#AFORISMO 523/FLOR DA IDADE MADURA# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Qualquer cousa alfim de estético, exultante escolher Imprescindível,
faz-se mister para em verso plasmar na labuta incansável da obra-prima, beleza
da perfeição poética: orquídea que se ostenta em toda a sua exuberância à
sombra, pétala de rosa que resume alvoreceres e pontilhismos, flagrante,
exótica, patética, catártica, histórica, asa que paira em cima, beija flor,
aroma, perfume de um poema, versos e estrofes sensíveis, transcendentes,
aspirá-lo com volúpia, ou de um campo de trevo, con-templá-lo eivado de êxtase
e exultação, almatizá-lo. Podem ser símbolo de alegria, de lucidez, de
serenidade, mas é também um modo mágico, um encantamento.
Não mais o desejo de explicar, explicitar, tornar transparente, e
múltiplas palavras ad-versas, re-versas, in-versas em feixe sublime subindo, e
a alma que re-colhe os desejos intrínsecos, e o espírito que escolhe a sensibilidade,
o sensível, o olho que perscruta, visita, o ritmo feito de depurações, a
delicada performance de um diamante de cintilância pura, e ouço, escuto o tempo
fluindo no mais silencioso silêncio.
Aroma, ou asa, ou flor… tudo o que diga e exprima, tudo o que revele
perde, ao moldar-se, performar-se em verso, o seu próprio relevo, porque sinto,
intuo, percebo, mau grado a glória com que escrevo, com que dissipo, com que
intenciono patentear sentimentos, emoções, o que além d´alma me vai, as
contingências me trans-cendem, presa a imaginação no limite da musicalidade, no
limite da sonoridade, no limite do espírito. Tudo é breve e definitivo.
Não vai, pois, instigar, e sem que isto lhe praza, minh’alma, e por
amor, afeição, afeto d’arte que se não doma, que se não amaina, a mágoa que lhe
lateja, pulsa-lhe forte, e a febre que lhe abrasa: o aroma, sente! est’asa,
admira, sur-preende, conquista, fascina! esta flor, toma! Mas deixa continuarem
in-exprimidos a asa, a beleza da orquídea e o viço do aroma.
O som de minha pena no papel, correndo, correndo, atravessa o eu não
poder vislumbrá-la, con-templá-la, vê-la uma mão, e sobre o papel onde escrevo,
entre mim e a pena que escreve o peito fechado, oprimido, quiçá sentimentos
desejando libertarem-se, voejarem o ser, o não-ser, sobrevoarem o mundo, a
terra, serem.
(**RIO DE JANEIRO**, 07 DE JANEIRO DE 2018)

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