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segunda-feira, 11 de abril de 2016

**AJUSTES DE MINÉRIOS E CRISTAIS DE UTOPIAS - REVISADO E AMPLIADO** - Manoel Ferreira


Então um silêncio, longo, enorme, estende-se pela sala de estar. Ouço-o nítido, metálico, vem do lado de lá das arribas, vem do lado de cá do subsolo. Aos confins da eternidade, ao vazio do horizonte... Detesto as recordações, não tenho passado, não o desejo. Rompi com os ajustes de minérios e cristais de utopias. Tenho, diante de mim, o original de que não sou senão a criação; a essência encarnada de tudo o que me falta, de tudo que me excede, de tudo que me falha: esta faculdade de sentir prazer com a consciência, de impor-me à sorte e de não ceder a mui poucas metamorfoses. As letras tornar-se-ão o verbo encarnado. O ardente aspirar pelo reino do espírito em eterno conflito com os mistérios das águas em mim, com a inocência da natureza, igualmente sagrada e fascinante.
A lenta decomposição da felicidade que me an-estesia para me fazer enganar que o tempo passa em vão e que ando em passos lentos, cabisbaixo, intros-pectivando a circuns-pecção, circuns-pectivando a intros-pecção, um mergulho em mim com uma lentidão precisa e segura, um nada irreal, de escafandro. Não é verdade que não exista amor feliz. O que acontece é que a felicidade dá tempo ao tempo e a agonia busca solidão de arriba.
Por limites, as águas apartam da morte olhos perspicazes, não perturbados pela angústia. Muitas vezes. Muita vez quando a luz se apaga sobre a minha insônia, pergunto-me - fazia-o mais assiduamente - com os ossos entre(dedos): de onde vem esta indiferença? De onde me vem este mal-estar que não me permite estar em lugar algum? Deixa-me quieto a perguntar. Quieto e confortável em presença de alguém? Costumava acordar no meio do sono, respondendo a perguntas não me lembrava haver feito - sabe que, ás vezes, digo algo e não sei o que digo, minutos após, - ao menos articulado.
Talvez seja infame, mas é o único modo de orientar na forma como experimento a realidade. Afigura-se-me serem a subjetividade, a sensibilidade humana. Todos os caminhos levam a elas. Busco o ritmo de árias antigas. Ainda em sustenido pânico, vejo: aquilo pelo qual me sinto desde sempre fascinado não é a morte propriamente, é a beleza, a beleza que busco permitir-me sentir. Ao invés de evitá-la e fugir, re-visto-me de calma, vejo o que até então só me permiti furtivamente: eu, na minha perigosa integridade, afogueado e lúcido. Estou alegre e agradecido de sentir ainda em meu coração, de voltar a olhar a própria vida com olhos in-flexíveis e res-plandescentes, em que volto a re-conhecer na casualidade um destino e nas ruínas de minha vida fragmentos espirituais, à luz do passado que no seu crepúsculo ainda irradia um doce resplendor, o homem cheio de fé e de alegria, sempre ao encalço do grande e do eterno, nunca me contentando com o rosto muito bem delineado e modelado, no qual não faltam nem o célebre fogo do olhar nem os passos de solitário com uma rápida sombra de amabilidade e cortesia, detalhes que devem exigir a sagrada chama de minha juventude há tanto tempo extinta. Só me recorda o seu jeito demasiado imperfeito - aprendo nos minutos a dialética do interior, envolvida na relíquia do sentido e do silêncio.
A fim de que me não entristeça, interrompo-me. Intenciono ser, isentar-me, ir ficar no espírito, ser ele, entregando-me inteiro. Nenhuma satisfação me parece pertencer. Sou tão feliz, e de tal modo mergulhado no sereno sentimento da minha própria existência, que me esqueceu a minha arte. Sendo o único a gozá-la, faço-o tão somente por orgulho e picardia. O desejo de amor in-terpenetra á lembrança do labirinto cujo estranho e patético rumor chega através do êxtase. Talvez com a linha do sol crocheteie imagens de um re-nascer de espectro, de um fenecer de miríades de luzes. As palavras, os modos, as atitudes, a voz dócil e meiga, o corpo são uma saudade plena e absoluta da vertigem do despertar.
