#AFORISMO 519/NA SINUOSIDADE DIALÉCTICA, PERCEPÇÕES, CONSIDERAÇÕES À CARACTERIZAÇÃO DO INDIVÍDUO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO/SÁTIRA


Diz a sabedoria popular – que, aliás, concordo e endosso em todos os gêneros e espécies da consciência e inconsciência, dos instintos simples e elevados – se conselhos fossem bons, dessem os resultados esperados, surtissem os efeitos desejados, não seriam mesmo dados, doados, sim negociados e vendidos, que aliás endossam a refinada inteligência e visão da vida e realidade, e embora a minha concordância e endosso, aplausos e encômios aos que assim pensam e são capazes de jurar com a mão direita sobre o Livro Sagrado, Constituição Brasileira, ouso dizer algumas palavretas que se me a-nunciam serenas e leves à mente que podem com perfeição servir de bússola para as direções inúmeras do caráter e da personalidade. São conselhos à sorrelfa de ventos amainados, visto que não desejo de modo algum sustentar e ostentar empáfias de valores e virtudes, nem dar às minhas mãos ligeiras nem um só fardo, pois ele, à noite, vem à minha casa conferir meu peso, cheio de ira, e com a mão mais dura, como se fosse sua criatura, arranca-me do meu molde com desprezo, desde tempos imemoriais vivo cada instante de minha vida à busca deles, sinceramente não os encontrei inda, talvez porque amanhã serão distúrbios da psique, serão doenças da alma e do coração, ou simplesmente coisas absurdas e obtusas, das que quem as revela é caguincho notório.


Confiai vós, homens de todas as índoles e idoneidades, em quem nos banquetes 0800 rasga todas as sedas na solidariedade e compaixão, na amizade e amor dos que educam e ensinam os conhecimentos inesquecíveis e duradouros, eternos e universais, porque vos será oferecido de gorjeta ou brinde compota de doce de abacaxi, ser-vos-á levado um pouco dessa delícia da culinária para comer e sentir os prazeres dos deuses do Olimpo, e depois, com a pança cheia, logo pela manhã, ao chegarem ao serviço, descem o sarrafo em todos os que se entregaram de corpo e alma aos sonhos das ciências e das artes, era um modo de não serem inúteis e imprestáveis às verdades de seus tempos e templos.


Acreditai vós, indivíduos de todas as laias e estirpes, em quem elogia todos os vossos princípios, lemas, atitudes e ações, em todas as vossas palavras, que foram acumuladas ao longo das experiências verdadeiras e ambíguas, das vivências em situações complicadas, em sofrimentos dilacerantes, e depois, de preferência, não pelas costas, como está escrito e inscrito no figurino das traições, mas à luz do que há de mais obtuso, na alcova dos encontros íntimos, dizem que sois indivíduos sem qualquer senso de razão ou sensibilidade, sem qualquer percepção do belo e do absoluto, sois verdadeiros zero à esquerda em tudo, desde o ato de nascimento ao ato de “morrimento”, nada sois, em verdade. E por que deveis acreditar neles impiamente? Porque as verdades deles, os juízos que fazem, as críticas que expressam, os sarcasmos que emitem são frutos e experiências de suas incapacidades de sentir e con-templar os horizontes do nada, as perspectivas do buraco negro, os ângulos do uni-verso às voltas com o chinfrim e insosso.


Sintai bem profundo em vós, cônjuges de todos os amores e concupiscências, o que é isto, no inverno, com neblinas sobre as montanhas, dormir em camas diferentes e quartos outros, durante o inverno, não fazendo jus “ao cobertor de orelha” que tendes à dis-posição em toda a madrugada, seguindo os ponteiros de segundos e minutos do relógio na parede da sala de visitas ou da cozinha, onde as guloseimas de fino paladar são preparadas a critério e rigor, de preferência sem cobertas, cobertores, como vieram ao mundo, e só permanecereis longe disso devido à tradição de que a intimidade deve ser ocultada e omitida, porque a nudez do corpo irá mostrar-vos a verdadeira face da carência e solidão, e assim em todos os olhares das neblinas, sobre as montanhas e serras, estarão sempre presentes as maledicências.


Percebei nos interstícios de vossas almas, nas pré-fundas de vossos espíritos, as lágrimas verdadeiras pelos sofrimentos dos íntimos e amigos bem próximos ao coração, mesmo que vos pareçais serem paradoxos dos instintos, exageros das idéias e conceitos, porque, assim, vos serão a-nunciadas as vontades e desejos profundos da verdade e do absoluto, vistos à luz dos instintos despirocados e ensandecidos.


Vislumbrai as luzes da seriedade e sinceridades, sob as palavras verdadeiras e absolutas, eternas e uni-versais da Vida, e con-templai todas as hipocrisias e falsidades, farsas, pois que elas irão em todos os tempos e templos id-ent-ificar o que trazeis em vós dentro, o que há de mais esplendoroso e iluminado nos interstícios de vossos instintos; ambas, as palavras verdadeiras e as hipocrisias, com efeito, serão as sementes fresquinhas e férteis para os frutos deliciosos das ambigüidades do nonsense e hilário, sendo assim o itinerário garantido para as belezas da metafísica e do espírito, não havendo mais com o que vos preocupardes de sandices e des-equilíbrios do coração e mente.


Entre(cruzada) a consciência pulha. Espectro personalizado entre(devorado) assassina. De águas as dores pungentes utilizam. Não preenche. Idéias novas nas lacunas ludibriam. Ruídos. A defenderem a lama. Não vive. Horas usa.
Encontros ofertados. Evangelhos que não lê. Rouba. Não admite. Falhas simula. O que resta de inteligível imbeciliza.


