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quarta-feira, 13 de abril de 2016

**ENTRE RE-VERSOS PILARES E HORIZONTES** - Manoel Ferreira


É mais fácil ser feliz do que escrever;
Não troco a felicidade pela escrita,
É escrevendo que artificio
a felicidade que desejo. (Manoel Ferreira Neto)



Vacilo entre querer e não querer, entre ficar e arrumar as trouxas para escafeder-me sem deixar vestígios, sem deixar os passos nas pedras das ruas, o adeus insofismável na algibeira, “hasta la muerte” no alforje, no dia do apocalipse estaria presente para soltar os fogos de artifício, comemorando a alegria de assistir ao sepultamento de todos, o espaço vazio no mapa, jamais em todas as dimensões da alma, quem dera pudesse, não veria re-fletido no espelho a tristeza e a desolação na minha imagem, a boca fechada, em silêncio irrestrito e irreversível, há as suas vantagens, observo com mais percuciência as mazelas e hipocrisias individuais e da história, entre o que se foi e o que haverá de ser – na verdade, na verdade, não sei se foi mesmo, parece confundido com o que está sendo, o que haveria de ser é o que se foi, o que está sendo é uma ilusão do sonho que se anunciou instantes atrás, tudo parece entrelaçado com certas inconsciências, concebidas e nascidas dos instintos voltados para as justificativas e explicações fundadas e fundamentadas nos interesses espúrios, súcias ideologias, pergunto-me como o que há-de ser será possível, se o presente está amasiado ao passado, não tendo qualquer resposta, inda que inviável; pergunto-me ainda se haveria possibilidade de silenciar onze anos de minha vida, três me foram bem fáceis, mas era garoto de oito anos, apesar de quando em vez alguma perspectiva se me a-nuncia, cuido logo de devolvê-la ao catre; jamais poderão figurar em qualquer espaço, levo-lhes comigo para os sete palmos de terra, não havendo quem possa tecê-los de modo a representá-los, quem conhece esses três anos de minha vida não irá dar com a língua nos dentes, respeita-me o último pedido de não fazê-lo, tudo o que disserem serão criações, invenções, frutos da imaginação fértil; é na carne mesmo que trago esses anos -, o que penso e os sentimentos que me vão no íntimo, entre a verdade e a in-verdade – insegurança e medo, suponho, - que me diz: “O indivíduo, sob qualquer perspectiva e ângulo que se considerar e analisar, está sujeito a todas as mudanças, é uma lei a mais, uma necessidade a mais para tudo o que está por vir”. Pensando e sentindo isto profundamente, é que segui a minha jornada no mundo, realizo o que desejo, sinto-me feliz e alegre, saltitante. Se não me engano no momento, fora Fagundes Varela quem escrevera num poema: “Vim, vi e venci”, a aliteração mais famosa de nossas letras brasileiras.
Dizer-me: “Muda a minha vida” seria desejar a transformação de tudo, até mesmo uma transformação de banda, de esguelha, em última instância, para trás... Não nego facilmente, honra-me afirmar, apesar de sujeito a todos os enganos e erros, sujeito a todas as rejeições, perseguições e discriminações. Meus olhos se abrem sempre mais para os horizontes que necessitam e que sabem servir-se de tudo o que a santa sem-razão, a razão doentia rejeita, a alegria e o contentamento nesse caso são mais presentes e fortes, a felicidade mais verdadeira e real, o coração conhece bem percuciente o que é isto – o sangue que por ele passa e repassa a todo momento, sente-lhe o calor efervescente, vivo e pujante, o sangue quente, que sobe por nada até, é da minha origem e estirpe, não há como negar ou subestimar, aliás sinto-me orgulhoso dele, não levo desaforo para casa, se tiver de levar algum, com efeito, passo a viver nas ruas da cidade, carne e ossos lhe agradecem sensivelmente a vida e os fervores, que abrem os horizontes para todos os futuros do espírito e do ser.
Paro um instante, deixo-me balançando na cadeira à mercê da música que ouço, a perna direita se movimentando ao seu ritmo, o salto do sapato batendo no chão, The House of the Rising Sun, desde que a conheci, há longos anos, apaixonei-me, quando ainda não a entendia, amor após entendê-la, olhando, através da janela, a chuva que cai, os pingos que deslizam no vidro lentamente, o tempo nublado – mas tem chovido, hein, sô!, uma mineirice para brilhar sempre, quanto mais por surgir de supetão, sentidos inusitados e excêntricos, inéditos, afloram, transcendem o meramente contingencial -, esperando que no íntimo se re-vele um vento de renovação, se não possível, pelo menos olhar diferente as coisas e o próprio mundo, visão-{de}-mundo outra, a que me habita, em termos bem vulgares, está enchendo o raio do saco, está caindo aos pedaços de tão velha, não tenho vocação para velharias, épater le bourjois, para usar uma expressão francesa, inédita em quaisquer outras páginas, com significado e sentido que trans-cendem a razão, intelectualidade, até mesmo todas as dimensões do espírito, quisera conhecê-los com percuciência, isso não é de minha alçada, deixo a quem quiser fazê-lo, se lhe aprouver dizer-me, fico-lhe sobremodo agradecido. Não é verdade, contudo, que sou em absoluto inconsciente do sentido que atribuo a essa expressão, é histórica, nasceu em um período dificílimo da história francesa.
