#AFORISMO 516/DONS PARA CACAREJAR LIBERDADES# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Epígrafe:
"Na obra literária, a palavra é a sua evidência de obra
literária."
Arde-me no corpo a angústia do exílio, queima-me. No sangue, a vertigem.
Ser ali inteira na consciência. Igual a mim e tão abandonada. A serpente da
tarde ergue-se, insanamente, do fosso. O escorpião da manhã ascende-se,
loucamente, do amiúde. A abelha do crepúsculo zune ininteligivelmente. Engole
todo o diâmetro. Vomita arestas esfiadas. Deitadas ao comprido da tampa.
Sonho-me deusa, porque só um respeito imortal justifica-me, só uma ética
uni-versal explica-me. Os deuses vão-se, as feras vêm.
Respiro. Exibo, muda, o heroísmo sinistro, o eterno cinéreo, o absoluto
purpúreo.
... escapar. Olhos conservados a sério. Des-unidos. Extrospectivos.
Des-fiam a morte, des-afiam o tempo. Organizam e imergem sombras, brumas,
trevas. Sinal en-roscado de reflexões, de pensamentos en-caracolados, idéias e
ideais ao estilo ninho de guaxo. Mão de ferro a que o nada ríspido, rude,
grosseiro, rígido... Mão de cobre a que o abismo ininteligível, duro, frio,
áspero... Sorrisos descobrindo dentes podres. Bocas abertas, a língua em
movimentos acelerados, dizendo palavras rasgadas, retalhadas, os verbos íntimos
agonizando de tristeza e angústia. Após a morte da lembrança, esquecimentos.
Após os esquecimentos, outras visões do tempo e ser. A desgraça e o abandono
seguem até o entorno da alma se quebrar em ais. Devaneio de preguiças. Instinto
de fantasia. Sensações de devaneios. Curiosidade sensual. Aspecto amarrotado de
ceticismo. Perturbador. Vicioso.
Ilusões imergem.
Desvario passageiro, fugaz, entre as mãos, re-duzido ao destino que
precede mal ao pescoço que o puxa sempre mais para baixo, a-duzidos às sinas
que ultrapassam as con-tingências, o tempo. Esgares sem palavras. Palavras sem
luares esplendendo cintilâncias obscuras, ensimesmadas. Recorrem com um zelo
arrebatado a carniça dialética e a vontade dos carrascos, a decomposição
efêmera e o desejo incólume dos juízes. Torno-me às trevas infernais! Não deixo
pena que ateste a mentira que disse! Minha solidão me reste! Tiro o vulto de
meu peito e a sombra de meus umbrais! Deixo-lhe vazio à claridade do mundo.
Tudo mais é excesso. Inútil. Cansaço. Insônia. Verdades que explicam. E
o medo. Vem de mais longe que o silêncio. Aí estou. Ouço-me aí. Só se tem medo
do medo.
Línguas amortalham nuas o sorriso fúlgido a filtrar evidência entre
palavras. Escoadas pelos dedos. Evaporadas (...) asas. Nada. Rebento-me de
estafa nesta ascensão de penitência. Resvalam-se pés no cascalho.
A realidade sorna incontestavelmente o pequeno mundo. Fora o duplo
látego da perdição. Terra esquecida. Mergulho na memória. Extensão de sangue.
Rebrilho intenso no intrínseco ganido, atrás das sombras.
O eco significa bastante. Indica que a humanidade se renega e os homens
não podem sair nem atingir os limites. O sussurro fornica todos os dons para cacarejar
liberdades. A luz lança-me a tristonha sombra no chão mais e mais. E a
minh’alma dessa sombra que no chão há de mais e mais, libertar-se-á… nunca
mais!
Obediência.
Obcecada por virtude mosta, exploro os costumes e provérbios. Carinhos
disparatados. Ternuras atabalhoadas. Entregas sarapalhadas de nonsenses.
Respeito disperso. Espírito distante. Esforço vivo para envolver de dentro as
reservas lançadas ao abstrato e à totalidade, labuta insofismável por
des-envolver de fora as tradições projectadas ao in-audito e in-visível.
Ilusões imergem.
Olho um papel amassado no chão; por assim estar, as palavras escritas
nele foram assemelham-se ao estilo de Van Gogh. Estou bem só. Virada para o
futuro. Não dou por mim que enxugo mal os sonos no ouvido. Enxergo mal ao
longe. Miopia. Marcha infernal. Tripudio sobre a ignorância e a mediocridade.
Blefo com a hipocrisia no jogo das virtudes. E a hipocrisia ressente o
não-entender as intenções com o blefe, joga às esparrelas as mazelas vestidas
de sinceridade, seriedade, re-vestidas de sentimentos de solidariedade,
compaixão, rio-me às soltas, estremece-se nos gestos com as cartas, perder não
é a questão, esta é procurar realizar jogadas inteligentes... manter o nível da
"partida."
É possível haver uma síntese entre a nossa consciência única e
irredutível e a noite do não-saber.
Paradoxo cruel. O que irrompe pelo sono. Ergue a perspectiva sem limite.
Declaro-me, eu - a palavra-, obstinada contra o verbo.
Exijo os soberbos sentidos que fazem da ínclita arma o lançar ao sincero
e voluptuoso.
Explicar. Rastejar. Seduzir. Segurar. Nada vivo e úmido. A existência,
clímax onde tudo o que existe se processa.
Só. O manto verde e amarelo vem e corta-me pelo limite do grito. O
sobretudo branco e azul some e resgata-me pelo absurdo da audição. A alma que
aterra em olhos de azul o ver errar teu capricho exul no bosque enredo, nas
florestas de engenho e arte, nos nãos que espalma a árvore viva que é espírito
e alma, corpo mente - do mar sem fim...
Na obra literária, a palavra é a sua evidência de obra literária.
(**RIO DE JANEIRO**, 04 DE JANEIRO DE 2018)

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