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sábado, 20 de maio de 2017

PREFÁCIO DO LIVRO /**O LADO OCULTO DA EMOÇÃO**/ - MANOEL FERREIRA


No espelho reflete a imagem. O rosto nele re-fletido é a verdade de quem a pro-jeta? Ou é apenas a re-pres-ent-ação da identidade, de quem se é? Mas é o rosto, a face, que re-vela a verdade do ser? Ou é o mergulho na alma, trazê-la à superfí-cie que a-nuncia o ser da verdade da id-ent-idade?
O lado oculto da emoção, antologia de poemas de Joel Magalhães e Júlio di Paula, são duas imagens pro-jetadas no espelho do uni-verso poético, da querência de re-velar os hori-zontes da sensibilidade que habitam os inters-tícios da alma, id-ent-ificarem a eid-ética da personalidade e caráter do verbo de ser, a poesia no seu cerne de busca da trans-cendência espiritual. Duas faces bem diferentes,
características sensíveis e con-tingenciais ad-versas, di-versas, trazendo em si o desejo e vontade de mergulho na alma do espírito poé-tico, no espírito da alma poética. O lado oculto da emoção é dividido em duas partes: primeira, traz ela os poemas de Joel Magalhães, na segunda, os de Júlio de Paula. O interessante a ser sublinhado e ressalvado que os dois poemas de início carregam
nas algibeiras o supremo questionamento da contingência da vida. “O FIM... OU O começo?”, Joel Magalhães. O fim é o início do começo, término de um tempo, alvorecer de outro, o ad-vir. O começo é a jornada para o fim, contingências de buscas, de encontros, de dores, sofrimentos, irrealizações, frustrações, decepções, permeadas de sonhos, esperanças, fé, o eidos para o ser-para o verbo de ser. No “mistério do amanhã”, treva do ad-vir, o homem se aflige, “indigna-se e perde a sua força”, mas precisa se pro-jetar, criar-se, re-criar-se, inventar-se para seguir a jornada rumo ao verbo de ser, e isto só é possível através das três pedras angulares da vida, sonho, esperança, fé, que são re-presentadas poiética e poéticamente neste verso final do poema: “Mas precisa de humildade para ser salvo”: a “humildade” é metáfora do estar aberto, con-sentindo os novos horizontes e uni-versos se a-nunciarem, re-velarem, mesmo com outras contingências, contradições e dialéticas. No poema “TRABALHADOR”...
O ser se revela no tempo. Se o Ser se faz continuamente, a continuidade é também o Ser. Nas contingências, contradições e dialéticas, vai-se construindo o Ser. Então, Joel Magalhães neste verso “O tempo vale ouro” identifica o fim e o começo, dimensões do tempo, com a busca do ser, caminho de trabalho, de labutas árduas, o suor das contingências escorrendo na face, quase nunca se relaxa e pessimamente se dorme. O ser-para o verbo se faz no trabalho, de sendo em sendo nos caminhos do campo vai se elaborando,
construindo-se. No poema “VIDA ABERTA”...
Mister permitir-se, consentir-se, aceitar-se a abertura para o silvestre das flores, a caminhada de dores, sofrimentos, buscas, querências, desejâncias. “Os rios desembocam-se nos mares;
As rosas desvirginam-se na primavera...” O cerne existencial desemboca-se no verbo, o verbo existenciário desemboca no ser. A obra poética de Joel Magalhães é reflexão dos caminhos da
existência, suas contradições, dialéticas, permeados das experiências e vivências. Transcende-se, quando o poeta em “APOIO MORAL” poetisa “Viver em todos os sentidos”. É vivendo em todos os sentidos que a espiritualidade se a-nuncia, revela-se, a poesia em-si mesma espiritualidade, é realidade do trans-cendente. Em “MEDITE”, primeiro poema de Júlio de Paula, a identificação das duas faces poéticas que se projetam no espelho, na desejância do encontro da imagem poética da vida. Joel Magalhães, no primeiro poema, questiona o “Fim” ou o “Começo”, nas contradi-ções e dialéticas da vida, reflete a contingência. Júlio di Paula neste primeiro poema reflete as contingências da alma, tristeza, angústia, vazio,
