#AFORISMO 517/DE UMA CAVEIRA PARA OUTRA CAVEIRA - II PARTE# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Maqnoel Ferreira Neto: AFORISMO MELOPÉIA
Para viver como homem é preciso abster-se de sabedoria. Segundo a
definição dos estoicos, a sabedoria consiste em ter a razão por guia; a
loucura, pelo contrário, consiste em obedecer às paixões; mas para que a vida
dos homens não seja triste e aborrecida Júpiter deu-lhe mais paixão que razão.
A guerra é velha, quase tão velha como a paz: guerra nas Malvinas,
guerra no Vietnã, guerra no Iraque... E agora a iminência de uma guerra da
Coréia do Norte e os Estados Unidos. Os próprios diários são decrépitos. A
primeira crônica do mundo é justamente a que conta a primeira semana dela, dia
por dia até o sétimo em que o Senhor descansou. O cronista bíblico omite a
causa do descanso divino; podemos supor, com qualquer espécie de ignorância que
nos habite, tipo de alienação, que não foi outra senão o sentimento da
caducidade da obra. Deus dizendo, sentado em seu trono: “Agora, vivam o mesmo
por todos os séculos, na consumação dos tempos a caducidade de minha obra
estará por inteira re-velada”.
Repito, que me trariam os diários? As mesmas notícias locais e
estrangeiras, a mulher que matou o marido com duas facadas, porque ele se
drogava e dava-lhe surras constantes, as colunas sociais eivadas de pessoas sem
qualquer importância social, artística, política, científica, retratos de
colunista com personalidades importantíssimas do métier cultural e artístico,
com o mesmo sorriso e olhos brilhantes, dizendo na cara mesma “estão vendo como
sou importante! Minha imortalidade está garantida”, incêndios, notas de
falecimento de deixar caírem o queixo das sete maravilhas do mundo, uma
tempestade daquelas que deixou milhares de pessoas na miséria insofismável, a
crise política de Honduras, do Brasil, o aniversário de jovem, filha de Fulano
e Beltrana, as cebolas do Egito, o carnaval do Rio de Janeiro.
Abro as páginas sem qualquer curiosidade, leio sem interesse algum,
deixando que os olhos caiam pelas colunas abaixo, ao peso do próprio tédio e
fastio.
Antes de continuar com esta verborréia, que, com efeito, não está sendo
entendida por ninguém, se alguém o fizer é capaz de molhar a ponta da língua
com estricnina, conseqüência da consciência do tédio de tudo, do fastio de
todas as coisas, não haver modo algum de re-verter, para isso seria necessário
a vida ser outra, e nunca será, faz-se mister saber a idéia que faço de um
legislador, e a que faço de um salteador. O leitor perguntará: “O que têm as
idéias que ele faz do legislador e salteador com o tédio e fastio, tema,
falácia, que reservei com todo o esmero e acuidade para vos dizer?”; pergunta
mais que percuciente, vale isto ressaltar e sublinhar. O legislador é o homem
deputado pelo povo para votar os seus impostos e leis. É um cidadão – não
indivíduo qualquer, embora seja encontrado às pencas nas câmaras – ordeiro, ora
implacável e violento, ora tolerante e brando, membro de uma câmara que redige,
discute e vota as regras do governo, os deveres do cidadão, as penas do crime.
Advogado mais que conceituado dissera-me que de semana em semana é preciso adquirir
outro livro da Constituição Brasileira, de minuto a minuto outras leis, emendas
são feitas. O salteador é o contrário. O ofício deste é justamente infringir as
leis que o outro decreta. Os gênios e intelectuais mesmos dizem: “lei foi feita
para ser infringida” e o populacho endossa a unhas e dentes. Inimigo jumentado
e juramentado delas, contrário à sociedade e à humanidade, tem por gosto,
prática e religião tirar a bolsa aos homens, e, se acaso for necessário, a
vida. Foge naturalmente aos tribunais, não passam na porta das delegacias, e,
por antecipação, aos agentes da polícia, corre léguas e milhas deles. A sua
arma é um revólver, um punhal, uma faca, pedaço de pau; para que lhe serviriam
penas, a não serem de ouro? Um revólver, um punhal, olho vivo, pé leve, e mato,
eis tudo o que ele pede ao céu.
Convidai um sábio a um banquete e vereis que se tornará um estraga
prazeres por seu melancólico silêncio ou por suas importunas dissertações.
Convidai a um baile e haverá de dançar como um camelo que corcoveia. Levai a um
espetáculo e bastará seu aspecto para silenciar o povo que diverte, obrigando
os organizadores a retirá-lo, como ocorreu com Catão que não conseguiu se
desfazer de seu ar carrancudo
O que dizer daquele que alimenta de fórmulas mágicas e de orações
in-ventadas por um piedoso impostor, vaidoso ou ávido, por meio das quais se
promete riquezas, honras, prazeres, abundância, saúde sempre sólida, viçosa
velhice e, para encerrar, uma cadeira no paraíso, junto ao lado de Cristo!
(...) Quem é mais feliz do que aqueles que recitam todos os dias os sete
versículos dos Salmos pensando desse modo alcançar a felicidade dos eleitos?
Ora, esses versículos mágicos teriam sidos revelados por um demônio, por
brincadeira a São Bernardo
Dadas estas noções mais que elementares, imagine o leitor com que
alvoroço li esta notícia de uma de nossas folhas: “Foi preso o vereador Thalis
Josefino, e expediu-se ordem de prisão contra outros, por fazerem parte de uma
quadrilha de salteadores, que infesta a nossa comunidade”. Acredito terem sido
poucos os leitores que leram essa matéria, se é que há alguém, visto que já
estão enfastiados de tanta corrupção na política.
