#AFORISMO 522/O DISCURSO HIPOTETICAMENTE CORRETO DO SÁBIO BARION ESCARAMOUCHE NA DIVERSIDADE DA FAUNA - II PARTE** - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO/SÁTIRA


Assim falava Barion Escaramouche, retornando de sua longa viagem pelo sertão, cansado e dobrando os joelhos no lombo de seu fiel e leal amigo, o jegue Toquinho, ainda na flor da idade e das suas capacidades, nome dado devido ao fato inconteste de seu rabo haver sido cortado desde tenra infância, e assim aprendeu a zurrar com afinação e musicalidade, viagem de conhecimento e aventuranças:


Bem-aventuradas as cigarras que cantam desatinadamente, enquanto as formigas trabalham para o sustento de suas vidas em pleno inverno, enquanto os escravos da senzala vivem de chibatadas e comem os restos do patrão que só pensa em êxtases, volúpias e diversão no bordel da Mota;


Bem-aventurados os bodes que no crepúsculo passeiam na Fonte Luminosa, sob os olhares de todas as classes sociais, todas as laias e estirpes de homens, desde os idôneos aos cafajestes, desde, estes, os Viminhas e Albertinhos, desde, aqueles, os Constâncios e Müllers, prato-feito para as colunas sociais dos tablóides sensacionalistas e amorais, para a satisfação dos tesões e alívio das tensões;


Bem-aventurados as éguas que esperam os seus cavalos marchadores, indumentados de sela de fina qualidade, de freio de ouro, rédeas de nylon, rabos bem penteados, pelos bem escovados e lindíssimas ferraduras de prata genuína, verdadeiros tesouros para as retinas e pupilas, para o desfile divino e maravilhoso na Parada de Sete Setembro, no Largo Dom Sigaud, ao lado da Praça Cônego Garcia, ambos considerados a nata fina das canalhices e sujeiras dos princípios cristãos e humanos, sob as palavras lindas e culturais no alto-falante, pronunciadas pelas autoridades e personalidades, até mesmo dos editores-chefes dos tablóides sensacionalistas e medíocres, enquanto são elas aplaudidas pelo rebolado estético e ético ao lado da marcha de seus companheiros pelo povão;


Bem-aventurados os camelos que atravessam o deserto do Saara, levando os seus donos para a feira árabe, enquanto os sábios e profetas, facas da noite, meditam e refletem sob o caminho da humanidade em plena época de mudanças e transformações de todos os valores e virtudes, que se vingam do futuro em pleno tempo de violências e corrupções, em esplendoroso instante de transição;


Bem-aventurados os tatus que cavam seus próprios buracos, escondem-se dos caçadores e seus cães amestrados, enquanto os grandes da sociedade escondem seus rabos presos nos buracos do poder aleatório, nas cavernas da Granja do Torto, nos buraquinhos e frestas da esperança de 50 anos em apenas cinco, nas grimpas deixadas pela ditadura militar, espiritualmente chamada de Revolução;


Bem-aventurados os cães que aprendem a voar de helicóptero para realizarem as tarefas que os temores, medos e incapacidades dos militares impedem, para terem direitos inalienáveis de se alimentarem da boa e apetitosa ração beneficiada pelos cofres públicos, para ostentarem no pescoço coleira de ouro ad-vinda da escravidão;


Bem-aventurados os escorpiões que se matam, quando o fogo é colocado ao seu redor, enquanto os homens de raça utilizam-se dos fogos da liberdade para defenderem os seus interesses de luxúria e ganância, para justificarem suas ilusões de poder e glória ad-vindos da alienação do povo e das multidões, os “meios justificam os fins”, como já dizia Maquiavel;


Bem-aventuradas as galinhas que fogem dos galinheiros para nas calçadas de ruas e avenidas catarem grão a grão o que lhes encherá a pança, garantirá a tranqüilidade do sono nos paus dos poleiros, a manhã de ovos frescos para a alimentação da família, e ainda em estilo americano o bacon para aguçar o paladar eivado de toda a plena satisfação, durante o dia apenas o assédio dos galos de afiados esporões;


