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terça-feira, 1 de agosto de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO XXI


Outra vez, acabamos excluindo as categorias pelas quais demos um valor ao mundo, levando-o a assumir uma forma sem nenhum sentido e valor. Todavia, o fato dessas três categorias não tangerem mais uma interpretação do mundo, o fato de as termos desvalorizado, a ineficiência de sua aplicação ao mundo não pode constituir razões bastantes para a desvalorização do mesmo.


Mesmo diante desse quadro, o niilismo que se apresenta como estado psicológico, que propicia o processo de desvalorização e dissolução dos valores supremos tradicionais, é uma espécie de niilismo incompleto, pois se inicia com ela uma supressão dos antigos valores, mas, por outro lado, os novos se encontram aí, ocupando seus lugares, conservando a marca supra-sensível, ideal. Nesta categoria de niilismo, a dicotomia mundo-verdadeiro e mundo-aparente continua em vigor, sustentando ainda uma crença, sem se desaparecer por inteiro.


Em contrapartida, Nietzsche só admite a supressão total do mundo supra-sensível, ideal, com o amadurecimento do niilismo completo. Neste, encontramos uma duplicidade: o niilismo do forte e o niilismo do fraco, isto é, o niilismo ativo e o passivo. O niilismo do fraco decorre da falta de força em construir um mundo com sentido à maneira da metafísica; nele encontramos um sinal de declínio e recuo da potência do espírito. É um niilismo do cansaço que exaure a força criadora de sentido e se entra no estado de resignação. O niilismo da força já se revela como sinal de potência evoluída do espírito o qual se remete a desenvolver e antecipar o processo de destruição. Esta categoria de niilismo arruína todos os valores tradicionais, como também qualquer espécie de mundo supra-sensível.


Assim, a radicalidade do niilismo que, aliás, Nietzsche pretende atingir, aduz, precisamente, que são falsas as concepções de fé e verdade, pois o mundo verdade é inexistente, é uma ilusão causada por nós mesmos. Desta forma, com a supressão do lugar ideal dos valores tradicionais, abrimos margens para uma nova escala de valores, fazendo uma transformação no caráter do niilismo: de negativo passa-se a positivo, uma vez que possibilita o surgimento de valores novos, fundados na vontade de potência. Com essa metamorfose do niilismo, isto é, o fato dele abrir caminho afirmativo, ele supera seus limites e se completa, tornando-se a forma de niilismo aduzida ou colocada por Nietzsche.


Este niilismo deve ser originado sob o mais terrível aspecto, destacando de caráter existencial qualquer impulso de finalidade e motivos todavia, encontrando-se em constante repetição, sem se concluir em um nada. Portanto, é um niilismo que se completa com a implantação do eterno retorno. Desta forma, as coisas estão num constante fluir, observando e realizando aquilo que é permitido pela energia do cosmo e da mecânica, sem se repousarem no nada ou na própria finalidade de atingirem a si mesma. Fincado nestes pressupostos, Nietzsche chega à conclusão de que a especificidade geral de todo o mundo resulta no caos que perpassa por toda a eternidade.


Agora, surge um outro problema: a existência parece tornar intolerável. É por isso que Nietzsche sugere essa superação, o super-homem, como alguém que exprime a concentração máxima da vontade de potência, capaz de tolerar esse pensamento. Para que surja o super-homem, é preciso haver uma transvaloração de todos os valores ao qual se opõe totalmente ao niilismo e o supera. Portanto, com a superação da dicotomia entre os mundos, faz-se necessário repensar o sentido do devir, sem voltar à dicotomia platônico-niilista. E é neste repensar que Nietzsche encontra oportunidade para trabalhar sua doutrina do eterno retorno.


O eterno retorno seria um susto somente se a consciência se lembrasse das intermináveis repetições, se portanto no curso do tempo ela não apenas permanecesse a mesma, mas soubesse que era a mesma. Mas se a consciência pensa que está cada vez recomeçando, e nessa ilusão de um início se repete constantemente, haverá para a consciência sempre novos começos, não repetições, ainda que lhe apresentem um cálculo que pareça comprovar o eterno retorno à Medida que nos demonstramos por cálculo a repetição, ainda não a vivenciamos. O susto (como o encantamento) só pode residir na vivência.


Após o assassínio de Deus que culmina com o advento do super-homem, o homem tende a ocupar o lugar de Deus. Esse assassínio que o direciona a se realizar livremente é porta de entrada para a transmutação de todos os valores da tradição. Assim, temos uma decadência moral que já de caráter mórbido abre margem ao invento de valores novos, a uma inquietação do homem frente à realidade.


Como já vimos anteriormente, o niilismo é conseqüência do esboroamento da moral. Com isso, caímos num caos absoluto que deverá ser superado a partir do eu que valora, quer e cria. Desta forma, o homem cria novos valores.


