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sexta-feira, 5 de maio de 2017

#CANÇÃO ARTÍSTICA DE GRAÇA FONTIS E MANOEL FERREIRA NETO# - MANOEL FERREIRA NETO: AFORISMO/Graça Fontis: PINTURA


"O silêncio que nos retrate somos nós, mas o silêncio in-fin-itivo é que é o silêncio vivo de nós." (Manoel Ferreira Neto)


Se as vozes tudo perguntam - a Esperança do Verbo de Ser é o Amor Pleno à Vida? A Esperança é a Luz de todos os caminhos da Vida? -, as quimeras nada indagam, só oferecem respostas, são músicas que fluem, permitindo que os sons se mostrem livremente, con-sentindo que ritmos e melodias ressoem livres e re-presentem o cântico do Ser atrás da Vida.
Resta-nos apenas encontrar o tom com que abordar os sentimentos, com que artificiar a sensibilidade e subjetividade dos sonhos, desejando a cada passo, seja no deserto ou na floresta íngreme, revelar o íntimo: "Eis o Ser de mim!..." Achado o tom para as abordagens à busca de revelações, esperamos que se abram vários eixos e que eles cubram o mundo por cima, um sudário.
Aumentando o calor, a sombra também se aquece, sentimos o sol na pedra acima de nós, ele, bate, bate, como um martelo sobre todas as pedras, e é a música, a vasta música de meio-dia, vibração de ar e de pedras sobre centenas de quilômetros, ah, como antigamente, ouvimos o silêncio.
Sim, não é o mesmo silêncio que nos acolhera há anos, quando nos encontrávamos sem rumo e destino, desesperançados e angustiados, necessitando ouvir vozes que nos dissessem algo sublime sobre a vida, mesmo que quimeras. Disse-nos o silêncio mais que isto, mostrara-nos o sublime e a possibilidade de atingir a sublimidade desde que estivéssemos dis-postos a abrir-nos, deixando as coisas entrarem, deixando a vida espiritualizar-se de verbos e sujeitos da verdade.
Desde então, o silêncio acompanha-nos, ouvimos-lhe as vozes todas.
O prazer faz com que toque a tristeza da felicidade. É extremo. Conhecemos a voluptuosidade do vôo e do pairar do pássaro neste lugar nenhum, macio e claro, para onde o prazer nos arremessa antes de esmagar-nos no chão. Conhecemos a voluptuosidade de imobilizar o tempo num átimo de segundo e de prender por meio do corpo o corpo mesmo do tempo, antes que se esvaeça, tendo apenas aflorado. Conhecemos o êxtase e o logro do êxtase. Numa palavra, experimentamos agora a falsa eternidade da união e não reconhecemos nisso o nosso presente, não desconhecemos as futurais perspectivas do sol numinando os campos de algodão.
Tantos séculos de silêncios armazenados atrás das cabeças conferem à solidão uma densidade de chumbo, e os minutos entre as palavras e as imagens que vamos dizendo a nós próprios passam como horas, entre as utopias que vamos tecendo perpassam-nos tão insustentáveis, leves, suaves, serenas. Até o momento em que os lábios, ou melhor, os maxilares se descerram, e são agora as palavras que parecem violar uma proibição, como uma rachadura fendendo um muro sagrado.
Vivemos horas cheias de uma imperfeição vazia e tão perfeitas, por isso mesmo, tão diagonais à certeza retângula da vida. São horas caídas nesse mundo de outro mundo mais cheio de orgulho de ter mais desmanteladas angústias.
Se pudéssemos ser sarcásticos a ponto de nos imaginar rindo, riríamos, sem dúvida, de nos imaginarmos vivos, felizes, rindo em plena madrugada, até a barriga doer. Vivemos horas impossíveis, cheias de sermos nós... e isto porque sabemos, com toda a carne de nossa carne, que não somos uma realidade.
Que horas, ó companheiro de nossa "solidão", que horas de desassossego feliz, horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa. Nada vale a pena, ó nosso amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena, que as vozes simuladas em quimeras merecem o olhar aberto, os ouvidos atentos às coisas que existem.


(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE MAIO DE 2017)


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