Sim, essa mistura de discurso e espingarda – não creio seja coisa nova,
até o que não existe, jamais alguém ousou fazer, é já velho: não me consta que
algum vereador tenha feito discurso na tribuna com uma espingarda em mão -,
esse apoiar o ministério com um voto de confiança às três da tarde, e ir
espreitá-lo às cinco, à beira da estrada, nos jardins da avenida Sanitária ou
da Integração, para tirar-lhes o resto do subsídio, não é comum, nem
excêntrica, muito menos rara e inusitada, é única. As instituições
parlamentares não apresentam em parte nenhuma esta variante. Ao contrário,
quaisquer que sejam as modificações de clima, de raça ou de costumes, o regímen
das câmaras difere pouco, e, ainda que difira muito, não irá ao ponto de por na
mesma curul Nero e Pilatos. Vós caís na gargalhada! Tendes todo o direito de
fazê-lo, não o fizesse, acabaria eu por acreditar não haver atingido o
objetivo, desde que tomei palavra para espairecer a paixão avassaladora pelo
nonsense, identificando em todos os níveis possíveis e impossíveis,
transcendentes e contingentes, o mesmo que impera, a velhice de todas as coisas
e da vida mesma. O tédio também é leitmotiv de riso, só que nervoso e
desesperador.
Há alguma coisa nova de por baixo do sol?
Senti-me fora de mim, estupidificado, bestializado. A situação é, em
verdade, aristofanesca. Só a mão do grande cômico grego podia inventar e
cumprir tão extraordinária facécia. A folha que dá a notícia da prisão do
vereador Thalis Josefino e seus comparsas não dá conta de provável confusão de
linguagem que há de haver nos dois ofícios, salteador e legislador. Quando
algum daqueles vereadores tivesse de falar na Câmara, ao invés de pedir a
palavra, podia muito bem pedir a bolsa ou a vida dos presentes. E nada ficaria,
em absoluto, fora do seu lugar; com um minuto de atenção e agilidade se tira o
relógio a um homem, e mais de um na Câmara preferiria entregar a bolsa a ouvir
um discurso de justificativa da corrupção que fora a razão de haverem sido
presos.
Por todos os deuses do Olimpo, caríssimo ouvinte! não há gosto mais
perfeito na terra. A novidade está no mandado de prisão aos legisladores
corruptos – jamais ouvi dizer que algum vereador de nossa comunidade tenha sido
preso mesmo, atrás das grades. Foi a primeira vez que o mandado foi expedido.
Há-de ressaltar um político que na sua gestão criou um presídio. Este político
foi preso, o seu cárcere seria neste presídio. Deu piti para não ser mandado
para lá. Por haver construído o presídio, os presidiários iriam acabar com ele.
Lembrou-me o Dr. Guillotin, quem na Revolução Francesa, criou a guilhotina.
Fora executado nela. A História se repete não com os mesmos fatos. Gargalhei de
deitar no chão e espernear com os pitis do político com medo de ser morto dentro
do que ele mesmo construiu. Fiquei triste, não com a prisão dos corruptos, não
com a corrupção que realizaram, mas pelo fato de que foi uma coisa nova de por
baixo do sol de nossa comunidade.
A própria poesia perde com isto; ninguém ignora que o salteador, na
arte, é um caráter generoso e nobre, e o legislador é que faz leis a favor do
plágio, contra os direitos autorais, contra a liberdade de expressão e
inspiração, contra a sensibilidade; re-criando Voltaire, não é negócio para os
legisladores que as artes identifiquem suas mazelas e corrupções. Thalis – se é
assim que se lhe escreve o nome, neste sentido a liberdade é total e absoluta,
pode-se-lhe escrever Talis, Thális; aliás, já vi, li nota de falecimento com o
nome da pessoa completamente distorcido: Maria Elba Lacerda se tornou Maria da
Silva Lacerda, uma mulher que não se casou, não se divorciou, não teve filhos,
não teve netos e bisnetos, quando tudo isso na vida dela aconteceu – pode ser
que tivesse ganho um par de galochas de grife a tiro de espingarda; mas estou
convencido e persuadido que proporia à Câmara uma pensão ao viúvo da vítima.
São duas operações di-versas, e a di-versidade é o próprio espírito grego.
Adeus, minha ilusão de instante de mostrar aos homens o tédio de tudo que há no
mundo, a velhice da vida, dos sistemas, das idéias, ideais, pensamentos!
Tudo continua a ser velho; nihil sub sole novum.
Nem sempre res-pondo por papéis velhos, falas ou discussões que já
terminaram e haja alguém quem deseja irrepreensivelmente dar milho a bode,
colocar mais fogo nas acha da fogueira, por matérias e artigos velhos, por
idéias retrógradas, mas aqui está um que parece autêntico; e, se o não é, vale
pela falácia, pela verborréia que é substancial, cabendo ao ouvinte apenas
ouvir com os ouvidos, escutar com o cor-ação, não com os olhos da razão e da
galhofa sem limites e fronteiras, mas com a sensibilidade. Se amanhã, depois de
pensado, raciocinado este discurso que está causando em todos risos e
estupefacção, a população resolva vez por todas tocar fogo no prédio da Câmara,
não sou eu o res-ponsável, o culpado, enfim tudo isso é de tempos imemoriais.
E, com efeito, tudo isto cansa, tudo isto exaure.
(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE JANEIRO DE 2018)

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