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segunda-feira, 22 de maio de 2017

*CARTA AO FUTURO** - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Numa remota aurora, num longínquo crepúsculo. num distante anoitecer de tempos originários, já, há muito, olvidados, cheguei talvez do Oriente aos trópicos tristes e selvagens.
Quero partir: cada vaga, cada vela, cada vazio cada elo. Quero partir: cada nuance, cada perspectiva, cada ângulo, cada visão, cada profecia, cada sabedoria.
Que se torne incerto, que se torne certo, que se torne mentira, que se torne verdade, que se torne vago, que se torne completo, que se torne incongruente, que se torne obtuso, que se torne absoluto.
Minha angústia se revolta e se liberta de si, e não liberta ideologias compostas impostas que transcendam o meu ponto-limite. Minha nostalgia se rebela e se re-colhe, se a-colhe e se estende a si e não liberta sonhos, e não liberta utopias sintetizadas, comungadas, aderidas, compartilhadas, correspondidas que suprassumem o meu ser-limite.
Quero quebrar esquinas, quero dobrar caminhos, quero virar ruas, alamedas, espinhos, vínculos viscerais que viciam, que eliciam, que toldam meu espírito liberto, que embriagam minha alma vadia, que vaga infirme em suas manifestações re-colhidas, re-primidas em seu fim-limite.
Quero metamorfosear-me em fincos de cáctus, de pactos em pactos, de tramóia em tramóia, no coração do mundo. Quero modificar-me em pétalas de rosas, de barganhas em barganhas, no espírito da terra que em sístoles-diástoles bombeia sangue arterial-venoso, solda e salga na saga dos lóbulos da mente cratera vulcânica a borbulhar.
Quero pactuar comigo, de acaso em acaso. Quero tripudiar comigo, de improviso em improviso, sem caso formal de ideologias, de interesses escusos, de utopias, de sonhos, de quimeras que nem são meus.
Quero marcar ponto na ec-sistência, quero marcar boitempo acontecendo no acontecer que me criva de balas, situando no situar e me retalha a sabres projéteis na ânsia que abafa, sufoca o meu próprio grito impossível de guerra. Ânsia que aterra, que fere; agonia que marca, que mata o meu tempo-limite.
Desejo sim, desejo ser a minha concepção ideológica, ilógica, lógica, alógica à minha maneira de ser a minha definição ambígua, contraditória, paradoxal, ao meu estilo de ser.
Quero libertar meus mitos, meus ritos, meu grito, de toda repressão de formas que destroem a minha forma, de estilo que confunde a minha linguagem na busca secular do meu ponto-comum-limite na procura milenar da minha marca-de-idéia-mesma. E nessa exuberância exótica, e nesse êxtase inusitado, e nessa volúpia excêntrica
Trabalhei em câmbio e em exportação, vendi muita madeira nobre para o templo do sábio Salomão.
Ouvi são Sumé contar histórias da redenção e quis beber desse vinho, e quis comer desse pão. Ouvi o vigário contar patacas do além e quis degustar a maçã, mas meu rito no começo era um rito pagão...
De libações em libações, mais me aumentava a vontade de beber daquele vinho de libidinagens em libidinagens, mais crescia o desejo de comer daquele pão, de orgias em orgias, mais subia em mim a fissura de degustar a maçã.
Sonho, vida. Amar é bonito. É o instante, o momento, o pensamento, de todo um sentimento é o princípio e o fim, a idéia de toda uma felicidade. È o meio. ideal de beber no estio as lágrimas da aurora nesta fome de amor, de sublimidade, do etéreo e do efêmero, do diamante que risca o éter, corro à estrela, leio o que nela está escrito, sua mensagem, à brisa, ao mar, à flor.
Viverei por ser verdade a Vida, esperarei uma eternidade, tentarei ser feliz a cada momento, mesmo que o amor fique distante. Quero ver a luz nas luzes das estrelas e das palavras nela escritas.
