COMENTÁRIO DA AMIGA VIVIANE FERREIRA AO TEXTO//**TRANSPARÊNCIA CLARA DA LUZ**//


A obra de arte é objetivação da indagação do ente.
Minha'alma deleita-se em apreciar suas letras, que sempre é um banho de cultura!

Viviane Ferreira. 

TRANSPARÊNCIA CLARA DA LUZ

Agradecemos a IVO PEREIRA, músico-escritor-amigo, haver-nos gentilmente cedido este verso, tornando-se um título.

A obra de arte é objetivação da indagação do ente

De início, primeira linha, correspondendo à Introdução, surge num instantâneo, após o título, atitude ética, a epígrafe “A obra de arte é objetivação da indagação do ente”... Encontramos esta imagem que é a bússola de orientação, a imagem do horizonte a ser interiorizada e realizada, o que somos, o que temos de ser, o que há-de vir, tudo isto é suficiente para preencher os espaços vazios da vida, inundar as ausências sedentas de presença, e ocupar o íntimo esforço não no sentido de interpretar, mas de estar vivendo e experienciando o sonho e a utopia do encontro do Verbo Amar. 
Diamantina é um admirável abismo cujos habitantes, vendo as próprias sombras se agitarem nas pedras da montanha, ruas, paredes das casas, consideram-na Gênese dos desejos e sonhos de artes que refletem a busca da liberdade; consideram as artes a realidade única onde os espíritos revelam e manifestam os íntimos à busca da identidade refletida na fugaz celebridade, notoriedade, que esta cidade concede. 
Se, caminhando nas alamedas, becos, ruas, aprendemos que existe uma luz por trás de nós, esta luz é a sua História de lutas árduas pela liberdade e identidade do povo, conciliadas à utopia da harmonia e sintonia com os anseios dos homens, com o processo histórico; conciliadas às Artes, sejam as Plásticas, Literárias, a Música; aprendemos que não é necessário voltarmos à casa, encontramos acolhida e prazeres na entrega e contemplação destes ideais de felicidade, abandonando nossos vínculos, para encararmos Diamantina de frente, e que a nossa mais íntima tarefa, antes de morrer, de atingir a imortalidade, é a de buscar, desejar, aspirar, por entre todas as manifestações possíveis, a Transparência Clara da Luz, esta que se nos ofusca os olhos, mas nos desperta para a Verdade.
Cada artista vive à busca de uma verdade que seja a sua, consciente que é d“o artista ser a origem da obra”, d“a obra ser a origem do artista”, “nenhum é sem o outro”, servindo-nos das palavras do filósofo Martin Heidegger, desfaceladas para atenderem à estética, ao estilo, à beleza, à idéia. 
Se possuir autêntico talento, lídimo dom, cada uma de suas obras o aproximará ou, ao menos, fa-lo-á conceber-se como unificação e integração, aquilo que o filósofo francês Gilles Deleuze chama de “unidade extensiva das artes”, e esta, sem dúvida, é o Dom musical. Se for medíocre, porém, cada uma de suas obras o afastará e, então, a imagem dispersar-se-á por toda parte, des-feita na Transparência Clara da Luz. 
É verdade que os bons artistas, os bons e iluminados espíritos preocupam-se com a Imortalidade da Alma – sem a imortalidade da alma, o que é a Vida? Mas isso ocorre tão-só porque recusam a atmosfera que habita o mundo, impregnada de dores, sofrimentos, pré-conceito, repressão, violência, desrespeito, entregando-se à outra, a que os aproxima da verdade, antes de lhes ter esgotado o ar. Os bons espíritos preferem a poesia, pois diz ela respeito à Alma, os iluminados, a História, Filosofia, por dizerem as três respeito à Imortalidade. Percebe-se, com evidência, estarmos a jogar com as palavras. Em verdade, desejamos apenas consagrar uma poesia mais elevada: é na alegria e na esperança que os artistas diamantinenses preparam suas lições e, ao atingir o mais alto nível de exultação e exaltação, a carne se torna consciente de que a liberdade está próxima, torna-se Verbo, pois sente forte a dor das algemas, das correntes, e consagra sua comunhão com um mistério sagrado cujo símbolo é a História, as Artes e a Cultura. Diante do espetáculo de beleza das Serenatas, da Vesperata, é impossível não nos apegarmos à Música, não contemplarmos sonhos dentro de outros sonhos, dentro de outros sonhos, assim como nos obstinamos, aferramos à única felicidade esperada, que deve deleitar-nos, mas perecer de imediato. 