Há dias os sinos tocavam e repicavam os ares de um firmamento azul do dia como se fizesse pazes com o mundo, saíam pombos da pequena igreja, esvoaçando baixos, preenchendo os espaços da pracinha, pessoas paradas, observando, no peito ad-miração e felicidade por cena tão mágica e maravilhosa. São momentos de lembranças, são instantes em que a sensibilidade se apresenta sedenta e ávida de vôos profundos, aproveito o ensejo para tecer em palavras o que presenciei naquele dia em que o povo do lugarejo invadiu o templo como se fossem canibais de um mito; os pássaros cantavam suas músicas que no tempo e este integrava na perfeição de um espaço distante, a brisa da manhã era como o espelho dos reflexos humanos. Sonhei e naquele sonho supus as mais lindas histórias de um conto de fadas e como numa fábula resplandecia a paz que mais uma vez julgava intermediária dos próprios homens.
As criaturas... pequenas grandes criaturas que formam mito salva uma frase inerte e insensível aos ouvidos, memorizam uma expressão latina que suscita incólume verdade... à loucura... São elas o fulgor de uma estrela de um ponto que esconde e trans-parece lá bem distante, são o brilho atrás da lua que reflete para trás a sua luz branca e resplandecente, incidindo nos campos silvestres, nos chapadões solitários e íngremes, nas corcovas de serras e montanhas, onde as estrelas sinuam por outros trajetos e itinerários, não é negócio velarem os seus osssuários. As criaturas da noite são apaixonadas. Fazem anarquia. Uma farra que descobre sentimentos, que envela dores e sofrimentos, que omitem mágoas e ressentimentos. Que amam a madrugada, o latido dos cães. Que cantam com fervor cânticos os mais di-versos na esperança de a aurora nascer performando novos passos de dança, à luz do corpo, constituído de carne e ossos. Que somem sem deixar quaisquer vestígios.
Ali, à face da montanha, vejo sumir-se, nos pingos dágua, expressando de outro modo asco e náusea que me habitarão, enquanto for vivo, mesmo debaixo de sete palmos, mesmo por toda a eternidade até a consumação dos tempos, e serão sentidos por qualquer indivíduo, embora a sua sensibilidade seja apenas para sobreviver no mundo, a mentalidade bem menor que o salário do egregíssimo Prof. Raimundo, o milagre da obra humana, a magia das esperanças de algo ser construído à luz da verdade e do amor. Na minha voz tranqüila, impérios ruíram, orgulhos e vaidades escusas desmoronaram, ostentações de moral e ética indevassáveis quedaram sem direito a único suspiro, até as letras, em princípio, uni-versais e eternas conheceram o nada e o vazio do nascimento da razão, uma luta de morte pré-cede todas as mudanças, no sil-êncio da ordem uni-versal rigor da razão cobre o tempo novo, a fé nova que nasceu, as velhas que se transformam, mudam de fisionomia, mudam as faces.
Todo dia, faça chuva ou faça sol, há o jogo de luz e sombra, jejum repleto de gula, o réptil subreptício com sua gosma de íntimo. Quem não sabe dos buracos negros nas profundezas do poeta? Quem não conhece os vazios e nadas nas pré-fundas do escritor? No observatório do coração alucinado, perdido nas costelas das constelações, nas costas das estrelas e da lua, de sonhos e atônitas realidades, o escritor, o poeta são galileus no breu das inquisições. Todo cair da tarde a toada de medo, de insegurança, poema ou prosa de merda, merda de prosa poética, o morrer que começa feito cócegas nos dedos.
