Total de visualizações de página

quinta-feira, 4 de maio de 2017

#CRÍTICO LITERÁRIO ESCRITOR E POETA Paulo Ursine Krettli​ COMENTA O AFORISMO /#SERRANIA DAS NEBLINAS ETERNAS#/


Durante o decurso do Barroco Moderno delineia-se junto a ele o aforismo, assim como as vanguardas europeias no modernismo. Do grego aphorimós, passando pelo latim aphorimus, aforismo significa “sentença moral breve, conceituosa; apotegma, máxima”, “um texto breve que enuncia uma regra, um pensamento, um princípio ou uma advertência”.
Manoel Ferreira Neto, por ser escritor e filósofo, pois era o primeiro antes para vir a ser o segundo depois, busca articular literatura e filosofia denotando o que lhe está em volta (vida, sociedade) ou aquilo que extrai de suas leituras, estudos, para formulação de um pensamento próprio às convicções que a existência o germinou e frutificou no seu estado lato sensu.
Entretanto, ao contrário da concisão que aforismo apregoa na sedimentação de sua expressividade, ouso afirmar que o aforismo do Barroco Moderno é o contraponto, é o contraste da “sentença moral breve, conceituosa; apotegma, máxima”, ou “um texto breve que enuncia uma regra, um pensamento, um princípio ou uma advertência”.
Na leitura de todos os textos publicados sob aforismo em nenhum deles há o consenso a partir do foco que se notabilizou em textos consagrados, seja ditado, máxima, axioma, adágio, provérbios ou mesmo sentença breve e conceituosa.
Embora verdadeira - um dos pontos do aforismo - na sua consecução e com uma linguagem que se mistura (por necessidade de alcançar os públicos alvos) em clássica, coloquial, visual e psicológica com contornos édipos, percebe-se uma crítica, uma ironia, uma verdade (qual verdade?), um colchetear as impactantes situações do cotidiano, da vida, da sociedade, nas quais e nos quais, sem que percebamos, desmoronam as premissas do homem pela coletividade dele e dos seus companheiros ou adversários, embora se busque pela sensibilidade, pelo amor, pela esperança, pelo pleno!
O certo (o que é certo?) é que estamos caminhando a algum lugar sem nos conhecermos a nós mesmos em nossa essência e ausência (o que vem a ser nossa essência e ausência?) e no “só sei que nada sei”, frase supostamente atribuída a Sócrates, filósofo grego, durante um diálogo com os atenienses, que se julgavam o máximo em sapiência.
Percebe-se também que as obras plásticas de Graça Fontis também vão se particularizando ao se contraporem ao que está consagrado.


