirisse outro panorama a ser vislumbrado, a maravilha mesma só seria real-izada com o capim e a poeira, nada mais é capaz de felicitar e alegrar as retinas que isto. À noite, antes de conciliar o sono, ficava pensando em todos os lugares por mim visitados, os sapatos e bainhas das calças imundas de tanta poeira, quando aos poucos fui des-cobrindo que possuo algo a que denomino valor, algo que até o presente momento aniquilou em mim todo senso de humor sombrio, no lugar da sombriedade nasceu o sarcástico. Esse valor fez-me deter por fim e dizer em versos:


O capim é o melhor dos artífices
Dos instintos para uma terra
Que só tem poeira.
O capim também alegra os paladares
Exigentes e carentes da pura delícia.
E o paladar e a carência são o precipício
Mais profundo:
Tão profundo quando o homem os sente na vida,
Mais profundo o vê no sofrimento.


Um burrico sem cor do pelo definida
De tanta sujeira devido à poeira dos pastos
Onde pastava,
Que subia com ar de desafio por entre precipícios,
Um burrico perverso e solitário
Que já nem queria erva nem matas,
Um burrico de montanha relinchava
Ante o desafio dos meus passos.


Poeira e capinzal aqui, capinzal e poeira acolá. À laia de sátira errante, uma estrebaria humilde e simples aquece-me mais do que um leito magnífico, porque sou zeloso da minha miséria, pois que minha terra tem poeira para os pés nela se atolarem, o mundo inteiro está entupigaitado de capim viçoso para saciar as fomes seculares e milenares de todos. E no inverno é quando a minha miséria me é mais fiel. Apraz-me também fazer-me cócegas com um estilete de capim, para enfim permitir ao corpo se sentir menos sujo de poeira, com uma velazinha, para enfim permitir ao céu sair da aurora pardacenta, aos olhos verem algo através da poeira levantada, com a passagem de algum automóvel. Sinto-me mais comprazido é de madrugada, quando chiam os baldes nas cisternas e os cavalos relincham pelas ruas sombrias. Então espero, impaciente, ansioso, que se apresente o céu luminoso, o céu hibernal de nívea barba, o velho de cabeleira branca: o silencioso céu hibernal que até sobre o seu sol às vezes conserva silêncio.
Como conseguiria suportar a minha felicidade numa terra de poeira aqui, capinzal acolá, se eu não os cercasse de pensamentos e idéias do porvir?


(**RIO DE JANEIRO**, 01 DE ABRIL DE 2017)


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