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segunda-feira, 11 de abril de 2016

**ALÉM!... MURMÚRIOS DE OUTRORA - REVISADO E AMPLIADO** - Manoel Ferreira


O que é a felicidade senão a simples harmonia entre um ser e a própria existência? E que harmonia autêntica e verdadeira pode unir o homem à vida do que a dupla consciência de desejo e sonho de duração e destino de morte? Graças a isso, ao menos, torna-se possível apreender e aprender a não contar, servir-se de coisa alguma, e a considerar o presente a única verdade que é oferecida, possibilidade que é ofertada gratuitamente, chance que é legada à mercê das situações e circunstâncias.
Entendo que me digam: São João Del Rei, Ouro Preto, Mariana, terras antigas, onde tudo existe à medida do homem e suas necessidades espirituais. Mas, se isto é certo, onde encontrar a felicidade e onde está o caminho? Deixem-me abrir os olhos para buscar a própria medida e alegria! Talvez não seja preciso abrir os olhos no sentido desta busca: entendo e compreendo bem. A medida do homem: O silêncio e as pedras mortas, inertes, a solidão e as poeiras metafísicas, o vento sopra para alhures, outras se fazem presentes sobre o solo árido e íngreme. Tudo mais pertence à História.
Creio fosse sobremodo interessante continuar, acrescentando algo mais acerca da felicidade. Não fora dito, posso afiançar com vigor e orgulho, que a felicidade deve ser inseparável da esperança e da compaixão, custe o que custar. Está ligada ao amor – o que não se trata, em princípio, da mesma coisa. O amor eleva e trans-eleva a alma aos auspícios do além, onde se alimenta da seiva do eterno, a felicidade só preenche os espaços vazios da contingência.
Conheço certos instantes e lugares em que a felicidade pode parecer tão dolorosa e difícil que é preferível a anunciação e promessa. Digo isto, alias, pensando e meditando, a fim de não cometer gafe, o que seria desagradável, porque, nestes instantes e lugares, não tinha coragem para amar, isto é, para não renunciar. O que é necessário mencionar é o ingresso do homem nas festas do amor e da beleza, um fora-da-lei retorna ao amor. Deixo cair os véus, abro as mãos, diante de Deus, da insignificante moeda de minha personalidade, caráter.
De todas estas evocações do passado que tenho vivido na grande efusão dos primeiros anos nasce-me imenso bem-estar, redobramentos de amizades que reuni em desejos enormes de intimidade. Agora, tenho inúmeras responsabilidades, sou homem feito a principiar a vida séria; impõem-se-me obrigações de construir pousadas, onde hospedar utopias, onde abrigar ideais.
Além das janelas fechadas, há um coro de pardais em todas as árvores que circundam a residência, e não pára um minuto sequer, e tudo vai adquirindo esplendor e glória no infinito de dedos que deslizam nas teclas, procurando registrar o que acontece e desaparece num passo de mágica e de horror, num piscar de olhos, num arfar do peito. No céu azul profundo nuvens espessas põem nódoas. Com o final da tarde, cai luz prateada em que tudo se torna silêncio. O cume das colinas a princípio está coberto de nuvens. Levanta-se, depois, brisa cujo sopro sinto no rosto. Com essa brisa, por detrás as colinas, as nuvens se separam como uma cortina que se abre.
Tristeza, melancolia esvaeceram-se. A cortina cerrou-se. E a colina tornou-se a baixar com seus ciprestes e casas. Depois novamente – sobre outras colinas cada vez mais e mais apagadas na distância -, a mesma brisa que descerrava aqui as dobras espessas das nuvens, tornava a cerrá-las além.
Neste imenso e amplo movimento respiratório da terra, a mesma exalação se conclui, a poucos segundos de distância, para outra vez retomar de longe em longe o tema, de pedra e de ar, serra e colinas, de fuga à escala do mundo.
São olhos em nenhures. Não quero cantar eternas melodias suaves e singelas. É reconfortante ouvir vozes, notas de beleza e simplicidade. O silêncio, apesar das ondas e dos pássaros, é próprio desse campo tão próximo às serras. A alma devia ser forte como os braços e grande como as mãos.
Admiro sim, e muito, o laço que une o homem ao mundo, o duplo reflexo em que o coração é capaz de intervir e dizer sua felicidade, até o limite em que o mundo pode então aperfeiçoá-la ou destruí-la. Pasárgada! O único lugar onde compreendo e entendo, enfim, que, no íntimo do silêncio, à busca da senda perdida, há consentimento latente. Em seu céu, mesclado de amor e liberdade, aprendo a submeter-me à terra e a deixar-me abrasar na chama sombria de seus festejos.
Gostaria de lançar um olhar ao silêncio, este silêncio irreverente que se faz neste instante, cuja porta vejo eternamente aberta, de fio-a-pavio, e ainda mais ao silêncio atrás deste.
Ui! Que decoração rica, que espelhos e porcelanas!...
No âmago do dia, quando o céu abre fontes de luz no espaço imenso e sonoro, todas os sentimentos puros e inocentes mergulham na idéia do limite, e das águas silenciosas eleva-se angustiada plenitude.
“Temo os longos silêncios que deixam a vida em branco, as pequenas frases que parecem nada conter e, no entanto, selam pactos e rupturas, lacram as correspondências do destino, uma palavra supérflua, mão que escorrega. Bem que poderia ter direito, parece-me, a um pouco de destino – por mais que o queira, evita-me, a luz que chegou a me ofuscar, acaba por se apagar ao lado. Por mais que revolva a noite, escrutando a longa vida branca que nunca foi pródiga, por mais que o faça, por mais que o deseje, sou quem vê emergindo de um fundo de luz lisa, sem conseguir furar a sombra, mergulhar no crepúsculo, a pequenos prismas e perspectivas, o véu noturno que recobre o contrário humano”.
O Criador quis perpetuar a vida pela impureza? Quando homem e mulher estão no leito, o amor pode unir seus espíritos e elevá-los bem acima de suas carnes. O amor é também uma das fontes do espírito. Não devo pensar nele em termos de conquista, mas de rendição. Se não consigo me render a um ser humano, como posso me render ao Senhor? Porque o Senhor exige infinitamente mais do que um ser humano.
Amo intensamente esta vida e desejo falar sobre ela com liberdade, e só assim posso sentir perpassar-me por inteiro a felicidade. Dêem-me o orgulho de minha condição de homem, esta condição suprema e divina que me é capaz de tornar feliz. Ouço sempre alguém dizer que não há qualquer motivo para orgulho, sentir-me orgulhoso. Creio que há inúmeros: o sol, vento, chuva, frio. É para conquistar tudo isso que preciso aplicar força e recursos. Todo ser belo tem o orgulho natural de sua beleza, e o mundo, hoje, deixa seu orgulho destilar por todos os poros. Diante dele, porque haveria de negar de pés juntos a alegria e felicidade de viver, se conheço a maneira de não encerrar tudo nessa mesma alegria de viver: Não há nenhuma vergonha em ser feliz.



Manoel Ferreira Neto.
(11 de abril de 2016)


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