Temos, portanto, a idéia de eterno retorno, não absolutamente como uma superação do niilismo, acontecimento que se realizará com o advento do Super-homem e a vontade de potência, mas como uma concepção do mundo que surge a partir da descrença total da existência de um além mundo, uma vida após a morte e mais ainda, da própria existência de Deus.


É importante salientar que o termo “eterno retorno” não é autoria de Nietzsche; surgiu com os pré-socráticos e também representa uma condição lógica no ateísmo, o que não podemos afirmar que o seja em todo conjunto do pensamento nietzscheano.
Nietzsche em uma viagem à Suíça, caminhando em Sils Maria, no alto Engadine é despertado pela idéia de eterno retorno, tida como o cume do seu último pensamento filosófico.


Segundo ele, para acatar essa nova idéia, faz-se necessária uma supressão da moral, portanto, uma transmutação dos valores.
O objeto de enfoque agora é o mundo: a falta de finitude, isto é, o fato dele ainda não ter alcançado um fim, mesmo que tal fim não tenha sido planejado, leva a concebermos que as forças sustentáculos do mundo não diminuem, não cessam, senão, na infinitude, o tempo já teria alcançado um final, já haveria de se tornar fraco e sucumbido. Desta forma, o mundo das forças não dispõe de um equilíbrio, não cessa nem pára, mas sua força e seu movimento coexistem de igual grandeza para cada tempo. Assim, o estado que o mundo tende a alcançar já o foi alcançado e por sucessivas vezes. É como um instante que já aconteceu e que por muitas vezes se repetirá. Sendo assim, afirma Nietzsche:


Tua vida inteira como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez, um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo. E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez, a inteira conexão de todas as coisas. Esse anel, em que és um grão, resplandece sempre outra vez. E em cada anel da existência humana em geral há sempre uma hora, em que primeiro para um, depois para muitos, depois para todos, emerge o mais poderoso dos pensamentos, o pensamento do eterno retorno de todas as coisas:- é cada vez para a humanidade, a hora do meio dia .


Como vemos, o mundo é essa explosão energética que exala uma capacidade criadora, uma faculdade de transformação, onde não paira numa finalidade, mas retorna a alguma de suas formas antigas, possuindo meios e mecanismos para se afastar de qualquer forma de repetição e controlar a todo instante seus movimentos, a fim de não chegar a um estado final.


A concepção de eterno retorno nietzscheana parte da visão linear do tempo, de uma sucessão intratemporal, enfocando uma diferença entre passado e futuro, passando de antemão a suprimir esta lineabilidade, concebendo a infinitude do tempo, a eternidade, de uma maneira nova e estranha. É baseado nesta concepção de que o mundo não tem origem nem fim no espaço, da afirmação e negação simultânea do tempo, onde cada instante possui caráter de eternidade que sua idéia de eterno retorno é edificada.
Em a Gaia Ciência, Nietzsche afirmara:


De fato, nós, filósofos, livres espíritos, sabendo que o antigo Deus está morto, sentimo-nos iluminados como por uma nova aurora; o nosso coração transborda de gratidão, de espanto, de pressentimento e de expectativa... eis que, enfim, também se não está claro, o horizonte de novo parece livre, eis que enfim os nossos barcos podem voltar a partir e vogar diante de todos os perigos; voltará a ser permitida ao pioneiro qualquer tentativa de conhecimento; o mar, o nosso mar, de novo volta a abrir-nos todos as suas extensões; talvez nunca tivesse havido mar tão pleno .


Como relatamos anteriormente, a idéia do eterno retorno é o pensamento mestre de sua última filosofia. Ela é focalizada como tese central da obra Ecce Homo, sobretudo proferido pela boca do profeta na obra Assim Falou Zaratustra.


Do ponto de vista antropológico, segundo Carlos A. R. de Moura, o pensamento do eterno retorno, definido agora como a religião das almas libérrimas, deve exercer uma ação ético-pedagógica sobre a humanidade. E este aspecto é até mesmo o essencial, já que, para Nietzsche, o efeito “existencial” da doutrina estaria garantido, mesmo se ela se mostrasse cientificamente indemonstrável e se impusesse apenas como uma mera propabilidade. Enquanto religião das almas libérrimas, seu efeito sobre a humanidade não é algo estritamente dependente de qualquer certeza especulativa.


Mesmo admitindo que a repetição cíclica seja apenas uma verossimilhança ou uma possibilidade, basta o pensamento de uma possibilidade para nos emocionar e nos transformar, da mesma forma como sentimentos e esperanças .


(**RIO DE JANEIRO**, 31 DE JULHO DE 2017)


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