#AFORISMO 525/AO REFULGIR O SOL NO MAR# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


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Encontro-me a um passo de exceder os absurdos acumulados da carne - uma sensação mista de culpa e profusão - e nada é capaz de dominar os ímpetos de entrega, as volúpias da rendição.


Quero-me em nível


da duplicidade carne/desejo,

                                            ambigüidade corpo/vontade,
do paradoxo desejo/fracasso,                             
                                da contradição medo/coragem,
                                         da dialética eterno/nada,
e nada mais
                             obstacularizando os ímpetos
       de um clímax
                              eterno e efêmero.                                                   
Sensações unívocas e equívocas de uma angústia, obtusas e oblíquas de uma nostalgia, tomando as rédeas da claridade, evidência, emergem lúcidas do fosso dos desejos constantes de prazer e astúcia. Sou uma miríade de sentimentos a transbordar-me, exceder-me, ultrapassar-me, suprassumir-me, e caminho consciente pelas veredas da vontade de interação.

Penso, ao refulgir o sol no mar; penso, ao ver fluir no rio o luar, penso, ao perscrutar a neblina se esvaecendo no alto da serra. Na poenta vereda do horizonte, vejo o trilho, enquanto à noite, sob a ponte, dorme o pedinte, sobre papelão, coberta esburacada.

Ouço as ondas do som, quando a vaga vence o penhasco rude; quando na floresta o silêncio é plenitude. Posto o sol, com o céu cintilante, sinto saudades, sinto melancolias.


                                Silencio os silêncios
                                Do tempo, ventos
                                O recôndito da alma
                                Ouço suave, pura leveza
                                O pulsar do coração escuto
                                Comedido, sentimentos do ser
Sob o símbolo no espaço, figura exalta pontos de luz,
No cume do Gólgota, apagou para o mundo
Não a divinidade do amor,
expressão manifestada na cruz.
                              O silêncio é plen-itude
                              O desejo, compl-etude
                              A solidão, seren-itude
                              O amor, itude do ser
                              O ideal, ampl-itude
                              O sonho, solenitude

Emoções espelhadas numa congruência fácil e espontânea de carícias e ternuras colocam-me livre e escravo de vontades nunca dantes nem mesmo imaginadas, fazem-me consciente e alienado de utopias de que antes noções frívolas tinha. O medo excêntrico dos absurdos da carne, vividos na cabeça do tempo, no coração do vento, faz sobreviver um refúgio, faz viver uma fuga, e o mergulho na insatisfação. Surgida da insaciabilidade, a impetuosidade de uma lembrança de sangue a jorrar nas veias da razão, um confronto da esperança e a angústia do inominável. Mergulho-me fresco e volúvel nas ondas do ímpeto de uma metamorfose viva, a engolfar-me, retirando-me fundo das obscuridades dos sentimentos ambíguos. Sou impetuoso, de modo a rasgar-me as vísceras dos sentimentos de ternura e carinho pelo viver o mundo, intransigente, de modo a dilacerar as entranhas de idéias e pensamentos.

Há de ser uma estrada de amarguras a vida. E andá-la-ei sozinho, vendo sempre fugir o que aspiro, disse-me um dia uma estranha cartomante.

Etern-i(s)ciência da sabedoria eivada de eidéticas essências do não-ser dos prazeres e ex-tases dos esplendores, maravilhas, magias, estesias e ex-tases paradisíacos, o nada, o vazio, as nonadas são sementes e húmus para a viagem às linguísticas e semânticas das utopias do tempo de ser a vida projetada, trans-cendida, trans-elevada à mesmidade espiritual, antes de quaisquer "aléns" o vir-a-ser do aquém genesiando os éritos das memórias in-conscientes, impulsionando as iríasis das sorrelfas às sarapalhas do sem-fim-sem fim?, não princípio eivado de todas as liberdades e livres-arbítrios, o ser.
Efemer-itudes de ocasos. Teremos no olho aquela imagem do nada seduzindo o vazio exilado na noite de lua cheia, lobos uivando nalgum recanto da floresta. Teremos na alma aquele solstício da angústia enamorada da saudade, do apocalipse profetizando o inaudito do caos, mistério do nada, enigma do vazio, evangelho do In-finito, enquanto o genesis semeava a semente do cosmos. Teremos no peito aquele verbo do sonho de sentir o absoluto configurado de nonadas, des-figurado de etern-idades, pre-figurado de esperanças e utopias no in-trans-itivo verbo "ser".

Havia um pássaro na árvore do quintal cujo trinado ecoava melodioso e rítmico, despertando no abismo da alma os sons do eterno metrificado de líricas e, ouvindo o trinado, musicalizava as estrofes da esperança concebendo o tempo do amor, tempo de ex-tases do desejo e querência do belo e da beleza.

Saltitava-me, às cinco e meia da manhã, de alegria, felicidade, contentamento, gozava o instante-limite do espírito, às volta com os sons do in-audito uni-verso da poiésis das plen-itudes do verbo "con-templar" o poema do silêncio. Fluía livremente na éresis do ser-para o nada, ser-com o mistério as verdades carentes do divino.


(**RIO DE JANEIRO**, 08 DE JANEIRO DE 2018)

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