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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

VELHA CIDADE SEPULTADA EM SOLIDÕES - Manoel Ferreira


(Título criado em 02.07.2004. Revisado pela manhã e tarde em 02.09.2016).



Santa Piriquita de Pitibiriba!... Isto é que é!!!
O tempo invento-o. Onde posso inventar o tempo, dar-lhe outras feições e semblantes diferentes desse que fora inventado quando a memória não pode mais abarcar? quando no espelho das lembranças a imagem se reflete ausente? Existiria outro? Não me é dado saber se existiria por estar ouvindo música e esta irá terminar daqui a alguns instantes, e tudo será nada, nada será desse momento, a não ser que de novo coloque a música para ser executada, o tempo será outro diferente desse, não o inventei, acontecerá independente de minha vontade. O interesse é inventar o tempo.
Invento-o no meu sangue que percorre o corpo através de suas veias desde os dedos dos pés até a cabeça, da cabeça aos dedos do pé. É um tempo absoluto, o fulgor da eternidade. Por que tanto interesse em inventar o tempo? O que me excita no sentido de o fazer? Não me é difícil sabe-lo: é só olhar esta cidade à noite, quando se percebe que tudo está sepultado em solidões, solidão nos becos, solidão no interior de todas as casas, solidão no corações de todos os humanos.
A vida nessa noite de inverno entendo-a na iluminação do frio em que me sinto, sinto-a nas retinas, sinto-o no corpo inteiro, e não desejo o que quer seja para defendê-lo, ampará-lo. Entendo-a na iluminação em que me estou vivendo, um estrangeiro que, após a paixão inesperada, viu-se envolvido inteiro por ares inóspitos de tudo o que fora construído no passado, e nada hoje conservado, preservado, sentimentos e emoções trancafiados nos subterrâneos de outrora, a chave perdida para sempre.
É possível por isso que a todo o meu passado eu o esteja coordenando sem saber, sem qualquer noção, eu o esteja re-criando sem saber, reinventando sem o desejar, como se fosse ele inimaginável fora de como o estou vivendo. Fora do frio, dessa noite de inverno, fora da iluminação dos postes públicos, das luzes das casas e dos prédios que ameaçam a todo momento ruírem e em questão de segundos tudo se tornar escombros de um tempo, e nada mais existir hoje, restando seguir alguma estrada à busca de um lugar onde tudo se anuncia, onde tudo é apenas anunciação, revelação.
Tudo isto é verdade. Se tenho tanta necessidade de inventar algo, só posso pensar em duas possibilidades para explicar: primeiro, o tempo nunca existiu; existiu, mas fora vivido por todos os homens de um único modo e estilo, e a fixação fê-lo extinguir-se, nada mais existindo dele. É verdade, porque a solidão é tão estúpida, medíocre, mesquinha.
Tenho apenas para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse ao seu encontro, contar-lhe, sentados num tronco de árvore, à porta, o que conseguira criar, inventar, o que conseguira realizar. Por isso, procuro-a nesses escombros todos de todas as ilusões, orgulhos, empáfias, procuro-a em toda a parte onde sei que me espera como uma palavra a dizer, um sentimento a expressar com seriedade e honestidade.
O que se pode relembrar de Atenas Atéia não tem face nem nome, é a forma oca, vazia de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição. Num longe imaginado, passam os ventos em linha, os sibilos em seqüência, massas de neblina deslizam sobre as ruas, becos, alamedas, prédios abandonados, uma voz de espaço ressoa à minha atenção suspensa.
O que é certo e imediato – ao menos, é o que consigo fantasiar nessa noite de inverno, sentado ao banquinho de pedra nessa praça, tão esquecida quanto qualquer outra existente, tão inexistente quanto as calçadas ao longo de toda Atenas Atéia -, o que me vem à boca e tem nome, o que é exato e imensurável, refugia-se na timidez da penumbra e do silêncio. A voz que me fala transcende o passado e o futuro, vibra verticalmente desde as minhas raízes até aos limites do universo, aí onde a lembrança é só pura expectativa despojada do seu contorno, é só pura interrogação.
Neste instante absoluto, conheço a vertigem da infinitude, o halo mais distante da minha presença no mundo. Se houvesse alguém comigo aqui, conversando, estando a dizer-lhe isto mesmo, poderia perguntar-me com todo o direito e merecimento a razão de haver trocado o lugar de onde vim, onde tudo é ainda anunciação, revelação, tudo fulgurando em aparições, tudo podendo ser inventado e criado, por esta velha cidade sepultada em solidões, não saberia dizer, e daí em diante não expressaria uma única palavra mais, o nó górdio estaria estabelecido para sempre.
A experiência de mim próprio, do inverossímil milagre do que sou, é extraordinariamente difícil, e de si mesma miraculosa. Habita-me um poder brutal de uma evidência fechada, de uma irredutível necessidade que me vem deste sentir-me um indivíduo, uma inteireza sem traço de união, um absoluto de presença que recusa a contingência.
Que tempo intenciono inventar, criar? Que novas idéias, sonhos, utopias quero contemplar? Para além das palavras, onde estará a palavra capaz de identificar-lhes, mostrar as chamas do presente que se anunciam frescas e suaves? Li em algum lugar sobre a palavra que brota do silêncio, que cresce espontânea e livre.
Quem sou? Posso res-ponder a questionamento, que tanto me exige a autenticidade em confessar as dores e sofrimentos – palavras de um poeta, de um sonhador, de um prosador da busca do verbo amar, do sentimento verdadeiro antes de todas as palavras, de todas as expressões e linguagens, de todas as inteligências integradas no sonho de união de todos os desejos, mas antes é necessário e fundamental traduzir os sonhos, e talvez não o esteja traduzindo neste momento, contudo dando-lhe um toque de sensibilidade, e ninguém é capaz de reconhecer estes sentidos nas entrelinhas, insistindo em seus pontos de vista, interesses e ideologias.
Vela cidade, não irei sepultar os sonhos e utopias trouxe em mim na carne e no sangue, o que daria sentido à vida, não irei de modo algum, custe o que custar não torno esta vida minha solidão, sepultando-a em sua terra, coberta de pedras ou diamantes, e a iluminando a escuridão do cemitério, e nada mais pelas ruas, somente as suas pedras, poeiras, e tudo mais esquecido num sonho que construíram à custa da escravidão de muitos, e deixaram tornar-se nada, escombros de um conhecimento da liberdade, de onde nada mais nascerá para o gosto e o paladar de sonhadores, de artistas, de pessoas que desejam deixar suas marcas, traços...
Atenas Atéia, não nasci de seu útero, não fora gerado por algum tempo, mas sinto na carne a presença de seus sonhos – é preciso, solo a que tanto amo por haver aprendido no quotidiano que impinge a todos, este de subir e descer... Nasci para o inverno e o silêncio, acompanhados do sonho do verbo amar, do silêncio, e da solidão (que, ora, coloco entre vírgulas não sendo preciso, e isto mostra o desconhecimento das regras que esclarecem o sentido de todos os sentimentos...)...
Não termino os sentimentos, deixando nas entrelinhas o que hoje sou, um viajante da ressurreição, e todas as terras são liames e junções de meu passado e de meu presente, pois estas letras jamais serão apagadas...
Atenas Atéia!....


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