Pranto que não encobre. Negligencia. Belo das águas. Estupidifica. Ética. Kambaia. Gritos sem culpa. Rosna. Esperanças de medo. Engole. Cerrações sombrias. Paz. Tomba. Insanos gostos. Desvairada fumaça. Lucifera. Corcéis sem fogo. Lega. Tudo. Imbeciliza. Dias cingem da alegria porções. Por que não sorrisos aliterando deuses? Arames coscuvilham nos paralelepípedos amores.
Amanhã por hoje as correntes.


Dissimulai, enganai, fingi, fechai os olhos aos defeitos dos amigos, ao ponto de apreciardes e ad-mirardes grandes vícios como grandes virtudes. Acrescentai, com serenidade, de preferência com os olhos rasos d´água, que a loucura é a única que cria e conserva a amizade, e esta, a tradição milenar já cunhou, só existe entre uma caveira e outra caveira. Quase todos os homens são varridos de pedra; mas por que quase todos? Seria que me estivesse esquivando da generalização, que é um dos mais divinos distúrbios da razão e da sensibilidade? Seria que estivesse simplesmente tentando amainar? Nada disso, posso garantir-vos. É que não há quem não faça suas loucuras e, a esse respeito, por conseguinte, todos se assemelham; ora, a semelhança é justamente o principal fundamento de toda estreita e refinada amizade. Não vos esqueçais, no entanto, de apreciar e ad-mirar as vossas grandes virtudes e insofismáveis valores, aí tudo se encaixa, como dizem os mineiros, direitinho.


Roubai à vida a quem desgosta de si mesmo, persuadiu-se de que nada poderia fazer de belo, gracioso, decente, languescei o orador em sua declamação, inspirai piedade ao músico com suas notas e seu compasso, vereis o cômico vaiado em seu papel, provocarão o riso o poeta e as suas musas, o melhor pintor não conquistará senão críticas e desprezo, morrerá de fome o Zé com todas as suas receitas, em suma Nereu aparecerá Tersites, Faão como Nestor, Minerva como uma porca, o eloqüente como um menino, o civilizado como um bronco. Por tanto, assim vos digo, é necessário que vos elogiais e aduleis a vós mesmos, fazendo a vós mesmo uma boa coleção de elogios, em lugar de cobiçar os de outrem.


Devo calar-me? E por que devo calar-me, se tudo o que vos estou aconselhando é mais verdadeiro que a própria verdade? Se não se trata disso, peço-vos ajudar-me a me dirigir às Musas e pedir-lhes que me auxiliem, dispondo-se a vir de seu Helicão até a mim, tanto mais quanto os poetas tantas vezes cometem a indiscrição de fazê-las descer por meras frioleiras, o gibi das frioleirices está crescendo bastante, ultrapassará a hegemonia do Guiness. Vinde, pois, por único instante, ó filhas de Júpiter, pois desejo mostrar com eficiência que a sabedoria desses conselhos se chama o baluarte da felicidade, só acessível aos que são orientados pelos paradoxos da ambigüidade e do sarcasmo, pelos heterodoxos da ambivalência e do cinismo, pelos oxímoros da dubiedade da vaidade re-vestida de ironias.


Esmerai na pintura do rosto, passai a vida diante do espelho, arrancai fios brancos de barba, ostentai seios flácidos e enrugados, cantai com voz rouquenha e hesitante para despertar a lânguida concupiscência, bebei à grande, como um fósforo a arder antes que cresça a flama, distendendo em raios brancos suas línguas de luz, assim começa e se alastra ao redor, ágil e ardente, a dança em arco aos trêmulos arrancos, intrometei-vos nas danças das mocinhas virgens e desoladas, no forró das divorciadas e encalhadas, como se fosse um feixe aceso, colhe o fogo num gesto de desprezo, atira-o bruscamente no tablado e o contempla, ei-lo ao rés do chão, irado, a sustentar ainda a chama viva, escrevei cartas amorosas, de preferência inspiradas no romantismo de primeira fase – assim as velhas raposas agem para dar coragem aos seus custosos campeões.


Notai, en passant, o privilégio que tem os bobos de poder falar com toda a sinceridade e franqueza. Haverá, pergunto-vos com os olhos perdidos nas montanhas cobertas de neblina, suspensos no vazio, coisa mais louvável que a verdade? Se bem que o provérbio de Alcebíades diz que a verdade se encontra no vinho e nas crianças; tudo o que o tolo encerra no coração ele o traz também impresso na cabeça e o manifesta em palavras.


Estabelecei, artigo por artigo, quantos círios e quantas velas devem arder nos funerais dos corruptos, hipócritas, falsos, dos políticos mesquinhos e medíocres, quantas pessoas vestidas de luto, quantos músicos, quantos carpidores devem acompanhar o féretro, como se, depois de mortos, duros e quase fedendo, ainda pudessem conservar alguma consciência para gozar o espetáculo, a homenagem a eles feita pela idoneidade de seus caráter e personalidade, ou soubessem ao certo que os mortos costumam ficar envergonhados quando os seus cadáveres não são sepultados com a magnificência exigida por seu próprio estado, especialmente os políticos ficam aborrecidos porque não deixaram o Estado se enriquecer com a labuta encarniçada do povo, e não foram reconhecidos e considerados por atitudes tão nobres.


Descendo as cortinas, num fecho, quisera homérico, dizer ipsis verbis que sou um arquiteto de ruinas; vou às ruínas de Atenas e depois ao teatro assistir o Fantasma da Ópera, depois aos cartórios de divórcio consensual, onde os cônjuges se vangloriam de amadurecimento tão esplendoroso, abraçam-se e beijam-se como o fizeram na lua de mel, despedem-se e...


(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE JANEIRO DE 2018)


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