COMENTÁRIO DA AMIGA VIVIANE FERREIRA AO TEXTO //**PELO LIMITE DO GRITO**//
Bom dia, amigo Manoel Ferreira Neto! Após uma
longa madrugada inicia - se outro dia, em novamente outra obra foi feita. A
noite sempre é solitária em meio aos nossos pensamentos e devaneios. Mas chega
o amanhã brindando com um novo dia, uma nova oportunidade, uma nova esperança,
Viviane Ferreira.
Bom dia, Viviane. Tudo bem com você, querida?
"Pelo Limite do Grito" é teologia. A
Verdade não é um conteúdo a-temporal de que a reflexão se apropria: ela não
existe fora da sua expressão histórica. A fé é "um modo específico de
estar na Verdade", não existe fora do acto pelo qual torna atual a
Revelação. In-versamente, a Revelação, enquanto atualização do Acontecimento da
Palavra, não existe fora da vida cristã: manhã de novo dia, nova esperança.
A expressão particular da Palavra de Derus não é
transparente: permanece oculta pelo horizonte universal do Ser que tornou
possível o seu desvelamento compreensivo. Pensamos que a idéia de uma transcendência
da existência para o Nada, bem longe de contradizer a eventualidade da
Revelação sobrenatural, permite salvaguardar, simultanemanete, a gratuidade
desta Revelação e a liberdade do homem em face desta.
A partir dessa idéia é que concebi e compus este
texto.
PELO LIMITE DO GRITO
Idéia louca de ser lua cheia. Ou crescente. Ou não
ser lua. Ou não ser nada. Apenas uma coisa de alguém. Que esquece em casa.
Deixa na gaveta. Junto com as camisas cheirosas. Sem ser dada ou tomada. Basta
que de vez em quando abra a gaveta. Olhe-me.
Súbito, a frieza da solidão nos ossos. Na posse do
apelo mudo. Na negligência da morte. Plana, rica. Imunda. De modo que o próprio
desequilíbrio teria esquecimento daí. Ocorre-me que recuperaria o rosto e a
expressão de inocente hipocrisia, ingênua aparência. Se o impalpável brilho da
areia esguinchasse o sono. Ansioso. Lamento. Clamor. A alternância egoísta
reluz aos olhos extremunhados do peito. E ronda, no fim da noite, a estranha
mão de fogo. Sonoridade de asas de pano. Entranhas chacoalham o vazio.
Meto outro cigarro na boca. Palavras borbulham
quentes. Debatem-se sobre tábuas ásperas. O móvel oscila um pouco. Enérgica
distância do que há-de ser apagado em silêncios. Inútil, a incompreensão
excitada.
Ilusões imergem.
Desvario passageiro, entre as mãos, reduzido ao
destino que precede mal ao pescoço que o puxa sempre mais para baixo. Esgares
sem palavras. Recorrem com um zelo arrebatado a carniça dialética e a vontade
dos carrascos.
O eco significa bastante. Indica que a humanidade
se renega e os homens não podem sair nem atingir os limites. O sussurro fornica
todos os dons para cacarejar liberdades.
Olho um papel amassado no chão. Estou bem só.
Virado para o futuro. Não dou por mim que enxugo mal os sonos no ouvido. Enxergo
mal ao longe. Miopia. Às portas das tabacarias, não sou nada, não quero ser
nada. Atiro navalhas aos fingimentos. Se me sentisse apenas feliz até ao
absurdo e aos viscosos. Dúvidas. A descrença cobrir-me-ia de vergonha.
O excesso do louco reside no meu prazer. Mãos ecoam
no movimento de dedos. Traço linhas gerais. Facas cortam o osso temporal.
Espalham cinzas ao comprido de ausências. Impregnado entendimento de sonhos
esgotados.
Irrisórias in-verdades de instantes-limites do
verbo de tempos pretéritos - angústias, tristezas, acompanhadas de insônia,
medos, inseguranças do porvir. O que era sonho tornou-se pesadelo, originando
desespero, era outro e nem imaginava, quaisquer noções. Ad-verso aos preceitos,
dogmas, princípios. Andar solitário por entre os homens, sem os lenços,
documentos quotidianos, triviais de con-sentimento das idéias, pensamentos,
valores e virtudes mundanos, à busca de quê, desejando o quê, esperança em quê.
Feto, aeiou. Feto, aeiou. Feto. Féretro. Falta-me
afeto. Falta-me redescobri-lo. Descentraliza-lo. Distribuí-lo. Entrega-lo.
Estou um feto. Molhado por dentro e por fora. De
dentro para fora. Esse branco.
Esse sol.
Esse reflexo.
Esse eu.
Misturo. Tudo. Faço nada. Sensação. Portão. Plutão.
Este muro já devia ter caído. Todos caem. Esse
entre nós. Entre eu e eu.
A noite cerra as pálpebras com um olhar morto. A
interminável madrugada instaura-se – reconheço a sedução do pecado. Só e nu.
Por dentro, o cancro da indiferença a comer-me. Sentar-me à beira da vida é o
suicídio mais covarde, por manter a aparência de desejar existir, ser sensível.
Só... O manto verde e amarelo vem e corta-me pelo
limite do grito. O sobretudo branco e azul some e resgata-me pelo absurdo da
audição. Arde-me no corpo a angústia do exílio, queima-me. No sangue, a
vertigem. Ser inteiro na consciência. Igual a mim e tão abandonado. A serpente
da tarde ergue-se, insanamente, do fosso.
Ah, se pudesse ser, nas mãos, só o símbolo do amor
e da harmonia. O vento ermo no campo traz a inteligência no bolso.
Manoel Ferreira Neto.

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