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segunda-feira, 29 de maio de 2017

#A FELICIDADE BROCHA# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Não vivo a travessia de nonadas, não vivo o passar nas pontes partidas, não vivo o pisar nos mata-burros de estradas poeirentas e trincadas de raios numinosos do sol ardente, não vivo o alvorecer de veredas perpassando os uni-versos do não-ser... Em verdade, em verdade, nada vivo, vivencio o ser-da-vida, sendo-em-sendo-do-ser-da-vida sigo o campo de caminhos sinuosos de curvas e ziguezagues, ora amando apaixonadamente o verbo do ser-amor, ora negando todos os sentimentos e emoções, ora recusando todas as inspirações do belo e da verdade, ora rastejando nas sarjetas imundas do quotidiano das situações e circunstâncias, ora quase mendigando nas tabacarias de todas as solidões, tabernas, portas de casas, igrejas, botequins, mercearias.
Com ninharia habitar…. faz parte dela… pode é não viver na íntegra.
E a solidão pede licença, gestos etiquetados, pois que vai muito além de si mesma o que se mostra, e, se pede licença, é que ali não está. As sombras se retiram à francesa, vão acompanhar outros que delas estão necessitando.
Só em face desta alucinante di-vergência entre quem fui eu, como fui eu, é possível divisar os limites desde onde posso sonhar a construção do meu reino sobre a terra. E é porque é difícil estabelecer esta di-vergência, ter a aparição de mim a mim próprio, que os homens podem construir uma redenção com uma aparência de segurança que os ilude e os escarnece.
Nada vivo... Ah, quem dera vivesse, a vida se me contemplasse no espelho das imagens perpétuas!..., se me perscrutasse nas perspectivas do rosto ou da face. E nas perspectivas e ângulos re-versos às cavalitas das lusitanas jornadas por mares desconhecidos, inversas às carioquicéias do crepúsculo à beira-mar, respiro a serenidade do inferno nas lareiras chamejantes da perpétua morte ou da morte na perpetuidade da vida...
Apreciar de tudo na existência é benéfico? As realidades nefastas corrigem-nos a habitar? Os factos, benéficos, conserva-nos viventes?! Assim, as boas e más experiências são elementares na vida…nada é nada…
Face a estas paisagens irradiantes de luz, a estes cenários de puro resplendor de verde, em que, como um viajante da redenção e da ressurreição, caminho ao sol, às vezes à chuva, a vida das coisas nas suas mais humildes parcelas se me impõe, descubro as palpitações secretas da natureza nas amendoeiras em flor, nos campos de lírios, nos pomares, nas searas, nas aldeias de telhas castanhas que se apertam à volta da igreja, nas ruas trepidantes e coloridas ou no respirar lento. O que o outono me tem prometido é-me confirmado pelo Inverno e satisfaz o meu desejo; à minha volta tudo brilha e se tinge de muitas cores, transcende o meu delírio, alucina-me e me possui.
Verbaliza, que realidade, ninharia reside, adota uma posição valorizante, sintética, que não é unicamente inerte e emocionante, pois abarca igualmente um recado intelectivo activo. O ser-da-vida, sendo-em-sendo-do-ser-da-vida perfilha o chão de trilhos tortuosos de dobras , ou adorando enamoradamente a eloquência do ser-amor, ora contestando todas as sensibilidades e agitações, ou declinando todas as númenes do sublime e da realidade, ora arrastando-se nos escoadouros repugnantes do dia-a-dia das condições e conjunturas, ou sensivelmente esmolando nas tabacarias de todos os isolamentos.
Muitas flores são recolhidas prematuramente. Algumas, mesmo ainda sem rebento. Há sêmenes que jamais desabrocharam e há aquelas flores que habitam a existência completa, até que pétala por pétala, pacíficas, experientes, restituem-se ao vendaval. Mas o ser não sabe acertar por quanto tempo residirá ornamentando de arrebiques e contornos esse Paraíso e sequer aquelas que foram cultivadas ao nosso redor.
Sou um homem tão estranho que a felicidade no de-curso, per-curso, trans-curso do tempo acaba por me nausear, angustiar, sentir-me entediado, mergulhado e refestelado no abismo.


A felicidade brocha.


(**RIO DE JANEIRO**, 29 DE MAIO DE 2017)


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