#AFORISMO 518/DE UMA CAVEIRA PARA OUTRA CAVEIRA# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO MELOPÉIA


Farto de vendavais, naufrágios, chacinas presidiárias, corrupções, boatos, mentiras, polêmicas, fofocas, farto de ver como se des-compõem os homens, bancários e diretores, advogados e engenheiros, políticos e delegados, papas e cardeais, artistas e o povão, farto de mim, de todos, de um tumulto sem vida, de um silêncio sem quietação, de algazarra de vozes sem som, farto de só amizade verdadeira duma caveira para outra caveira, do meu sepulcro para o teu sepulcro?! Eu, que espero e me estorço e luto com ar sem ramos onde não nutro meu corpo, lasso do abraço em vão, áspide aguda. Como quem esmigalha protozoários, meti todos os dedos, carne e unhas mercenários na consciência daquela multidão... E, ao invés de achar a luz que os Céus inflama, somente achei moléculas de lama e a mosca alegre da putrefação. Não fora Raul Seixas quem compôs a música: "Eu sou a mosca que pousou na sua sopa..." Na infância, ouvia minha avó dizer: “Estou farta de ser paraplégica. Estou farta de ficar sentada nesta cadeira dias, meses e anos, faça sol, faça chuva, faça frio”.


Tudo isso cansa, tudo isso exaure, o suor frio corre no rosto a todo instante, haja lenços para enxugar – é só ligar o aparelho de televisão em jornais: crimes, drogas, desastres de ônibus, aviões, corrupções políticas. Estou mesmo de “saco cheio” de tudo. Este sol é o mesmo sol, de por baixo do qual, segundo uma palavra antiquíssima, os tempos são imemoriais, nada existe que seja novo. A lua não é outra lua. As estrelas não são outras estrelas. As constelações, os planetas não são outras constelações, não são outros planetas. O céu azul ou embruscado, as nuvens, o galo da madrugada, é tudo a mesma coisa. Lá vai um para o fórum, defender culpado, enjaular inocente, outro para o consultório médico, prescrever receitas, este vende, aquele compra, aqueloutro empresta a juros exorbitantes, enquanto a chuva cai ou não cai, o vento sopre ou não; mas sempre o mesmo vento e a mesma coisa.


Em tempos verdadeiros de travessias de nonadas ao antes era o mistério, depois o desejo da luz, ao antes era o nada, depois a vontade de tudo ser, ao antes era o verbo, depois o verbo se tornou carne, ao antes da bonança, a tempestade, ao antes da tempestade, a bonança, roda-viva de sentidos, pá-lavras, cata-ventos de metáforas, signos, símbolos na lingüística das raízes imanentes e trans-cendentes do ser e do verbo, do verbo e verso, redemoinho de katharsis e mimesis. Há instantes que estão muito profundos na memória, por mais que se tente lembrá-los é quase impossível.


Pois que vede com os linces, as pupilas, as as íris, o que vos digo em pé neste bujão de gás, nesta feira dominical, todos divertindo-se e comprando, vendendo, e todos vós ouvindo-me, estupidificados, mas atentos, com a minha verbórreia, mas pensativos, introspectivos. Sou um louco?


Tendes o atrativo da beleza, que com a mais divina das razões e mais absoluta das expressões preferis a todas as outras coisas, a todos os outros pensamentos e idéias, a todos os valores e virtudes, pois é graças à beleza que exerceis absoluta tirania mesmo sobre os mais bárbaros tiranos, mesmo sobre insensíveis carrascos e ditadores, mesmo sob os políticos analfas de pai, mãe e betos. Podereis saber de que provêm aquele feio aspecto, aquela pele híspida, aquela barba cerrada, que, muitas vezes, fazem parecer velho um homem que se acha ainda na idade da flor desabrochada e esplendorosa, se acaso não houver a perda dele nalgum covil de idôneos indivíduos, que professam com suas piadas de caserna, suas brincadeiras, suas bobagens, o silêncio e a melancolia.


Gesto ardido, em cujas veias o entusiasmo ilusório prostra morto na areia. Para além da morte, ao inferno dirige-se o corpo que tenha vida. Glup... Glup... Golpes descarregam na paragem as injúrias agonizantes. O peito descoberto torce o exílio sanguíneo. A alma injuriada de mazelas e pitis entorce em ais. O corpo pelo insólito arrasta as míseras perfídias. Tristes penachos nos rochedos da praia, afastados. Um só apelo venera e desonra na ausência da desgraça. Precipitam da garganta as línguas suplicantes. Distância inacabada de assistir a atitudes simples à certeza erguida. No regato, o brilho do sol. Improvisada nas contundências excessivas da indiferença casuística, desliza-se no olhar mesmo a aberta palavra. Preso pelo fundo da pirâmede é o salto do silêncio.