Bem-aventurados os jacarés que se refestelam à beira dos rios, sob sol escaldante, dormem a seren-itude dos séculos e milênios, enquanto as piranhas aos bandos querem apenas as migalhas do colchão de boi, sentem-se satisfeitas e realizadas, enquanto a Providência Divina não lhes alimentar com o de todos os dias pão;


Bem-aventurados os calangos que sobem nas pedras, erguem as cabeças, desfrutam o panorama do sertão, enquanto os jagunços subnutridos e esfomeados comem rã assada com a digníssima cachacinha de seus garrafões de aperitivo, pela estrada levados na sela do corrimão, momento mais que propício para a digníssima comemoração dos macacos deixados à beira dos sem-confins e arribas dos estradões;


Bem-aventurados os gatos que se aproveitam de suas perspicácias e habilidades para subirem no telhado de todas as mansões e casarões, de todos os casebres, para apreciarem a noite de estrelas brilhantes, lua cheia, para fugirem do cão que está se coçando para lhes pegarem, enquanto o elefante se empina apenas com o instinto da presença de um ratinho de esgoto mais que desnutrido, enquanto o juiz, sentado na cadeira de seu escritório, luz de abajur, reflete sobre a liberdade, absolvição de um traficante de influências no alto escalão da política, se não o absolver será ele que será encontrado nalgum terreno baldio com a boca cheia de formigões, e pode ainda viver longos anos, desfrutar as felicidades todas do paraíso judicial e fiscal, enquanto o poeta, roendo as unhas, procura por única palavra para fechar o poema de suas desilusões amorosas, enquanto o escritor, sorriso de orelha a orelha, comemora os elogios por haver escrito que a terra descansa no calçadão;


Bem-aventuradas as baratas que zanzam pelos corredores do poder público, deixando as funcionárias de cabelinhos eriçados, pedindo, rogando, suplicando demissão, ficarem livres e tranqüilas, poderem se deliciar com um sorvete francês de baunilha, da “chaninha!” mais que resfriada, mais que congelada, esperando a carícia da língua pontiaguda, só com muita fé e esperança restituindo o fogo, subindo nas mesas, nas paredes, encontrando refúgio nos tetos dos gabinetes e nos oratórios dos salões de plenário, enquanto as andorinhas em seus devidos habitats, aqui e ali, preparam-se para a travessia dos céus em direção à seren-itude e plen-itude dos horizontes e uni-versos, de toda a nação e país em bando, sendo prazeres de todos os homens que andam tensos ou descontraídos, grandes problemas na mente, memórias e lembranças, recordações, que nem Gregor Samsa seria capaz de dizer palavras que impedissem a sua irmã de varrê-lo com a vassoura porta a fora;


Bem-aventurados os pernilongos, que enfernizam qualquer ser humano pelas noites e madrugadas, deixando-lhes coceiras em todos os lugares de seu corpo, enquanto os mosquitos e moscas sobrevoam o lixo da cozinha das celebridades di-versas da história política da nação, o balcão dos açougues, as mesas dos barzinhos de pratos-feitos;


Bem-aventuradas as pulgas amestradas que, no picadeiro dos circos, extasiam as crianças de risos e os adultos de lágrimas, enquanto a comunidade inteira canta de galo nos bastidores da sociedade e sobrevivem de migalhas e esmolas da história escravagista, enchem a pança de grãos dos heróis dos poderes ad-jacentes e da alienação;


Bem-aventurados os bichos-preguiças que levam décadas para atravessarem o caminho dos escravos de lado a lado, assistindo aos safos naturais casados e divorciados em plena di-versão, enquanto a luxúria dos governantes atravessa todos os limites e cancelas do bom senso e razão, enquanto a ganância dos empresários atravessa os confins dos interesses e ideologias, enriquecem com os réis do povão;


Bem-aventuradas as minhocas que vivem e sobrevivem de por baixo da terra, enquanto os vermes humanos se entrelaçam nos atos espúrios dos interesses, nas atitudes indecentes e vulgares das ideologias em nome da riqueza de poucos e a miséria das multidões;


Bem-aventurados os bernes que se escondem na carne dos bois e vacas, protegendo-se dos raios solares e das intempéries da natureza, enquanto os parasitas humanos vivem do sangue da bílis dos pobres e miseráveis das comunidades de base, das favelas nos morrões;


(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE JANEIRO DE 2018)


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