Ouço, só, só no ser e verbos entre todas as ad-jacências do amor aos sonhos e utopias, quimeras e fantasias, o silêncio, silêncio afogado e úmido como um longo suor frio, na medula espinhal ou no joelho que separa a perna da anti-perna, silêncio branco e sepulcral. Quero amanhã lembrar-me que fui embora, larguei o passado à mercê do esquecimento do tempo, da indiferença e desprezo humanos. Jamais me esquecerei do olhar do ator John Wayne no filme Rastros de Ódio, o olhar perfeito do desprezo, só por ele merecia um Oscar inédito na história do cinema, o Oscar do Olhar verdadeiro e sincero, e nenhum ator senão John Wayne seria capaz de mostrar-lhe nas telas mundiais. A Academia não dera a mínima para este filme. É com esse olhar que olho a hipocrisia humana, a história de certo povo. Na face dos prédios alastram-se manchas de água, o rodar dos carros estruge no enlameado da rua feita de pedras, o meu bafo quente coalha nos vidros turvos – disse-o nalgum instante de minha vida, em circunstâncias e situações de que não me lembra, mas agora expilo a fumaça do cigarro à mercê do vento que se dirige ao leste do paraíso celestial, naquela época a diferença de sentido e sentimentos reside aqui, hoje o éden está muito íntimo, entrelaçado em mim, comungado a todas as dimensões de minhas re-versas razões e in-versa sensibilidade, avessa intelectualidade e intuições do cogito ergo sum, lembrando-me do filósofo Descartes, apesar de que não tenhamos quaisquer semelhanças nos interesses e objetivos, nas idéias desfaço-lhe as seguranças e certezas do que há-de vir, o por-vir tranqüilo e sereno, sem quaisquer dúvidas, a ciência pura e absoluta da vida, acompanhada da intuição, percepção, imaginação, inspiração, enquanto que o paraíso celestial ao leste está bem distante de mim, só mesmo na imaginação o concebo, e o desejo é de me aproximar dele, saber-lhe. E imerso assim em umidade, quase alcançando a lod-icidade, com os pés frios, esmaga-me um cansaço sem tempo, um abandono absoluto da vida e da morte.
Sempre um sepulcro sutil debaixo do edredom e cobertor, altas horas da madrugada, minutos antes do canto do galo, na arapuca de Morfeu os pesadelos de Sísifo, assim ou assado, em si mesmo petrificado – narsísifo en-si-{mesmado}. Vomito finalmente o mito repelente, o mito indecente e indecoroso, o mito refutável e descartável: ad-mito ser gente, con-sinto em ser humano, estar à mercê do tempo, estar sujeito a trans-formações, estar sujeito a ser o outro de mim, envolvido em todos os princípios e verdades do final.
Três horas da madrugada: reclamam as asas da alma espaço para voar além do corpo e do catre, além do bairro e da praça, além do chapadão e dos córregos, quer a alma excitada voar além da cidade, além das florestas silvestres, apesar dos morangos e pêssegos deliciosos e apetitosos, que tanto aprecio, além dos mares que se perdem no infinito, confundem-se com as nuvens brancas e azuis, deixam olhos extasiados e voluptuosos de prazer com a beleza e magia do uni-verso, universo que des-lumbra o barroco de sua apoteose, que a-lumbra o expressionismo dos sofrimentos e dores da alma, suas tragédias homéricas e ulisseanas. Pois que voe a desalmada, voe mais que águia, deixando o corpo em soluços, dissolvido sonrisal, alka-seltzer num copo de solidão. Sempre uma dose de angústia sobre o acrílico do medo no barzinho da periferia onde, amargo, me exilo, penso e sinto o que me convém, o que está de acordo com a minha alma e ser, as saudades indescritíveis e indizíveis de minha querida Pitibiriba se me anunciam todas, sou todo saudades, sinto-me sendo o outro de mim, e mando o resto para a “tonga-da-mironga-do-cabuletê” ou pentear macaco no pálido crepúsculo das montanhas...
Apesar de tudo quanto mais latir mais assustarei, deixarei os ouvidos sensíveis, até paranóicos, a alma em alvoroço com todas as dores e sofrimentos. Apesar de tudo quanto mais discriminado e perseguido mais o que latir irá ser inscrito nas laias e estirpes da história das hipocrisias e falsidades da raça humana. Apesar de tudo quanto mais perdido mais encontrarei as veredas por onde trilhar os passos em direção aos infinitos da eternidade e imortalidade. Apesar de tudo quanto mais traído mais resplandeço, mais a minha estrela brilha no espaço sideral – sensível e espiritualmente envio beijos a amiga muito querida, quem num cartãozinho dissera-me da minha estrela que brilha. Apesar de tudo quanto mais responsável e compromissado com os ideais de liberdade e sinceridade mais me sentirei disposto a seguir a jornada que a mim foi vocacionada desde toda a eternidade. Apesar de tudo quanto mais unido às buscas mais menos serei. Minha memória eriça a fúria das ondas e nas profundezas do coração, lá nas suas pré-fundas, uma velha bandeira de pirata.
O céu, forrado de estrelas, é um olho arregalado na penumbra do alpendre onde sombras se apalpam. Onde sombras se fazem de carne, cheiro de vida, de carne sendo mordida, de carne, luz encarnada. A lua, em quarto - minguante, é um seio de soslaio que uma língua procura.
