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sábado, 5 de agosto de 2017

#BRUMAS DE PRATA# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: SINOPSE DE PEÇA DE TEATRO


ANÁLISE: 21 DE JUNHO DE 1989


II ATO


"O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança." (Sigmund Freud)


Quem sou eu no olhar a buscar o entendimento de todos os gestos, comportamentos, atitudes? Quem sou eu no olhar desejando a compreensão de todas as emoções, sentimentos? Quem sou eu no olhar querendo a visão do processo da personalidade, identidade, íntimo? Quem sou eu no olhar intencionando a percepção de todos os conflitos, dores? Quem sou eu na atitude de olhar o outro?
Quem sou eu no sentimento?... Desejo ir o mais fundo em mim, perscrutando toda a intimidade, burilando o estilo, delineando a forma, buscando a pureza. Desejo sentir o âmago do carinho, viver-lhe, aprimorar-lhe, aperfeiçoar-lhe. Desejo viver o seio do amor, sentir-lhe, ser-lhe. Desejo sentir o amor, transformar-me, transmudar-me, modificar-me. Desejo querer o mais autêntico, tocar fundo o mais verdadeiro. Quem sou no sentimento de desejar?
Quem sou eu nesta imensa volúpia de atingir o eterno, sentir-lhe os prazeres e alegrias? Quem sou eu nesta intensa voluptuosidade de abarcar o imortal, sentir-lhe as delícias e gozos? Quem sou eu, se atingir o eterno, abarcar o imortal é-me apenas um deleite da razão, do intelecto? Quem sou eu, se recuso tanto o imortal, o eterno? Tudo o que desejo é o mais mortal, o mais perecível - sempre a partir do deplorável, do insustentável. Quem sou eu?
Quem sou eu no pensar a felicidade, se ao me expressar confundo os dados, multifacelo a verdade, e tudo se torna um vulcão de coisas nauseabundas em erupção? Quem sou eu no pensar a paz, se ao me exprimir, digo as dores, as ansiedades, as angústias, e tudo se torna um vazio imensurável? Quem sou eu no pensar a alegria, se ao me revelar, manifesto a tristeza, melancolia, nostalgia? Quem sou eu a exprimir as dores, as ansiedades, as angústias, se há a presença de toda uma racionalização? Quem sou eu a manifestar a tristeza, melancolia, nostalgia, se há todo um estilo de descrição de todos estes fenômenos?
Quem sou eu no instante em que traio a consciência, deslizando-me para a má-fé, o gratuito, o arbitrário, o nauseabundo? Quem sou eu no instante em que reprimo as fantasias, intencionando a consciência mais fundamentada e real? Quem sou eu no instante em que rechaço a inteireza da consciência, desejando viver todas as suas arestas por simples capricho e picardia? Quem sou eu no instante em que desfacelo a consciência, a fim de alcançar a liberdade de olhar por todos os ângulos do mundo sensível? Quem sou eu no instante em que corto a consciência de minhas atitudes e atos, com o desejo explícito de ser a agressividade, a rebeldia, o ressentimento, a raiva? Quem sou eu no instante em que dilacero a consciência de meus sentimentos, com o desejo nítido de viver a dor, a angústia, a ansiedade? Quem sou eu no instante em que negligencio a consciência, com o desejo límpido de instalar-me unicamente em nível da subjetividade, estar no subjetivo?
Quem sou eu no mundo, se no instante da proximidade comigo, encontro-me distante? Quem sou eu no mundo, se no momento em que me sinto distante é que me encontro o mais próximo de mim? Quem sou eu no mundo, buscando-me o encontro é sempre uma perda de algo, talvez imprescindível? Quem sou eu no mundo, perdendo-me o encontro é sempre uma atitude séria e real? Quem sou eu no mundo, viver é estar morrendo a cada passo dado? Quem sou eu no mundo, a morte é a eternidade sólida e insofismável? Quem sou eu no mundo, pois que não sou real e as minhas atitudes realizam a mim?
Quem sou eu?!... Amando, unicamente reivindico um reduto aconchegante onde repousar a minha cabeça? Amando, interessa-me o diálogo, dizer o que me vai no íntimo, esperando uma compreensão? Amando, interessa-me a conversa, ouvir o que se passa no íntimo, e jamais possuo uma palavra a ser dita?Amando, estou num instante de fantasia, imaginação, criação fértil, e na realidade tudo é apenas um deleite, um espairecer das idéias?


(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE AGOSTO DE 2017)


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