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segunda-feira, 22 de maio de 2017

#CUMPLICIDADE DO TEMPO E DO SER NO UNIVERSO POÉTICO FILOSÓFICO DE ANA JÚLIA MACHADO" - CRÍTICA LITERÁRIA: Manoel Ferreira Neto/PINTURA: GRAÇA FONTIS


O mais percuciente para tecer idéias acerca do poema da escritora, crítica literária e poetisa Ana Júlia Machado, buscando atingir a eidética desta obra, CÚMPLICE, será iniciar com versos nele presentes: "Deslembro-me, que havia sido nesta existência,/Nesse incitar de era arrefecida, que não ama/O erudito incorpóreo da nossa capela".
Aquando tecemos as nossas idéias sobre o salto da poesia propriamente dita à poesia-filosófica, no poema VALADO ACROMO, referimo-nos à prosa ritmica, ficando em suspenso a origem deste salto. Tal origem, com transparência e evidência, se anuncia com esplendor e excelência neste CÚMPLICE.
A complexidade do tratamento do tempo e do espaço no poema machadiano, de Ana Júlia Machado, vai além de efeitos poéticos. Ao realizar a análise desta complexidade, deve-se dar atenção no elemento verbal, o tempo além do verbo. A idéia do tempo não é exclusivamente dos verbos, os verbos enunciam e anunciam o tempo. Em se tratando de uma linguagem artisticamente moldada, "concebida por chamejante harmonia", entre o preâmbulo de uma "fala camuflada de dilúculos e de Ocaso" e a verbalização da luminosidade da linguagem da alma, do espírito, buscando efeitos de simultaneidade entre a Poesia e a Filosofia, que são os universos da poetisa, o espaço é parte essencial e dado a partir do qual se deve a cumplicidade do tempo e do verbo, do tempo além do verbo; o verbo habita o eidos da intenção de atingir o Ser, a cumplicidade do Tempo e do Ser, Ser e Tempo, e é dado pela Arte e pela Filosofia, buscando alcançar o erudito incorpóreo da casa-do-ser, "da nossa capela".
A poetisa sabe e re-conhece que esta jornada de cumplicidade só se efetiva a partir da "erudição", erudição da linguagem e do estilo. Assim, Poesia e Filosofia se comungam na obra da escritora, torna-se ela poetisa filosófica, filósofa poetisa.
Todo o poema se estrutura em oposições metafísicas e contingências, pois que são de relevo sine qua non para estabelecer o verbo-do-tempo, o verbo-do-ser, num conflito temporal provido de uma angústia espacial, **E supera da dor de um horto/Que outorgasse a caridade de teus destinos.../Altíssimo do isolamento, que assim me excluis/Cúmplice do resplendor de fenecimento, facto sem extinção/Que esbraveja Fulgor das brisas que tu propagas...", e os demonstrativos, conforme denotem proximidade ou distanciamento, confirmam o processo de expansão e retração do poema, que, em última análise, é uma imagem da expansão e contração do ser diante do tempo.


Manoel Ferreira Neto
(**RIO DE JANEIRO**, 22 DE MAIO DE 2017)


Cúmplice


No meio desonras de prostrado altruísmo


De uma inofensiva vernaculidade, que enfraquecia


Enunciar-se-ia, que era cúmplice dessa deploração..


Que boatos de dilúculo e de Ocaso,


Irradiava o seu imo emocionado


Como um escol às lágrimas do desprazer...


Deslembro-me, que havia sido nesta existência,


Nesse incitar de era arrefecida, que não ama


O erudito incorpóreo da nossa capela!


Que se alteia com escóis e que se incrédula


À Luminosidade das tochas para o espírito e termo


Da mercê muito beata que deriva


Do lis incorpóreo que a fragrância espórtula


E supera da dor de um horto


Que outorgasse a caridade de teus destinos...


Altíssimo do isolamento, que assim me excluis


Cúmplice do resplendor de fenecimento, facto sem extinção


Que esbraveja Fulgor das brisas que tu propagas...


Que se dispersa pelos riscos, de rumores


Entrevisto o pender da Luminosidade de enfermo


Ao aproximar às gorjas satânicas


Fui concebida por chamejante harmonia


Por um abdómen de Deia suprema


Titã em conceber que exiba por dom sobrenatural...


Que havia uma nódoa de meiguice humana


De um salífero paladar de diosa imensidão,


Que ventania endereça pelo paraíso e de algo provém...


Preâmbulo de uma fala camuflada


Ana Júlia Machado


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