Paulo Ursine Krettli


**SERRANIA DAS NEBLINAS ETERNAS**
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Não sinto o medo próprio de meu caráter meigo e reto, ao me encontrar em choque com a sociedade e em contato com um acontecimento que transcende das regras ordinárias, nem estou, como ela, pressuroso por me reintegrar na vida quotidiana, às trivialidades das situações e circunstâncias.
Não sinto a melancolia que pro-jectei criar para mostrar irreverência com as mesmidades dos valores culturais, hábitos e costumes, liberdade e consciência estética, enveredando-me pelas co-tangências mundanas.
Minha posição atual, de momentânea felicidade, dá-me um prazer selvagem como se colhesse uma flor de estranha beleza, des-abrochada em lugar desolado, ao sabor do vento. O segredo, enquanto assim possa ser chamado, mantém-me numa espécie de encanto, numa solidão entre os homens, num afastamento tão completo como o de um abismo no meio da serra, o de um túmulo no centro da pracinha principal de uma cidade interiorana qualquer.
O mundo me parece estranho, mau e hostil. O meu passado, solitário e obscuro. O futuro, uma tristeza informe que devia modelar em formas sombrias. Transponho o limiar da porta, trazendo esperança, calor e alegria. O momento amargo transforma-se, logo, num momento ditoso.
O mundo deve todo o seu progresso a homens infelizes. Os felizes confinam-se dentro de moldes antigos, retrógrados, moral e ética perpétuas. Tenho o pressentimento de que, daqui por diante, a minha missão será plantar sementes de outras árvores, fazer cercas, e, talvez mesmo no tempo oportuno, construir uma casa para outra geração, e, numa palavra, conformar-me às leis e aos costumes tranqüilos da sociedade. Meu equilíbrio será mais poderoso do que qualquer tendência oscilatória da minha parte.
Nesta hora tão cheia de medos e dúvidas, opera-se o milagre sem o qual toda vida humana é um vácuo. A benção, que torna tudo verdadeiro, sagrado e belo, desce sobre mim.
Tudo fala, nada se real-iza a contento. Tudo cacareja, mas quem em sã consciência deseja ficar sereno no ninho chocando ovos? Pode alguém repicar com sinos a sua sabedoria: os camelôs lhe cobrirão o som com o tinir das moedas!
A face rígida e estranhamente branca recusa-se a desaparecer nesse dissolvente universal, nesse solvente con-tingencial. A luz torna-se cada vez mais desmaiada. É como se outro punhado de escuridão tivesse sido espalhado pelo ar. Agora, o ambiente não é mais cinzento, porém negro. Ainda há uma luminosidade demasiada na janela, que, entretanto, não deverá ser tomada como uma incandescência, clarão ou vislumbre; aliás, termo algum por que se denomina a luz servirá para o caso, senão essa percepção duvidosa de que há uma janela.
Frente à janela, campos lavrados e prados ondulantes; mais longe, as montanhas escuras e misteriosas, plantadas nas florestas. Além dessas, sombrias, ainda, desenham-se outras e mais para longe, bem no alto do horizonte, sempre bela e sempre mutável, sempre a jogar com a luz como o diamante, ergue-se a serrania das neblinas eternas.
Devo, pois, constantemente traçar caminhos novos, não importa em que direções. Mas é talvez por causa disso, precisamente, que tenho por vezes desejo de escapar pela tangente, fugir pelos senos e co-senos da lerdeza e da perspicácia, precisamente porque estou condenado a traçar um caminho e também porque, por estúpido que seja eu, por boçal que seja eu, adivinho por vezes que toda estrada leva sempre a alguma parte, e que não é a direção que importa, mas o próprio fato de que ela me con-duz para um lugar qualquer.
Receio a luz demasiado clara: por isso me resguardo de meu tempo, e do “dia” desse tempo. Nisto é como uma sombra: mais o sol se põe, maior eu fico. Quanto a minha “humildade”, assim como suporto o escuro, suporto também uma certa dependência, um certo obscurecimento, um certo acomodamento: mais ainda, temo ser incomodado pelo raio, recuo ante a desproteção de uma árvore só e abandonada, na qual toda intempérie descarrega seu mau humor.
Começo de perguntar se esta procura desvairada da pureza, do sublime, da purificação, não vai dar, em verdade, em alguma brancura sinistra e misteriosa, irrespirável. São agora as palavras que parecem violar uma proibição. Nivelando esse passado ao presente num paradigma que me remisse de todos os enganos, erros, de todos os pecados cometidos. Apagando as desilusões, reparando preconceitos e injúrias, re-plantando alegrias e plenas realizações. Descubro a imagem da sagração, sacralização, e da renúncia. Sim, de certo modo, a arte sempre se serve a si; ignoro quando servi verdadeiramente a uma Transcendência, e isto me cobriu de orgulho e alegria. Propriamente recordo e não conto.
Ainda uma certa perspectiva de ironia em que a intenção imediata se corrige, em que o espírito e intuição se erguem desde o próprio sentir ao sentir de mim, uma certa bússola sarcástica em que a inspiração da "humanidade do ser" se eiva dos ventos rebeldes e irreverentes que vem do sul, ao derredor da colina. De novo os homens erguem uma harmonia de sentimentos e emoções, coroada de eternidade; de novo uma vereda sinuosa de águas subterrâneas lhes escapa a segurança.
Todos os segredos das almas deverão vir à luz, ao sol, à lua, às estrelas; e quando estiver deitado ao sol, oh, homens, revolvidos e dilacerados, também a mentira haverá deixado a verdade.


(*RIO DE JANEIRO**, 28 DE ABRIL DE 2017)


Nenhum comentário:

Postar um comentário