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sábado, 13 de maio de 2017

#ÁDITO DA ENTRADA# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Meu modo de agora, de instantânea dita, presenteia-me um deleite indomesticável como se apanhasse um escol de esquiva formosura, brotada em loco inconsolável, ao gosto da ventosidade. Meu estilo atual, de metafísicos dizeres, doa-me um refestelamento indescritível como se colhesse uma erudição de adjacentes esplendores, ao saber de chuviscos. Minha linguagem atual, de suspeitas falas, lega-me verbos suspensos no tempo, e com eles vou tecendo sentimentos e ideias do que precede a essência, a existência. O sigilo, enquanto assim possa ser designado, conceituado, retem-me num gênero de extasio, num isolamento entre os homens, num divórcio tão perfaço como o de um algar no meio da serrania.
O mundo me avalia esquivo, pérfido e adverso, errado, re-verso, in-verso, alheio, avesso. O meu transcorrido, isolado e sombrio. O vindouro, uma melancolia tosca que incumbia delinear em formatos toldados. Ultrapasso o ádito da entrada, importando fé, canícula e júbilo, exportando náuseas, vazios e nada. O instante travo converte-se, imediatamente, num instante bem-aventurado, num momento de júbilo.
A luz engolfa-se, condensa-se na borda fronteira do relógio - o mostrador escoa-se. No escuro, disco suspenso no nada. Caos. Som imerso no primitivo. Alucinante. Ritmos que não podem ser pensados, verbalizados.
Ando a vagar. Ventos percebidos no espírito. Palpitação de asas sobrevive no mistério, enigma. Dilatado. Esquecido de mim. Olvidado de lembranças, visões. Logo, não além da eternidade, sim aquém da contingência.
O universo imputa todo o seu progresso a sujeitos des-venturados. Os ditosos limitaram-se dentro de modelos clássicos, regressivos. Postam as mãos à terra, os pés ao céu, agradecendo a sublime inteligência e sensibilidade com que foram dotados. Possuo a intuição de que, daqui por defronte, a minha legação será cultivar sémenes de diferentes mastros, confeccionar vedações, e, quiçá mesmo no tempo propício, edificar um lar para distinta gênese, e, numa locução, conciliar-me aos preceitos e às praxes pacatas da agremiação. Meu comedimento será mais pujante do que qualquer propensão titubeante da minha parte.
Nesta hora tão repleta de receios e perplexidades, verifica-se o portento sem o qual toda existência humana é um vazio. A graça, que converte tudo real, divino e estético, descai sobre mim.


(**RIO DE JANEIRO**, 13 DE MAIO DE 2017)🦋


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