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segunda-feira, 29 de maio de 2017

#E O SILÊNCIO BEBIA INTER-DITOS E MISTÉRIOS DO VENTO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO

E a floresta bebia o rio.
E eu-rio por água abaixo.
Águas abaixo riem deste espetáculo fantasioso de eu-rir.
O rio Paraúna escorrendo sabedoria.

E o silêncio bebia inter-ditos e mistérios do vento.

Rir é estar aí, é viver e viver é ec-sistir no eu, ec-sistir no eu é pro-jectar os sonhos e utopias do ser, compor na alma o prelúdio da ópera do silêncio a embriagar-se de êxtase e volúpias, preâmbulo do verbo a embeber-se de erosias e heresias que febundam as ad-jacências dos instintos que atravessam o mundo todo sem jamais receber abrigo de quem quer que seja, quem sabe por algum castigo dos deuses por negligenciarem a razão, por animalizarem a raça humana.
Raízes de ritmos e melodias da música do tempo.
Águas de março fechando o verão.
Águas de maio abrindo o inverno.
Águas de agosto pre-nunciando a primavera.

E o silêncio bebia inter-ditos e mistérios do vento.
Quando no alvorecer os raios de luz mergulham nas frinchas das folhas das galhas, numinando a floresta, a floresta por todo o sempre bebendo o rio, a solidão e o silêncio bebendo do in-finito as in-fin-itudes da sabedoria do ser e do verbo...
Quem sabe houvesse possibilidade de algo, em princípio ininteligível, tomado de inspiração e intuição, e deste modo, neste estilo sem sujeito, abordar alguma utopia que foge à capacidade da razão e do intelecto interpretarem?!... Fosse necessária leitura atenta e minuciosa, deixando o espírito livre. Não saberia a isto responder. Só seria possível estabelecer, se contemplasse a linguagem sem pressa.
Indicação com os ideais do tempo e esses ideais, existem sempre, mesmo sob as mais sórdidas aparências de decomposição. Curiosidade, desejo de mergulhar na alma humana, sabê-la. Vontade de conhecer o homem por inteiro. Apetite sempre re-novado em face das coisas do mundo. Nunca é demais ter medo da própria sombra. O ser se faz continuamente. Essências que re-velam a perquirição metafísica interessada em desvendar os mistérios de um possível real, enigmas do inter-dito, in-audito da consciência, aparências da sabedoria.

E o silêncio bebia inter-ditos e mistérios do vento.

Respingos da chuva deslizando na vidraça da janela, silêncio da solidão, e a solidão bebia éritos volos da boêmia nostálgica, melancolias boêmias, as velhas canções dizem muito, emoções e sentimentos longínquos aquecem o desejo do há-de vir, há-de ser, a vontade da claridade do ser a que se aspira tanto, aquecem e ascendem as imagens do panorama do in-finito, o silêncio bebia inter-ditos e mistérios do vento, pois que o silêncio se aquece com o vento a perpassar suas linguísticas e semiologias, suas semânticas do proscênio da eternidade de onde o panorama é o da beleza que já nasce póstuma, póstera, concebida com a presença do som das águas do mar batendo nas docas, as ondas espraiando-se, gerada com a claridade dos sonhos, a solidão bebia éritos volos da boêmia nostálgica e o silêncio se aquecia com o vento a perpassar-lhe as linguísticas e metafísicas do picadeiro do além de onde a paisagem do belo é o re-nascer a todo instante de suas vaidades, e o rio bebia a floresta e a floresta bebia o rio...

E o silêncio bebia inter-ditos e mistérios do vento.

As estrelas que cintilavam no espaço ainda cintilam, o espetáculo que seduzia as vaidades ainda seduz e a história que não acaba mais ainda continua inacabada ressoando nos interstícios da alma, ecoando nos recônditos das dúvidas, incertezas, sombras, o sonho da claridade dos verbos de ser. E são portas, chave, se o lugar adorna o ser que nele se encontra, este por sua vez atribui ao lugar em que se encontra alguma coisa de sua própria sensibilidade, individualidade.
Trazendo o mundo para dentro de casa, tantos sonhos, tantos ideais, tantas intempéries, tantas desgraças, ouvir-lhe a voz palavreando sentimentos, dores, e a lembrança dos diá-logos, monólogos, questionamentos passa a ser lembrança do mundo, de um mundo específico num certo tempo e espaço, nuns sibilos de ventos ad-vindos do abismo.
O que está oculto é mistério, enigma.
Haverá quaisquer dúvidas de, nesta imagem, vozes estarem sedentas de ouvidos, de inteligências a traduzirem intuições e esperanças?

(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE MAIO DE 2017)


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