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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Ana Júlia Machado ESCRITORA E POETISA PORTUGUESA COMENTA O AFORISMO /**ASSIM FALAVA O GURU FESMONE**/


Isto da vontade e do "ser" tem sempre muito que lhe diga. Um excelente, texto amigo Manoel Ferreira Neto. Vou colocar aqui um texto que estive a pensar e fazer, que não sei se fugirei um pouco do que pretendia. Mas quando se fala do que somos e ambicionamos ser, leva-me sempre para muitos campos. E aqui vai algo que penso... Não incomum, para nossa mágoa, neste instante da jornada, temos averiguado que muitos são aqueles que, alienadamente, elegem a evasão para a adaptação à submissão escrava da “regularidade civil”, o qual os retém numa situação de ignorância quanto à verdade de si próprios. Aos que infelizmente preferem por isso, a singular poder que se anuncia, origina-se entre o isolamento emotivo e corpóreo, o qual reverte numa condição de vulgaridade, aceleradamente e claramente fragilizada. Por mais que estes “fugidios da verdade de si próprios” arrisquem dissimular através de uma intranquilidade e amor demasiado pela própria imagem ou por si próprio compilar de possessões, atitudes, velozes e faces rotinas visíveis, ou em invulgares babel, pela demanda da arcaica erudição autoritária - hermética, os tiques de seus pançudos ou inapetências físicos esfalfados — por vezes, operações pervertidas —, concomitantemente com suas bisadas palavras, estas incessantemente embasadas num pretérito findo que ninharia de verídico adicionam, bem como a carência de fulgor em seus observares esgotados, o qual arriscam camuflar com inacessíveis e surreais cosméticos, concluem sempre patenteando a falta de Existência em totalidade em sua costumeira e automática vida, e que, em derradeira pesquisa, nada de qualitativamente estruturante lega de espólio para a conquista de conhecimento das vindouras criações.
Tudo na existência concebe porção de um enorme procedimento, o qual, na pluralidade das ocasiões, não estamos devidamente cônscios. Mirando para o nosso pretérito, se somos deveras cumpridores, conseguimos enxergar com destreza que o temor e o anseio sempre encontraram-se existentes e que os próprios, até estabelecido instante, auxiliaram de ligação para as imprescindíveis práticas educadoras de novos graus de conhecimento. Inicialmente, nossos anelos e temores acham-se na alçada da circunscrita e regulada pesquisa de anuência e legitimação parental /sociável. Meramente após acercarmos ao reentrante de abismo motivado pelos “instintivos e reais” desencantamentos e decepções, é que se exterioriza em nós, um anseio de graus mais imperceptíveis que já não se acha mais na alçada da idade e da configuração: o anseio de ir muito longe da deixada invenção de criador ou da convicção numa reprodução recriada de criador, para “a existência objectiva da Verdade Indescritível de Criador. Esta é uma ocasião muito débil, desordenada e amargurada em nossa jornada, um instante em que não somos bem olhados por aqueles que — como nós em nosso involuntário pretérito —, ainda contemplam-se penitenciários de representações, convicções e pareceres relativos ao criador. É natural aqui, além do temor do degredo, sermos igualmente invadidos pelo receio de estarmos quedando irracionais, quando, na verdade, o que vivenciamos é aquilo que muitos beatos alcunharam de “a demência que a tudo regenera
Os anseios do eu, do ego, somos constantemente restritos e autocentrados, apontando sempre apanágios particulares, não afastando em ponderação o que é de direito comum. Já essa Intenção Suprema, tende meramente o conforto comum, onde de facto, residimos abarcados, desde que tomada a pertinente percepção, muito além de um grau intelectual, de que somos todos um. Enquanto nas balizas do eu, do ego, do ser que fomos invariavelmente estimulados a confiar que somos, nossa conspecção detém-se permanentemente numa maneira dupla, dissidente, isolada e visceralmente adversária. Quando aproxima-nos o conhecimento da Erudição Verídica que somos, penetramos numa renovada conspecção, conspecção esta que vence em muito a clássica visão dos olhos que cogitavam enxergar e que, por cogitar ver, perduravam a cogitar de forma reaviva. Já com a instauração dessa noção da Percepção Verídica que somos, nossas alucinações passam a ser visceralmente abrangentes, de comunhão vivamente interdependente.


Ana Júlia Machado


**ASSIM FALAVA O GURU FESMONE**
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Há escritores sem saber e escritores sem querer - as letras autênticas são cada vez mais agulhas no palheiro, especialmente os escritores autênticos.
Há quem re-vire a ampulheta sempre que a areia termina, há quem não a re-vire, tornando-a apenas um ornamento, arrebique sobre o móvel da sala de visita, sobre a escrivaninha no escritório. Qual deles acredita solenemente que a areia é símbolo da vida passando no gargalo do tempo?
Há toques e gestos que alimentam o amor, fá-lo florescer, fá-lo crescer, e crescer, e crescer, transbordar-se de felicidade e alegrias. Há palavras que a cada sílaba pronunciada fazem o amor tornar-se mais grande, mais grande, mais grande, semelhante aos eucaliptos no coração do sertão, sentindo ele que ultrapassará o eito celestial, que se refestelará na sombra da eternidade na hora bem-aventurada do entardecer, e na aurora criará novas conquistas a serem real-izadas.
Há momentos que se efemerizam de imediato, não deixando quaisquer vestígios de sua presença. Há outros que são assimilados pela memória, e nada há que os en-vele ou dissipe-os, são estes que alimentam a alma no prosseguimento de sua jornada na vida.
Há virtudes que tornam o homem modesto e manso como uma ovelha; com isto transformam a água em vinho delicioso. Há valores que transformam o homem no melhor animal doméstico do homem.
Há princípios que dignificam, elevam, engrandecem a liberdade e a consciência de o destino ser criação e re-criação; há princípios que alienam, destroem, a liberdade torna-se escravidão e a consciência torna-se in-consciência.
Há veredas, apesar de todas as suas sinuosidades, que levam à colina de onde se pode con-templar o panorama do vale, comer com os olhos a sua beleza e esplendor. Há veredas, apesar de não haver qualquer sinuosidade, que levam ao abismo e a sua profundidade é o destino irreversível.
Há a aurora que inicializa o dia a ser vivido com as suas con-tingências e sonhos; há o anoitecer que desperta a vontade de outro alvorecer. Há o tempo que acorda para a responsabilidade com a vida, a liberdade com os desejos e vontades do "Ser"


(**RIO DE JANEIRO**, 08 DE MAIO DE 2017)


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