Quero ver a luz nas entre-linhas das luzes do sentido e significado da vida, no além-linhas das luzes da contingência e transcendência. Quero sentir na rosa da campina o cheiro esquecido do sono e da vigília, aspirar o prazer secreto do porvir. Na brisa, quero o doce alento, sem culto nem reverência.
Quero ouvir a voz na voz das ondas, na roda-viva das melodias de sereias e corujas ao longe, nas praias esquecidas da terra.
Amo o sonho como se fosse minha poesia. amo o silêncio, a vida, a saudade de entes queridos, a lembrança, a esperança, a certeza de ter a poesia. amo o sonho como se fosse em mim doce espaço para sentir a Vida.
Ao invés da luz, do aroma, ou do alento ou da voz, encontro a fonte de todo o ser, e fonte de toda verdade, verdade que vivo e experiencio ao longo dos dias de minha existência, verdade que há-de vir, resultado e conseqüências de outras que apenas delineei na alma e espírito.
Hei-de passar o tempo à procura de uma flor, hei-de de me fazer feliz como se fosse raiz: dar frutos, ser sombra, colher a última folha que a primavera deixou; hei-de ser a arte, meu verso que afaga muitas vidas; hei-de ser vida, hei-de de ser ponto de partida.
Toda a ardente ebriedade de meus reais pensamentos, verdadeiras idéias, férteis imaginações, tudo gozei nas noites de amor, nas noites de idílios e sorrelfas, nas letras de incólume vazio, nas palavras de efusivas esperanças.
Vaga nas linhas curvas, nas entre-linhas sinuosas, de letras e frases curtas, de pensamentos e idéias profundos, que não tenho medo de mostrar, incertas palavras, inquietas letras, espalhando-se pelo papel esbranquiçado, liso, como um peito que deseja abrigo com o coração em êxtase, num só pulsar que relampeja, e me traspassa os nervos de flor, de pedra, de prazer... e amor na límpida transparência das águas, nas asas cristalinas das emoções, às vezes que o amor é apenas reflexo da dor, é um sentimento que esmaga o peito, devorando o corpo e a carne, como enchente num leito de rio, tragando vagarosamente a vida, arrastando consigo o homem à procura do mar que o infinito alcança.
Quero ter um mundo sem porteiras e fronteiras, sem muros, cercas, barreiras, sem ódios, vícios, dores e sofrimentos. onde todos plantem e colhem, onde todo faminto coma, na justiça, na paz e no amor. onde as aves tenham seus próprios ninhos, onde todos tenham carinho, amor, ternura, onde ninguém gema de dor, sofra com os problemas e conflitos.
O horizonte é meu infinito, o mar, meu refúgio. o crepúsculo é meu uni-verso. O sol arde, o vento sopra, velas se abrem num abraço à liberdade. Imagino tudo, existo, o amor me faz caminhar, ir à busca de mim mesmo, e me encontrar com as sorrelfas de meus idílios
Rompe a luz da tarde serena. em vão, encho de aroma o ar da tarde; em vão, abro o seio úmido e fresco do sol, nascente aos beijos amorosos; em vão, orno a fronte à meiga virgem; em vão, como o penhor de puro afeto, como um elo das almas, passo do seio amante ao seio amado.
Horas e instantes de pura fantasia, quimera, momentos de idílios, gestos, atitudes, palavras e ações que re-fletem amor e ternura. Veredas do sertão longínquo, onde supus o meu ser, “restícios” de feto e flor.
E, assim, de banquete em banquete, incrementando em mim o vigor inimigo, encontrei, sem saber, o bispo amigo de Sumé e o comunguei corpo e sangue, alma e fé.
E os meus olhos se abriram, num estalo, como os do meu pai barroso, ao comer da maçã... E a realidade exterior me fugiu e fiquei a ver navios, à mercê só do desejo. E esse desejo, oscilante, ao fiel da báscula, num jogo intrincado, não consegue mais pesar, pois, me introjeta e projeta, em vaivém, entre o prato do bem e o prato do mal.


(**RIO DE JANEIRO**, 23 DE MAIO DE 2017)


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