Maria Isabel Cunha CRÍTICA LITERÁRIA ESCRITORA E POETISA COMENTA O AFORISMO 525 /**AO REFULGIR O SOL NO MAR**/
Neste texto, observamos que o escritor Manoel
Ferreira Neto apresenta uma mudança, quer a nível conceptual quer a nível da
linguagem. Inicia-o com um jogo de letras para apelar ao leitor a sua própria
interação no mesmo. Segue-se a enunciação de conceitos opostos, oblíquos,
obtusos, em correlação com o que acontece no universo, chegando à conclusão que
tudo funciona para o mesmo fim ou objectivo, harmonia do cosmos. Está
consciente e sereno, por isso salta da inquietude, da insensibilidade para
mergulhar nas ondas de uma metamorfose plena. Aqui vemos o ressurgir de nova
dialéctica, de segurança, do que virá a ser o auge do seu percurso como Homem
de Letras, mestre na Arte de escrever, filósofo, argumentista, crítico
literário, o Homem, o artista.
Maria Isabel Cunha
#AFORISMO 525/AO REFULGIR O SOL NO MAR#
GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
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Encontro-me a um passo de exceder os absurdos acumulados da carne - uma sensação mista de culpa e profusão - e nada é capaz de dominar os ímpetos de entrega, as volúpias da rendição.
Quero-me em nível
da duplicidade carne/desejo,
ambigüidade corpo/vontade,
do paradoxo desejo/fracasso,
da contradição medo/coragem,
da dialética eterno/nada,
e nada mais
obstacularizando os ímpetos
de um clímax
eterno e
efêmero.
Sensações unívocas e equívocas de uma
angústia, obtusas e oblíquas de uma nostalgia, tomando as rédeas da claridade,
evidência, emergem lúcidas do fosso dos desejos constantes de prazer e astúcia.
Sou uma miríade de sentimentos a transbordar-me, exceder-me, ultrapassar-me,
suprassumir-me, e caminho consciente pelas veredas da vontade de interação.
Penso, ao refulgir o sol no mar;
penso, ao ver fluir no rio o luar, penso, ao perscrutar a neblina se esvaecendo
no alto da serra. Na poenta vereda do horizonte, vejo o trilho, enquanto à
noite, sob a ponte, dorme o pedinte, sobre papelão, coberta esburacada.
Ouço as ondas do som, quando a vaga
vence o penhasco rude; quando na floresta o silêncio é plenitude. Posto o sol,
com o céu cintilante, sinto saudades, sinto melancolias.
Silencio os silêncios
Do tempo, ventos
O recôndito da alma
Ouço suave, pura leveza
O pulsar do coração escuto
Comedido, sentimentos do ser
Sob o símbolo no espaço, figura
exalta pontos de luz,
No cume do Gólgota, apagou para o
mundo
Não a divinidade do amor,
expressão manifestada na cruz.
O silêncio é plen-itude
O desejo, compl-etude
A solidão, seren-itude
O amor, itude do ser
O ideal, ampl-itude
O sonho, solenitude
Emoções espelhadas numa congruência fácil e espontânea de carícias e ternuras colocam-me livre e escravo de vontades nunca dantes nem mesmo imaginadas, fazem-me consciente e alienado de utopias de que antes noções frívolas tinha. O medo excêntrico dos absurdos da carne, vividos na cabeça do tempo, no coração do vento, faz sobreviver um refúgio, faz viver uma fuga, e o mergulho na insatisfação. Surgida da insaciabilidade, a impetuosidade de uma lembrança de sangue a jorrar nas veias da razão, um confronto da esperança e a angústia do inominável. Mergulho-me fresco e volúvel nas ondas do ímpeto de uma metamorfose viva, a engolfar-me, retirando-me fundo das obscuridades dos sentimentos ambíguos. Sou impetuoso, de modo a rasgar-me as vísceras dos sentimentos de ternura e carinho pelo viver o mundo, intransigente, de modo a dilacerar as entranhas de idéias e pensamentos.
Há de ser uma estrada de amarguras a vida. E andá-la-ei sozinho, vendo sempre fugir o que aspiro, disse-me um dia uma estranha cartomante.
Etern-i(s)ciência da sabedoria eivada
de eidéticas essências do não-ser dos prazeres e ex-tases dos esplendores,
maravilhas, magias, estesias e ex-tases paradisíacos, o nada, o vazio, as nonadas
são sementes e húmus para a viagem às linguísticas e semânticas das utopias do
tempo de ser a vida projetada, trans-cendida, trans-elevada à mesmidade
espiritual, antes de quaisquer "aléns" o vir-a-ser do aquém
genesiando os éritos das memórias in-conscientes, impulsionando as iríasis das
sorrelfas às sarapalhas do sem-fim-sem fim?, não princípio eivado de todas as
liberdades e livres-arbítrios, o ser.
Efemer-itudes de ocasos. Teremos no
olho aquela imagem do nada seduzindo o vazio exilado na noite de lua cheia,
lobos uivando nalgum recanto da floresta. Teremos na alma aquele solstício da
angústia enamorada da saudade, do apocalipse profetizando o inaudito do caos,
mistério do nada, enigma do vazio, evangelho do In-finito, enquanto o genesis
semeava a semente do cosmos. Teremos no peito aquele verbo do sonho de sentir o
absoluto configurado de nonadas, des-figurado de etern-idades, pre-figurado de
esperanças e utopias no in-trans-itivo verbo "ser".
Havia um pássaro na árvore do quintal cujo trinado ecoava melodioso e rítmico, despertando no abismo da alma os sons do eterno metrificado de líricas e, ouvindo o trinado, musicalizava as estrofes da esperança concebendo o tempo do amor, tempo de ex-tases do desejo e querência do belo e da beleza.
Saltitava-me, às cinco e meia da
manhã, de alegria, felicidade, contentamento, gozava o instante-limite do
espírito, às volta com os sons do in-audito uni-verso da poiésis das
plen-itudes do verbo "con-templar" o poema do silêncio. Fluía
livremente na éresis do ser-para o nada, ser-com o mistério as verdades
carentes do divino.
(**RIO
DE JANEIRO**, 08 DE JANEIRO DE 2018)

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