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quarta-feira, 13 de abril de 2016

**ARTÍFICE DE RELÓGIO E ANÚNCIOS** - Manoel Ferreira


Às vezes, fico algum tempo imaginando se fosse eu um deus da mitologia grega, quem desafiasse Zeus, ou outro mais poderoso, recebendo o seu castigo, como o fora Clítia, a ninfa derrotada em virtude de seu amor sincero, não correspondido.
Ela era uma ninfa das águas, tímida e gentil, que vivia nos rios ermos, e banhava-se onde as libélulas voavam em torno dos lírios d´água nos lagos de águas transparentes.
Sobre o velho relógio-de-sol os pombos de plumagem branca arrulham modorrentos enquanto alisam a plumagem cor de neblina, e os lírios inclinam as longas hastes como procissão de monjas vestidas de branco. Apolo, cheio de desprezo e enfado, açoitava os cavalos de fogo quando a cada dia passava por Clítia, não se dignava a dar-lhe um olhar mais gentil que o oferecido aos sátiros que andavam entre as folhagens densas dos bosques.
“Na verdade”, dissera Diana, ligeiramente zombeteira: “Na verdade, a bela ninfa lança tão desbragadamente o tesouro de seu coração aos pés de meu irmão de louros cabelos anelados, que isso lhe permite maltratá-la, e ela está se tornando uma flor emurchecida”. Enquanto assim falava, o coração dos demais habitantes imortais do Olimpo ficaram tomados de piedade. “Ela será uma flor, disseram, e por todo o sempre viverá uma vida que se renova a cada ano com a vinda da primavera...”
Pudesse eu expressar o que este mito de Clítia reflete em mim... Sentindo-me como quem busca a expressão de algo muito íntimo, nada mais desejo expressar senão acerca das palavras que ora estou registrando na folha branca de papel, enquanto tomo um aperitivo num barzinho do centro da cidade, sendo um dos freqüentemente freqüentadores.
Olho a palavra, imaginando-me a beira de um lago à beira do qual estou sentado, e o rosto se reflete na água como num espelho. Nunca mais se ocultará, muito embora ela se oculte e revele, à busca da sua expressão verdadeira e pura, através da linguagem, estilo, beleza, estética, pois no instante em que vejo a imagem de sua beleza radiante, torna-me escravo e servil de sua alma.
Nítido a qualquer ouvido ou olhos a presença de palavras que tocam íntimo a sensibilidade através da sonoridade, ritmo, arranjo, sendo este o mais complexo de lidar com ele, devido às estratégias e engenhosidades possíveis, exigindo intuição e perspicácias. Difícil é alguns saberem o que está sendo dito em nível das entrelinhas, as suas mensagens, anúncios nos relógios-de-sol, mas o som das palavras toca-lhes sempre, seja em que circunstância for, e a leitura se torna um hábito, havendo o desejo precoce de nelas se perder.
Escrito, nada mais me resta senão a busca de novas palavras criar, dando vazão a novos sentimentos, lembrando-me de amigo haver escrito dedicatória em seu livro, doando-me, ““Não tenho um novo caminho. O novo que tenho é um jeito de caminhar”. Este amor pelas palavras, a busca de me perder nelas, deixá-las construir-me o destino, seja desta ou daquela maneira, o que mais importará, e elas, quem sabe, não se sintam aborrecidas, sentindo nem mesmo piedade de mim que as busco desde o intróito quando notam tristeza ou angústia diante as imensas dificuldades de registrá-las na folha de papel, dia após dia, tornando-me cada vez mais entediado com as velhas que ressoam ao ouvido a todo momento, quase um suplício irreversível, e as buscas estiolam-se num abrir e fechar de olhos.
Quem sabe, se fosse um deus, uma ninfa, diante desta realidade com que vivo no quotidiano em relação às palavras não fosse condenado, de acordo com a vontade dos deuses, a assumir a forma de um rio, e para sempre, como símbolo da continuidade, fitar com ardor sereno o rosto do sol, o artífice de relógio e anúncios, o amado de quem vive de palavras e verbos!...
Ah, o que é a imaginação, conciliada ao dom gratuito, à intuição, aos desejos ocultos e manifestos, diante da vida, dos sonhos de realidade, de continuidade de sentimentos gostosos e alegres.!Imaginar-me um rio seguindo o seu caminho, isto como piedade dos deuses por meu amor às palavras, enfim elas encontrem o mar que é a vocação desde a eternidade.
Quem as lê, interpreta, analisa, identificam o que de compaixão e falsidade há nelas, às vezes colocando-as no devido lugar à mesa do Olimpo, e sou quem as vivo entranhadas em cada molécula de meu corpo, em cada batida do coração, e nunca cessam de apresentar outras fontes a serem descobertas, assistir as águas brotarem límpidas e nítidas...
Que me importa o que dizem, o que revelam, a mensagem entranhada no estilo, forma, linguagem! O que importa é que as posso sentir fortes em mim, e, se eu resolvesse desafiar alguém a escrever neste nível, haveria algum deus que me castigaria por esta arrogância sem limites, por despeito e inveja, crendo de antemão e revezes haver qual o deus que me castigaria por as escrever lúcidas e translúcidas, o dos mares. Quem sabe o castigo recebido devido à derrota não seja tornar-me água que corre o seu itinerário livre, abrindo espaços, passando rejubilante de seu dom e vocação, seguindo os seus caminhos rumo ao rosto do sol, o amado.
Tudo são fantasias em primeva instância. Ao longo da vida, artífice de relógio e anúncios... Quem se dis-por a ouvir as suas badaladas em horas de louvores a Deus, Jesus Cristo, os anúncios que ela revela aos homens serem revelados dependem unicamente de saber que sua amada é a música, como continuar vivendo quando a música acaba, sendo a música, musicalidade das palavras, a vida seria um engano irreversível.



Manoel Ferreira Neto.

(13 de abril de 2016) 

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