#AFORISMO 520/O DISCURSO HIPOTETICAMENTE CORRETO DO SÁBIO BARION ESCARAMOUCHE NA DIVERSIDADE DA FAUNA** - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO/SÁTIRA
Assim falava Barion Escaramouche, retornando de sua longa viagem pelo
sertão, cansado e dobrando os joelhos no lombo de seu fiel e leal amigo, o
jegue Toquinho, ainda na flor da idade e das suas capacidades, nome dado devido
ao fato inconteste de seu rabo haver sido cortado desde tenra infância, e assim
aprendeu a zurrar com afinação e musicalidade, viagem de conhecimento e
aventuranças:
“Não elogie,
Não teça encômios,
Não rasgue as sedas,
Não destile as vaidades
Do orgulho,
Lisonjas,
não dê os famosos três tapinhas mineiros no ombro
ou teça considerações cordiais
ao que você ainda não consegue compreender!
Re-flita na preservação da ecologia
Pense nas liberdades que a-nunciam
e nos costumes dos animais,
verdadeiras sementes
para o novo mundo,
para a nova vida!”,
dizia-o em versos, não é conhecido alguém quem ame tanto os versos,
especialmente os de Gregório de Matos, o seu livro de cabeceira, cuidando de
perfeita e sensível declamação, recitação, imprescindível na arte de ouvir de
todos, assim assimilam com espontaneidade:
Bem-aventuradas as vacas, de chifres miúdos, razoáveis, de grande
envergadura e pontas, úberes plenos de leite, secos pela idade avançada, ainda
por darem leite, que estão na cozinha preparando a ração para o almoço, e
depois irem passear pelo pasto em companhia dos figurões, adquiridos pelo
coronel em famosos leilões;
Bem-aventurados os bois carreiros que estão no curral mastigando o
capim, enquanto ruminam as estradas percorridas, as saudades das vacas que
afiaram os seus cornos em presença dos figurões, único horário livre de suas
missões, pelas poeiras e buracos dos infinitos estradões, de seus afazeres
puxando as carroças carregadas de lenha pelas ruas de pedra pura ou asfaltadas;
Bem-aventurados os macacos que estão na galha descascando os caturrões,
gritando “hurras” e “aleluias” aos sistemas falidos de todas as nações, aos
interesses espúrios de políticos retrógrados e alucinados, às ideologias em
pautas de todos os Congressos, em projetos nas Câmaras Municipais, às súcias
camaradagens e cumplicidades em todas as delegacias;
Bem-aventurados os porcos piaus e catetes de colar de pérolas ou
diamantes, presentes dos banqueiros de grandes fortunas, deitados no chiqueiro
depois da ração misturada com a deliciosa lavagem, curtindo o calor escaldante
do verão, o toucinho largo e suculento será torresmo no meio do feijão,
salsinha, cebola, que alimentará os peões em suas jornadas;
Bem-aventurados os gambás que se deliciam no colo das madames e
primeiras-damas de espartilhos, sendo paliativos sensíveis de suas solidões de
afagos sensuais, ternuras libidinais, carinhos e toques na púbis, a tradição
ressuscitou a moda francesa do Século das Luzes, enquanto conversam lorotas
pelo celular com as amigas, entre “ais”, “aís”, “uis”, “não acredito,
verdade?”, de banquetes e passeios de charrete pelo campo, com o leque aberto e
continuamente sendo balançado para espantar os mosquitos e o calor escaldante,
a cada palavra o odor genuíno dos princípios da falta de senso e razões dos
gambás mesmos;
Bem-aventurados os urubus que, depois do banquete de jegue morto no
mata-burro da estrada, sobrevoam a montanha, pousam no alto do Pico do Itambé,
reverenciam o esplendoroso panorama de cidades nascidas nos abismos, criaturas
que nada conhecem ou intuem para além das montanhas, indivíduos que nada sabem
do futuro e do que há-de vir, e observam os lucros pomposos da nação, com a
exportação de milho e capim para alimentarem os galos e touros dos estrangeiros
burguesões, enquanto os nossos estão caindo aos pedaços de tanta secura devido
à fome divina e danada;
Bem-aventurados os ratos que comem os seus queijos suíços, guinchando de
prazer e volúpia, roubados na despensa dos políticos de futuro e imortalidade
de tanta corrupção, enquanto as esposas fazem o toalete para o jantar suntuoso
no Botequim do Alemão, vestidas a rigor e critério, as damas parisienses do
século XIX sentiriam inveja, despeito e ciúme, mesas espalhadas no calçadão da
avenida ad-jacente à central, com as amigas e conhecidas de noitadas de prazer
e ilusões;
Bem-aventuradas as serpentes que se arrastam pelo chão, em ziguezague,
em curvas sinuosas, em aclives e declives desagradáveis, lingüinha sempre de
fora, enquanto os cavalos desembestam pelo chapadão, procurando uma caverna
para se esconderem e descansarem para a viagem do capataz levando o gado para o
abatedouro do Zé Tameirão;
Bem-aventurados os galos de todos os galinheiros, que cantam de
madrugada para saudarem a lua e as estrelas, desde a aurora ao crepúsculo
correm atrás das galinhas, comem ração com carinho preparada pela matrona do
casarão, no poleiro fazem a sesta, para fazerem a festa das famílias em pleno
calor do domingão, e no final da tarde assistirem ao Programa do Faustão;
Bem-aventurados os vira-latas de todas as ruas, avenidas, alamedas e
becos, que viram as latas, sacolões, desejando encontrar os restos de pizza à
moda do Primeiro Ministro Italiano, catupiri fresco e virgem, ingredientes de
queijo fresco e natural, azeitonas frescas e colhidas na virgindade das
auroras, das autoridades e personalidades que vivem do passado, discursam na
UNESCO sobre as vantagens do turismo sustentável, sobre os lucros suntuosos à
custa da sucatagem da história, da alienação do povão;
Bem-aventurados os tubarões que descansam na areia das praias
maravilhosas da nação, enquanto observam as gatinhas de top-less tomando água
de coco, cerveja de latinha, enquanto trocam dedos de prosa sobre conquistas
prazerosas advindas de todas as corrupções;
Bem-aventurados os leões que passeiam pela floresta, depois do suntuoso
banquete de veado, descansam na sombra de frondoso flamboyant, e sonham com
novas caças, enquanto os sapos coaxam à beira da lagoa, loucos por um furtivo
moscão...
(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE JANEIRO DE 2018)

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