Sigo a jornada dos obedientes, sabendo que no meio do mundo há quem empurre a pedra com dinamite nos olhos. Montado num jegue, saudando sertão a fora com os braços desenhados no ar. No canto, peças do cangaço que se paira, e paira o sertão nas sombras ócias da noite, nos vultos preguiçosos da madrugada. Cangaceiro é lua cheia no sertão, e vem a noite, vem a brisa; no sono, a recordação. Na verdade, na verdade, a lua não se interessa pela conversa baixa, cochicho, sussurro dos gatos, dos ratos e dos homens – uma fraude fatal a favor de fulano de tal e cicrano bis. As paredes de cores e cores e cores estão imitando o poeta dos versos livres/oprimidos, o escritor de prosa re-versa/inversa, o homem de silêncio/latido; estão imitando o filósofo das revelações e averiguações do porque da vida obscura, misteriosa e seus desencontros; estão imitando o apenas e o tudo/nada sem igual, sem raiz de um touco morto pelo progresso, pela indiferença, pela modernidade que enfim assumiu que morreu, caiu vez por todo no chão duro e trincado pelos raios do sol, seu esquife está sendo levado para o sepulcro no pálido crepúsculo da primavera, em verdade final dela.
A vida, uma alegoria ou um pó que grita, que passa, explode e mofa? Hoje sinto a emoção verdadeira de uma entrega, e com tantos dissabores e enganos, uma entrega que se torna um fruto delicioso de sentir o seu gosto, pois reguei a semente até ver a árvore dando os seus frutos. Não digo que chegou o instante de chupar os frutos de minha árvore. É instante de ver os frutos amadurecerem e caírem da árvore – isto é muito bom, excelente, maravilhoso, mágico, pois que é a-núncio de que outros virão, ainda mais deliciosos. A árvore sente e repele, rejeita a nudez crua do boêmio não original, farsante da boêmia, vestiu a camisa, o corpo encolheu, diminuiu, tornou-se nada, de ouvidos elétricos.
Re-nascer é inevitável. Re-nascer como homem, ser humano é um privilégio, ser divino-contingente é uma dádiva. É o único estado que permite realizar o despertar de nossos pecados e culpas. O raio almíscar e gelatinoso de nada, esvoaçante nas dobras de uma cortina adocicada: um vôo, um alçar vôo no tudo, no nada, na imensidão de uma brisa serena e simples, em sua pequena asa esvoaçante. Uma bailarina passando no fundo azul e dilacerante de asas e gritos e sussurros, de uma leve brisa de nada e de silêncio. Um gemido na noite do nada e do absoluto. Uma pausa. O eco. O eterno profundo.
O que se ergue, desabrocha, floresce e dá frutos, sorrindo ao Sol e ao uni-verso é a semente que virou árvore. Mas somente pode triunfar porque o húmus, rico e fecundo, lhe deu generosamente os nutrientes, ingredientes. Triunfa a águia porque abre caminho para frente, triunfa o homem porque transforma suas dores em esperanças e utopias. A cada instante se muda não apenas o instante, não só o lugar do ponteiro do relógio, mas o que se crê nele, espera-se dele, deseja que ele realize, a vida passa entre viver e ser, entre re-versos pilares e horizontes. Quiçá a vida seja inglória, não sei se deveria pensar assim, pois que há instantes em que é pura glória, é puro resplandecer, outros há que não, é inglória, mas, com efeito, conhecê-la é inglório, a sede de conhecimento transcende o próprio conhecer. Se recordo o que conheci de mim, sentindo-me contente, prazeres e alegrias perpassando-me, outrem me vejo, e o conhecimento de antes, o passado é o presente que me habita a lembrança. Quem fui é alguém que amo, contudo somente em sonho. Feliz aquele a quem a luz do conhecimento se lhe a-nuncie, mas não todo. Que pesa o escrúpulo do pensamento na balança da vida?
Estou só. Luzes acesas, sombras corporais. Paredes encortinadas, cantos semi-áridos. Janelas entreabertas, roupas, objetos e jornais. A vida faz teias nos vastos murais... Vai no meio em romaria, está no fim do verbo amar, é a razão de haver a ilha, aí de mim, eu morreria se parasse de remar essa barca redondilha. Ninguém o sabe, não porque não o permita, não o con-sinta, tudo faço para não me deixar ver nas percuciências de minha alma, simplesmente porque esta minha solidão é mais que particular, é a minha essência, é o meu ser. Silencio-me e finjo. Finjo sem fingimento, pois que assim sinto que não tergi-verso o que em mim habita, não tripudio com as verdades em que creio impiamente, não jogo a carta da proscrição, esperando ser absolvido do erro de querer ser perfeito, feliz – a cada coração o único bem de ele poder ser dele.



Manoel Ferreira Neto.
(13 de abril de 2016)


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