Desde o fundo deste abismo magnífico, para o coração começa a volúpia para os homens desta terra, volúpia que se anuncia na atmosfera rarefeita do que é belo, a persuadirem-se de que se pode aliar a grandeza e a bondade através da sensibilidade, contemplação, intuição, inspiração, percepção, sensação, através da Criação. 
Mas, neste abismo singular, cercado de serras, é que os habitantes sonham, para além delas, o horizonte, o universo em sua plenitude; é sensível àqueles capazes de nele viverem, de contemplarem as Águas Vivas da Felicidade na Transparência Clara da Luz. É conveniente, a fim de que melhor se possa sentir a presença e vitalidade da Música Diamantinense, assistir às apresentações de Serenata, às Vesperatas, os músicos nas sacadas das casas, o maestro embaixo, cercado de pessoas. 
Tanto o espírito histórico quanto o artista diamantinense desejam re-fazer o mundo. Entretanto, o artista, por uma responsabilidade de sua natureza, conhece, de perto, as sementes que nela habitam, a fertilidade de suas imaginações, intuições, o que se lhe torna possível criar e estabelecer, recriar e instituir com palavras, as imagens, representações, sons e ritmos, a imagem nítida da Transparência Clara da Luz. 
A liberdade que o povo diamantinense aprendeu a contemplar, através de manifestações artísticas e culturais, revela-se faculdade que corresponde à dimensão espiritual do ser-homem. 
As artes diamantinenses ensejam experiência mais global da realidade, permitindo aos habitantes, turistas amantes de uma temporada, amantes por todo o sempre, que a Transparência Clara da Luz ilumine os caminhos de trevas, de escravos, e a nossa dimensão espiritual afague a contingente. “Essa é a experiência de transcendência fecunda, verdadeiramente humana”, nas palavras de Leonardo Boff, que os diamantinenses aprendem a cada passo, sabendo eles que “passo a passo cada passo é um passo”, nas palavras do Dr. Paulo César Carneiro Lopes, em direção à vocação humana, à felicidade, felicidade que se revela nas Artes.
O que é a felicidade senão a simples harmonia entre um ser e a sua própria existência? E que harmonia mais legítima pode unir o homem diamantinense à vida do que a dupla consciência de dons e talentos, de desejo de liberdade e de seu destino de imortalidade através da criação em sintonia com os sonhos e utopias? Graças a isso, aprende-se a considerar a vida a única verdade que nos é oferecida, é-nos legada à guisa do imenso soluço de poesia que inunda tudo, do coração que é capaz de intervir e ditar sua felicidade, aperfeiçoá-la, de oferecer ao espírito o terreno “propício para que ele tome consciência de si mesmo”, nas palavras de Hegel. A consciência artística diamantinense existe nas suas arquiteturas, ruas, igrejas, artes, cultura, espíritos sedentos de conhecimento, capazes de interferir e reclamar seus direitos e vocações, porque só em todos elas a História existe.
Será suficiente dizer o artista diamantinense resigna-se com bom humor a permitir que se espalhe pelas salas de representações musicais a imagem de si próprio da qual sabe ser digno. Encontra o povo diamantinense, amando ou criando, em suas paixões pela Música, Poesia, Pintura, Literatura, Filosofia, História a medida de todas as paixões e, por isso, sabe traduzir os Sonhos de Liberdade e Identidade.

Manoel Ferreira.

Comentários