Tudo isso cansa, tudo isso exaure. Não fosse tudo isso o suficiente, a vida é a mais velha, juntamente com os homens, tão logo a vida, de imediato o homem e todas as criaturas de Deus; o corpo dividido em três partes, cabeça, tronco e membros, o corpo dos hipopótamos, dos jegues, das galinhas, o corpo de cada um deles é o mesmo, salvo pouquíssimas aberrações da natureza. O homem, que, nesta terra desgraçada, mora, entre feras, reside, entre serpentes, habita, entre sereias, sente inevitável necessidade de também ser fera, ser serpente, ser sereia. Os deuses vão-se, as feras vem-se. A morte é a mesma para todos: cerimonial de velório, lágrimas verdadeiras e de crocodilo, angústias, tristezas, o fechamento do caixão, quatro homens carregando-o, o enterro, ao lado de um mausoléu sempre várias sepulturas sem cruz; ou são alimentos dos lixeiros da humanidade, em se tratando de animais. No ardor do sonho, que o fronema exalta, encrespa-se, ponteia-se, frisando-se, construí de orgulho, empáfia, soberba ênea pirâmide alta... Hoje, porém, que se desmoronou a pirâmide real do meu orgulho, de minha empáfia, soberba, e quase me esqueciam as vaidades e prepotências, pernosticismos, hoje que apenas sou matéria e entulho tenho consciência de que nada sou! E olho o teto, há uma fresta na telha, um buraco. E vejo-o ainda, igual a um olho, circularmente sobre minha rede. Pego de um pau. Esforços faço. Chego a tocá-lo. Minh’alma se concentra.


Seria que devesse incolumemente referir-me com embófia o verbo "desfiar" ao invés de rasgar, rasgar é exclusivo para os verbos, dizer-lhes, e não usar-lhe como aqui tange? Desfiar é o apropriado, traz no seu bojo o que intenciono dizer com a transparência do diamante originalíssimo. Desfio dos mundos o velário espesso; e em tudo, igual a Goethe, reconheço o império da substância universal!


Tais lamúrias, regougos, casmurrices podem habitar-me, no mais enraizado de minhas pré-fundas, e só neste instante a pachorra deslavada coube-me verbalizar, até com voz áspera, a cor-agem se me revelou por inteira, não fora apenas uma ponta do iceberg, a rouquidão esplende-se por todos os cantos e recantos, vozes agudas e sensatas, indagando-me se mágoas, se as tenho, subjugo-as, com que intenções não as sei, não as conheço, ou disfarço-as, as intenções são de tripudiar... E não há uma alma que me entenda a angústia transoceânica medonha no rangido de todas as enxárcias! Se tais lamúrias são o desejo incólume de ser vítima de algo, de alguma coisa? Não o sendo: o que estou dizendo foi-se esperado por milênios, só agora sou quem verbaliza, todos sabiam desde a eternidade até mim, ninguém dizia por falta ou ausência de cor-agem, por ser risível.


Realizai vós que deveria sentir-me o mais dos mais, a fina pérola do saber, estar dizendo sobre o tédio de ec-sistir, mas, ao re-verso disso, estremeço-me por saber que digo de mim próprio, o que posso saber da alma alheia? Rides à vontade! "Quiçá não sou o tédio?", alguém de vós refutaria ou confirmaria? Quem tendes algo a dizer? Desço-me deste bujão de gás e ofereço-vos para subirdes e debulhardes as contas da língua.


Em quaisquer ângulos que se analisem tudo é velho neste mundo sem cancelas, sem cercas de arame farpado ou liso. Os homens de vinte anos dizem-se jovens, fantasiam tudo, têm namoricos fugazes, vão aos botequins e restaurantes encher a cara, as gatas felizes por se tornarem mulheres, às festas para a paquera, entram na universidade, tornam-se profissionais graduados, com ou sem qualquer eficiência, alguns gênios na pista, intelectualóides de plantão. Os de cinqüenta dizem-se não tão jovens, mas ainda jovens, há muita água para passar debaixo da ponte. Os de sessenta alimentam-se com fulgor de estarem con-sentindo a consciência de que a seiva não se esgota, conscientes da velhice, conscientes da morte, mas regougos de pensamentos e ideais. Os de setenta, oitenta dizem-se velhos, mas não senis, caducos. Esquecem-se de que isto é visto em termos de idade, de estar habitando o mundo, não se lembram de pensar que tudo isto é ilusão, fantasia, quimera, quiçá doidura das bravas: a vida é velha, antiqüíssima. Tudo isso cansa, tudo isso exaure.


Nada sobra ou nota sobre?: idéias, ideais, pensamentos, sonhos, utopias, angústias, tristezas, etc., etc. Ninguém pensa ou quer fazê-lo, é acumular dores e sofrimentos, tédios os mais sublimes e variados, não restando alternativa senão o suicídio em massa, no mundo ficarão só as coisas e objetos, que, ao longo do tempo extinguirão com a ação das chuvas e sol, ou, inda que afigure ser disparate dos mais elevados, arrasou com os limites, a depressão, que, na minha visão e concepção das coisas, depressão é a ausência de convivência com o eu, com as coisas, objetos, com os homens, com as intempéries da ec-sistência, não é uma doença, quem não sabe disso? Tudo isso cansa. Tudo isso exaure.


Deixo-me em estado de reticências... Haveria de tecer, inda que ínfima consideração sobre isto de "estado de reticências", não me esquecendo de o "estado de suspense" ser-lhe oposto, contradictório, dialéctico, não consideração intempestiva, mas suave, sereno como as folhas misérrimas de minhas orquídeas caem como quaisquer outras belas e vistosas, fossem-me dados os olhos, dar-vos-ia uma lágrima pujante de saudade e enternecimento, mas se é "estado de reticências" mister que nada diga, nada considere, nada insinue, as idéias e pensamentos seguem livres, e mesmo porque o distinto leitor iria enfadar-se, pois que ele, o estado de reticências, se não deixa boca para rir, muito menos deixa olhos para chorar.


(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE JANEIRO DE 2018)


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