nada, solidão... Enquanto Joel Magalhães a-presenta o questionamento, Júlio di Paula transcende a a-presentação, apesar de na mesma perspectiva do ad-vir, mas na dimensão já da espiritualidade, mas tecendo o verbo do Ser: “Viva a vida... pois amanhã virá”, verso significativo deste poema de início. Joel Magalhães reflete em viver a vida em todos os sentidos, enquanto Júlio de Paula reflete viver a vida, isto é, para o primeiro na vida habita sentidos, para o segundo a vida não tem sentidos
pré-determinados, simplesmente é vida pura, é no tempo que os sentidos vão sendo a-nunciados e re-velados. A trans-cendência à espiritualidade se revela poéticamente e não vivenciária apenas, vivenciariamente as dores e sofrimentos para esta suprassunção se apresentam contundentes.
A poiética do verbo de ser, com a vida sem sentidos pré-determinados, mas simplesmente vida, se real-iza livremente. Mas qual(is) caminho(s) do campo a ser trilhado para o con-sentimento de não haver sentidos pré-determinados na vida,
simplesmente vida. As reflexões de Júlio de Paula traz em si a dimensão da espiritualidade, ou seja, os homens nascemos com ela nos habitando. Este verbo nos habita desde a eternidade à
eternidade, e no tempo vamos elaborando, burilando de sendo em sendo, através dele vamos nos criando, re-criando, inventando. “Sinto em meu coração/A beleza do existir/Sinto que o amor/É como um sentimento/Que nasce e renasce/A cada momento”, estrofe do segundo poema, “AMO”, de Júlio. Podemos aqui estabelecer a comparação. Para Joel Magalhães o verbo
de ser da contingência se faz continuamente, nos sentidos que a vida traz em si: “Se o Ser se faz continuamente, a continuidade é também Ser”, enquanto que para Júlio di Paula o ser da espiritualdade se faz continuamente, através da vida que é vida pura, através do Amor: “Se o Amor se faz continuamente, a continuidade é também o Amor”. O Amor nasce e renasce a todo momento, faz-se, refaz-se, cria-se, re-cria-se, inventa-se, re-inventa-se, o Amor é o caminho de suprassunção das contingências, pois que ele é puramente espiritualidade. O supremo questionamento não poderia deixar de figurar nesta algibeira do Amor. Saber, reconhecer, ter a consciência de que o Amor é a pedra angular nos caminhos do campo para a suprassunção da contingência não é o suficiente. O amor habita o homem desde a eternidade à eternidade. Mas quem é o homem?
Sendo assim, a reflexão de Júlio di Paula: quem é ele: “Quem sou”, terceiro poema da obra: “Pois sei que sou vida,/vivo e não me intimido/Diante da vida, que incógnita, vivo...vivo”. Ele é vida,
o homem e vida. A vida é incógnita, mesmo assim, diante dela, ele vive..., vive, o homem vive... vive... Se o Amor habita o homem, se o Amor é dimensão da espiritualidade, a vida é vida pura e simplesmente, e na pureza e simpleza da vida as sendas e veredas do silvestre da floresta do verbo-para o Ser, do verbo-para a Espiritualidade se revelam, torna-se a carne do Espírito, torna-se a carne da Divin-idade. A poiética da vida se faz no Amor que transcende a poética das contingências.
Nesta dimensão de nossas considerações no tangente a esta obra poética, REFLEXÕES, de Joel Magalhães e Júlio di Paula, dividida em duas partes, isto é, Contingência e Espiritualidade, se
projetam no espelho Uno-Verso, comungam-se, sintetizam-se, a face é uníssona, o verbo do ser, o verbo da poesia e da poiética do ser.


Manoel Ferreira.
Ensaísta, Crítico Literário, poeta e escritor.


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