As letras suspensas no tempo vão imprimindo no espaço imaginário do papel a lingüística do momento, a estilística da intuição e percepção de um desejo de expressão, linguagem da esperança e do silêncio. Nos ermos da fantasia somente ilusões e sonhos componho. Emitem, no roçagar da pena, o ruído com grande energia e esfrego as mãos como se estivesse meditando, e quando me pergunto se expresso a verdade que me a-colhe no re-colher da idéia, respondo: "Ora, fique quieto e se deixa levar".
O porto, onde minhalma, enfim, repousa, con-templa o mar. Toda forma não assume senão por ínfimos momentos o mesmo ser. A lucidez das imagens traz-me este silêncio cheio de palavras. Por insistência, um quadro surge diante dos olhos, de início de maneira hesitante e aos pedaços, lembranças possuem a qualidade de vivacidade plástica, que é um tipo "visual".
Memória do futuro e destino do passado possam parecer contraditórias e arbitrárias, e na verdade o são e os seus conceitos e significados se chocam e se contradizem (comumente a memória diz respeito ao passado e às coisas ausentes, mas vivas, ou melhor - mortas, porque acontecidas, a matéria do destino é sempre o futuro e as coisas latentes, lívidas, ainda por acontecerem), só recorrendo a uma arbitrária e contraditória aproximação, a um símile ou metáfora.
Termina um corpo. É preciso entrar nele para extrair um diamante. Tocar os seios. Para isto, penetrar na luz. Deixar passar sobre a cama a sombra estarracada. Qual seria a reação da carne? A resistência dos ossos? Olhos. Sono dribla retinas. Não posso aperceber-me de que é o seio esquerdo. A idéia do suplício certo. Se o que dorme despertasse. Sangue do braço direito que corre em fio. Sensação de enjôo. Arestas respiram dimensões. O TEMPO mole no quarto A distância esmoe cigarros amassados no cinzeiro.
Só - as horas. Longas em cúpula. Expandem-se além da cidade, cidade sem princípios, sem aléns, atarracada no subterrâneo do vazio. Embriaguês frisa de loucura o vôo que me podia lançar da janela.
Com-templar a fonte originária de águas límpidas é viver a plen-itude da vida na sabedoria da experiência, é dizer sem explicar, é ultrapassar o absoluto provisório desta vida.
O ruído do vento que agita as galhas e folhas, os fios da rede de eletricidade, a emoção não tem fim... O desejo de amor só vive de entrega, onde têm raízes a iluminação e a consagração, cujos frutos são os sonhos que alimentamos e AFAGAMOS, e quem ao outrem que en-vela e re-vela, não poderá Senhor, alguma vez, desalgemar de mim as mãos rápidas de gestos, deixando-me-ser aos olhos e ouvidos atentos e á minha nítida simplicidade de alma? Sei que quando acontece de dizer a alguém de meu amor, do que estou a sentir, con-templando a vontade do frescor que emana do solo a cada passo que dou no campo, em relação com a natureza, uma nuvem passa os dedos por cima da luz e corre um sibilo de vento vago de longe na tarde, de entre as serras, às vezes calma, ás vezes tranqüila. O que vejo das coisas são as coisas. Os pingos de chuva que molham as flores e o solo não são senão os pingos de chuva. A brasa que queima o fumo do cigarro não é senão a brasa. Sendo por isso que lhes chamo de pingos de chuva e brasa. É difícil dizer a alguém do amor que sinto: levanto uma taça às águas da fonte, e bebo o vinho sem ouvir nada com os lábios.



Manoel Ferreira Neto.
(11 de abril de 2016)


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