#AFORISMO 528/MAGIAS DA SOLIDÃO E SILÊNCIO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
A entre-laçarem-se num sussurro, a volúpia e a palavra, todo o
sentimento da vida cabe na pequenez de corações, no porta-jóias intocável do
sentir raios de sol - numinosas esperanças de entre o genesis o verbo amar e
continuidade do ser amor re-fletem no olhar ao longo a bela sinfonia universal.
Os ponteiros do relógio continuam seguindo a trajetória do tempo, das
horas. As horas passadas não re-tornarão. Não se chega ao Éden voltando ao
genesis, sim seguindo em frente. Ergo-me, e, os olhos quietos já volvendo,
perscruto por saber onde me acho, e a tudo no lugar sinistro atendo. A verdade
é que então na borda estou do vale desse abismo doloroso, onde brado de
infindos ais troo, trovo.
Até onde vai o caráter pers-pectivo da existência, ou noutras palavras,
tem ela mesmo outro caráter? Uma existência sem interpretação, sem
"razão", “motivo”, não se torna precisamente um absurdo? Uma vez que,
por outro lado, toda existência não é fundamentalmente {inter}-pretativa, isso
não pode ser decidido, como seria necessário, pelas análises mais zelosas do
intelecto, as mais pacientes e minuciosas intros-pecções, pros-pecções,
circuns-pecções; desta forma, o espírito do homem, no decurso destas análises,
não pode impedir-se de ver a si próprio conforme a sua pers-pectiva e somente
nela. Enxerga-se um palmo além da ponta do nariz, a existência dobra as curvas
que levam ao pico da colina.
Quero {com}-preender, quebrando estéreis regras, dogmas, princípios, a
vida fenomênica das Formas, que, similares a fogos passageiros, a achas ardentes
luzem... e apenas encontro, na idéia gasta, desbotada, o horror dessa mecânica
nefasta, a que todas as coisas se re-duzem! É provável que o coração mortifique
o quimérico, espicaçando-se com o padecimento ou apavorando-se com o
fenecimento... Não olvido, contudo, de que devir será distinto dia, o trilho
ache-se à minha espera, pé na via, instale uma quimera na alma, crença no
coração e expectativa na mochila, a existência se atufa de originalidades para
os que se arriscam na jornada que orienta a verídica independência.
O esquadro disfarça o eclipse que não desejo enxergar. Não há música
aparentemente na citara guardada em segredo, só dele sendo retirada em
silêncio, só dedilhada na solidão dos sonhos e quimeras, nos violinos fechados
nada há de enigmas, há magias em caracóis nas cordas. Cobre-me a fria palidez
do rosto o sendal da tristeza que a desola; chora – o orvalho do pranto
perola-me as faces maceradas de desgosto, ressentimento, mágoa. Fazer qualquer
quefazer, e o do ser, com a incorrupção da reta, dar a tensão ao que se faz da
corda de arco e a retensão da seta.
O mundo voltou a tornar-se infinito, no sentido em que não lhe posso
recusar a possibilidade de se prestar a uma in-fin-idade de inter-pretações. Em
funda soledade minh’alma se re-colhe tristemente, para iluminar-me a alma
descontente, a-colhe-se reflexiva para acender o círio triste da Saudade,
ascender a música suave das quimeras do Encontro.
Talvez não ser é ser sem que eu seja, sem que vá cortando o meio dia com
diamante transparente, sem que perambule mais tarde pela neblina e pelas sendas
da montanha, perscrutando-lhe as magias, sem a luz que levo na mão que, talvez,
outros não verão dourada, quiçá ninguém tenha sabido que crescia como a origem
dos sentimentos a envolverem os ideais. Sei que cheguei ao pé da montanha, onde
o vale se extingue, deixando-me em solidão tamanha, e vejo que o ombro do monte
aparece vestido já dos raios do planeta que a toda gente pela estrada guia.
Então a angústia se cala, secreta, lá no lago do peito onde imerge a noite que
toma minha alma inquieta.
Nítido re-verso de in-versos conhecimentos e sabedorias, cânticos do
sagrado em bíblicos desejos espirituais do amor e ressurreição à luz de imagens
e paisagens, re-fletidas e incididas, no limiar de todas as esperanças e de
todas as fés no pleno e plen-itude de uma cultura e arte que se abrem às
estrelas e à lua do SER, DIVINO.
Circunstâncias há nas circunstâncias das circunstâncias que as
circunstâncias não se emudecem, não se calam, não se silenciam, circuns-pectas
vivem, intros-pectivas trilham os caminhos, não de melancolias, nostalgias,
saudades, sim buscando, desejando alguma situação que tudo possa re-verter,
re-vestir-se de outras luzes que brilhem seus sentidos, mesmo que ao redor
pro-jecte sombras, e nelas se re-velem agonias e ansiedades, re-tornem aos
sentimentos singelos, suaves, puros, inocentes, ingênuos diante do tempo,
quando, alegres e saltitantes, alçam voo nas asas dele, aquele friozinho
gostoso no coração, a alma sarapalhando-se de felicidade e prazer, as
maravilhas do uni-verso completam os volos da beleza universal, eterna. Não
desejo emaranhar o fio de minha linha nem que se enrede no hirsuto destes
sentimentos que me roçam levemente. Interromper minha linha? Ao menos até que
as águas de uma invernia próxima me levem direto ao mar ao refazer sua rotina?
E lá vão as circunstâncias nas asas do tempo pelo uni-verso a fora - quê
espetáculo divino, esplendoroso!
Os efêmeros mergulham-se profundos no abismo das in-cont-ing-ências,
esvaecem-se, o nada livre e solto dançando Tango e Fado no In-finito com as
musas do eterno, da eternidade, no palco do in-finito, in-audito, lembranças
sangram-me o peito, mas me alimenta a vida; a grande peça do perpétuo sendo
encenada pelos querubins, deuses e imperadores degustando, desfrutando banquete
de ovelha, regado a vinho, enquanto assistem às esplendorosidades dos talentos
e dons das sereias. A alma crepuscular de minha raça como uma vocação para a
desgraça e um tropismo ancestral para o Infortúnio, tropicalismo uni-versal
para os desejos da fortuna. Como quem ora quer, ora despreza, minh´alma a
idéias novas tem disposta, mostrando aos seus desígnios estranheza, assim faço
na tenebrosa encosta, porque, pensando, cogitando, abandono o intento, formado à
pressa, que ora me desgosta. É de mim que decorrem, simultâneas, a saúde das
forças do espírito subterrâneo e a morbidez dos entes ilusórios!
(**RIO DE JANEIRO**, 09 DE JANEIRO DE 2018)

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