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quinta-feira, 25 de maio de 2017

#ESMAGANDO PALAVRAS# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: Aforismo


Corta-lhe o riso por inteiro. O coração acalentado por uma alegria boa. Uma promessa de felicidade, criatividade em chamas.
Agora o palco vazio para caber a forma baia e ondulante que progride, esmagando palavras. Só além das linhas se poderá ter alguma ideia, isto se considerar uma entrega sem limites à busca de entendimento e compreensão, conhecimento e saber, o que é absurdo de todo por ninguém estar disposto a in-vestigar a linguagem e o estilo, avaliar a consciência e o conhecimento de alguém, dizer o que dentro habita a sua alma, o que necessita tanto de saber para dar início a alguma sabedoria, esta que mostra, apesar das nuances do tempo e das situações a que ele está sujeito a todo momento, se assim pode dizer, isto sem atrapalhar a ideia de que não lhe é dado saber o que realmente está com vontade de dizer, tornar público, e que, daí por diante, ninguém mais se veja olhando, observando as suas atitudes, ações, o que nelas discorda das palavras ditas, escritas, pensadas e imaginadas, seguindo as invenções e criatividades que o dom lhe dera a possibilidade de buscar realização ou um fracasso em limites e fronteiras: brinca com as palavras, é precisamente isto que mais realiza quando se entrega a esculpir de modo inteiramente inusitado, não havendo qualquer respecto às leis da escrita, aos limites da criação, e daí nada mais pode dizer que justifique, que lhe indique, embora só ele mesmo sabendo, nada dizendo, nada registrando, buscando palavras que desmanchem o que de algum modo pode ser intuído e percebido, cabendo à inteligência estabelecer a sabedoria existente nestas palavras entre os afagos de querubins.
Havia esculpido a imagem de Nietzsche, uma espécie de homenagem ao filósofo. Numa exposição de suas esculturas no Palácio das Artes, Belo Horizonte, Minas Gerais, alguém lhe perguntara: "O que Nietzsche está pensando?" Respondeu: "Pergunte a ele. Não se ressinta por ele não ter voz e palavras para satisfazer a sua curiosidade." Lembrou-se de sua saudosa amiga pintora Martha Moura dizer-lhe o que mais odiava era alguém perguntar o que ela queria dizer com a pintura exposta, sempre respondendo ela nada diz, quem diz é a pessoa; e também de um escritor: alguém lhe perguntara o porquê de escrever na ortografia antiga, respondendo ele à pessoa: "Porque sou mais velho que a cidade de Braga." Engraçado isto: os artistas sempre tem respostas hilárias para as perguntas e considerações, despautérios do público.
Um lugar de agradáveis discussões, a discussão do talento e do dom num mundo em que se dá primazia ao simples, ao supérfluo, ao que responde pelos interesses da ideologia e do modismo.


(**RIO DE JANEIRO**, 26 DE MAIO DE 2017)


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