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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

#AFORISMO 89/REENCONTRO EM PORTO DAS ILUSÕES# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO

#Por muito distante que os deuses celestes habitem no éter, eles conhecem e vêem as obras e feitos dos mortais e simples mortais.#


Epígrafes:


"Há uma imperceptível linha imaginária, o marco zero das diferenças, delimitando magnanimidades e insensibilidades, a serem detectadas pelo indivíduo, imprescindíveis à percepção do outro." (Graça Fontis)


Bocas sem freios e os desatinos sem lei abismam-se no infortúnio, na desgraça. A vida serena e a sabedoria conservam-se ao abrigo dos desgastes e garantem a sua duração. Por muito distante que os deuses celestes habitem no éter, eles conhecem e vêem as obras e feitos dos mortais e simples mortais. A vida passa breve, e disto sou quem não tem qualquer dúvida. Só não consigo compreender e entender o porquê o dia presente necessita ser vivido com grandes ambições e voluptuosidades? São assim, no meu ponto de vista, e o ponto de vista é visto apenas de um ponto, os insensatos e os homens de condutas duvidosas e mesquinhas.


No céu, milhares de estrelas espalham sua luz. Não posso conciliar o sono, e continuo a observar o céu que se abre sobre mim, transparente e puro. Como uma franja que atravessasse o céu, a extensão da via-láctea. Passe por um sono breve, um momento, e foi como se um véu diáfano viesse esconder-me por instantes o firmamento, pois tudo reapareceu de novo. Os olhos enchem-se de lágrimas. Pego um lenço de seda, cubro o rosto com ele e dentro em pouco o tecido delicado fica todo úmido. Permaneço um longo tempo com os cotovelos no parapeito da janela, com a cabeça jogada para frente, apertando com os dentes alvos o belo lábio inferior, como se houvesse sentido de repente a picada de uma serpente venenosa, conservando sempre o lenço sobre os olhos para que não veja a imensa dor. Guardo silêncio e permaneço imóvel, sempre com os olhos ocultos pelo lenço.


A jovem, de cabelos louros, caindo-lhe ao ombro, rosto fino, olhos azuis, põe a falar com uma voz tão doce e fraca como a aragem que se levanta num entardecer maravilhoso e corre por entre os canaviais: esse ruído suave e melancólico, brotando num murmúrio e voando para longe, faz com que o viajante se detenha para escuta-lo com incompreensível desolação e tristeza, sem dar-se conta de como a tarde se apaga, nem das alegres canções dos camponeses que regressam do garimpo, nem do rodar longínquo de um carro.
Foi preciso que, antes do meu fim, viesse a ouvir estas palavras nunca ouvidas antes, e conhecer o amor que me era desconhecido. Foi preciso que uma jovem aparecesse em meu sonho, no breve instante de sono que tive, tornando meu destino ainda mais prenhe de desejos e vontades, de sonhos e quimeras, fazendo com que a vida, em plena juventude, se me afigure ainda mais linda e que, na alegria, eu abençoe a minha sorte.


Cada traço de minha fisionomia, desde a fronte tristemente inclinada e dos olhos baixos, até as faces pelas quais escorrem as lágrimas, tudo parece dizer: “Nesta alma há mais felicidade e amor que se consegue imaginar!”
Tomo a jovem pela mão direita, descemos por fim pelo barranco, em cujo fundo corre indolente um riacho por entre juncos e pequenos montículos de terra.


Avisto uma escarpa abrupta que excede a altura de um homem, no cimo da qual ondula contra o firmamento enluarado a vegetação. A brisa anuncia a chegada da aurora. Mas não ouço nenhum canto de galo nas vizinhanças, já que nem na cidade, nos devastados arredores sobrara uma única destas aves. A encosta íngreme encontra-se coberta de vegetação e, numa espécie de vale que ali se formava, havia um juncal da altura de um homem. Divisaram-se no cimo os restos de cerca, indício de que, em outros tempos, existira ali um canteiro, uma horta.


Abrindo caminho entre os juncos, detemo-nos em frente a um monte de sacos secos e paus cruzados. Arredando estes, surge uma abertura em forma de abóbada parecida com a boca de um forno. A jovem entra primeiro, baixando a cabeça, seguida por mim, que tenho de me curvar muito para poder passar. De repente, encontramo-nos ambos na mais completa escuridão.


Ligado a este sonho, acontece um pequeno fato que serve, como inúmeros outros servem, para me persuadir de como um homem que nunca passou nenhuma desgraça, nenhuma decepção, nenhuma desilusão, pode facilmente passar pela vida sem conhecer, pelo menos em si próprio, qualquer coisa da possível misericórdia do coração humano ou um suspiro da sua possível arbitrariedade, maldade. Uma densa cortina de simplicismo cobre de tal forma as expressões e a fisionomia da natureza dos homens, que para um observador comum os dois extremos e infinitas possibilidades existentes entre eles se confundem – o enorme e múltiplo compasso das diversas harmonias estão reduzidas à sórdida linha de diferenças expressas no alfabeto de sons comuns.


(**RIO DE JANEIRO**, 10 DE AGOSTO DE 2017)


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