#AFORISMO 521/NÓ GÓRDIO NO PEITO/INTROSPECÇÃO DA FALA# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Estranho, muito estranho...
Fosse ontem, estaria sentado na amurada de minha residência,
confessando-me em voz alta às estrelas, ao in-finito, mostrando-lhes o nó
górdio instalado no peito, dizendo aos meus fiéis opositores deixar-lhes eu,
solidário e compassivo que sou, as pragas e doenças, a minha coleção de dores,
moléstias e deficiências, fracassos e impotências, recebam inda aquela cólica,
mordendo feito uma torquês, pedras no rim e as hemorroidas, que inflamam no
final do mês. Retornaria ao quarto, apagaria a luz, dormiria - o sono é bom; o
sono eterno, sem precedentes melhor; mas certamente o ideal seria nunca ter
nascido, haver aberto os olhos neste limbo contingente; a vida no mundo, na
terra, é esplendorosa, a desgraça são os homens, como são insuportáveis! -, o
nó górdio elas levaram embora, mas agora, passadas doze horas, não posso mais
dizer coisa alguma, há o sério risco de o mundo ouvir minha confissão.
Fosse ontem, mesmo que nalguns momentos não fosse direto, verdadeiro,
omitisse, trans-literalizasse nuances da dor, escreveria algo, sem qualquer
erudição, ao estilo da vulgaridade dos tempos atuais, até o vulgar clamando aos
céus a morte a existir nestas condições, colocando todos os advérbios entre
vírgulas, neles e nelas a presença dos meus sentimentos, mas hoje não posso
mais elaborar a redação deste modo, correria o risco de descobrirem as razões
destes sentimentos. O meu peito então vai trovejar, relampejar, e trincar os
céus, a minha voz de tenor, no fragor do furacão, os carvalhos secos vão
rachar, os castelos vão desmoronar, velhas catedrais, ruir ao chão!
Hoje só sei que não posso desabafar-me, confessar-me. Tenho de contar
com a benevolência do tempo em retirar-me o nó górdio do peito - só porque
arraso quando arrojo raios, acham que não sei troar, libertar-me da dor que me
está a consumir lentamente. Onde o escárnio e a humilhação se alastram, onde a
flor que flora é logo estraçalhada, onde a podridão seus vermes amealha – teço
e tramo.
Acabo de me sentar no banco da igreja. Fico em silêncio, olhando as coisas
com tanta indiferença, as efígies com tanto desprezo, a confissão não sai nem
intimamente. Apanho os óculos escuros sobre o chapéu, saio da igreja. Ontem,
como sempre fora assim, conversava, contava as minhas coisas em voz alta, pouco
me importando se o fiel no outro banco ouvia.
O show deve continuar. O tempo cuidará do nó górdio no peito.
Estranho. Muito estranho.
(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE JANEIRO DE 2018)

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